Nuno Campos

Carvalhos aos Montes

 Lafões foi outrora considerada a Sintra da Beira. Talvez ainda o seja, mas é necessário preservar o que ainda resta de verdadeiramente genuino e identificativo da nossa realidade florestal autóctone.

Em Lafões, podemos encontrar ainda alguns carvalhais (com elevados valores de biodiversidade), que revelam alguma da composição florística dos antigos bosques caducifólios que ainda não há muitos anos abundavam nesta zona.  Nas zonas mais abrangidas pelo clima atlântico, surgem as matas húmidas de carvalho-comum (Quercus robur, L.) e o azevinheiro (Ilex aquifolium, L.). Acima dos 900 metros o carvalho-comum dá lugar ao carvalho negral (Quercus pyrenaica, L.), existindo também o vidoeiro (Betula alba, L.), o pinheiro de casquinha (Pinus sylvestris, L.) e o teixo (Taxus baccata, L.).

Os Descobrimentos e respetiva Expansão marítima, tiveram grande impacto na devastação das formações florestais do nosso país. A investigação histórica florestal, revela que os Descobrimentos tiveram uma grande responsabilidade na exploração e declínio das florestas europeias e, evidentemente, também das de Portugal. Segundo o Botânico e investigador, Jorge Paiva inicialmente para a construção naval, era utilizada a madeira de azinheira (Quercus rotundifolia) e a de sobreiro (Quercus suber), mas devido a esta grande procura, começou-se a pôr em risco a abundância destas duas espécies de carvalhos, que forneciam respetivamente, a bolota comestível e a cortiça, foi nessa mesma altura, proibido o abate destas duas preciosas e úteis espécies de árvores, tendo sido substituídas pelo carvalho-alvarinho (Quercusrobur). Este carvalho-alvarinho, que é espontâneo em Lafões, é sem dúvida o de maior porte que temos, e estima-se que para cada nau seriam necessários, entre dois mil a quatro mil carvalhos. Outras madeiras também foram utilizadas, mas em menor quantidade, portanto, com fraco impacte ambiental, nomeadamente a madeira do pinheiro bravo (Pinus pinaster) para a mastreação e vigamento e a madeira de castanho (Castanea sativa) para o mobiliário. Hoje em dia, sabemos pelos historiadores, que só para a “Campanha de Ceuta”, foram necessárias 200 a 300 naus durante a Expansão dos Descobrimentos, para a da Índia construíram-se 700 naus e para a campanha do Brasil 500. Portanto, e segundo o Botânico Jorge Paiva, estima-se que durante essa época se teriam derrubado efetivamente, mais de 5 milhões de carvalhos. Segundo este botânico, não haverá dúvida, que foi assim que se desflorestou a grande parte do nosso país, levando mesmo ao desaparecimento de muitos dos nossos riquíssimos carvalhais, plenos de Biodiversidade. O declínio não foi apenas de plantas, atingiu também o reino Animal, com destaque para  o urso-pardo, que se extinguiu também nessa mesma época, em Portugal.

Assim, as montanhas, particularmente as da região entre o Douro e o Tejo, foram praticamente desarborizadas e, portanto, erodidas, tendo sido o respetivo solo arrastado assoreando os rios. Com as montanhas desarborizadas, a população passou a viver do pastoreio. A pastorícia intensiva também teve um grande impacto na destruição da flora portuguesa, utilizando gados nacionais, mas também espanhóis na época medieval. A quantidade de animais que pastava nas serras era muito elevada, degradando os ecossistemas florísticos da montanha, com a consequente erosão dos solos.

Os fogos e a prática das queimadas nas regiões agrícolas e também nas regiões de pastoreio, foram outro fator que contribuiu e continua a contribuir para uma desertificação efetiva das nossas montanhas. As referências de fogos em Portugal podem remontar-se, pelos menos, aos fins do século XII, e os seus nefastos efeitos operaram uma modificação quase integral na cobertura vegetal de Portugal, e o consequente assoreamento de uma grande parte dos nossos rios.

A partir de certa altura, essas áreas de mato foram rearborizadas com o pinheiro bravo (Pinus pinaster).

As nossas montanhas transformaram-se então num imenso pinhal, outrora cobertas fundamentalmente por carvalhais caducifólios.

Como é do conhecimento público, a partir de 1975 aumentaram grandemente os fogos florestais em Portugal, constituindo-se assim um verdadeiro “problema nacional”, a destruição não só da nossa vasta área de pinhal, como também de alguns “bosques relíquias”.

Como consequência dessa destruição do pinhal, tem-se vindo a assistir a um aumento sistemático da área ocupada por eucaliptos por serem infestantes bem adaptadas a zonas incendiadas e por outro lado são indiscriminadamente plantados, devido ao seu grande valor económico, como matéria prima para a Indústria de Papel.

Estas explorações agroflorestais mono específicas (compostas apenas por uma só espécie vegetal), são promotoras do empobrecimento genético e da própria “diversidade vegetal”, pois são explorações que provocam baixas drásticas na Biodiversidade, como também são formações de elevada homogeneidade genética.

Isto implica maiores riscos de catástrofes, como incêndios de grandes proporções e maior predisposição para propagações de epidemias: Portugal tem cerca de 3300 hectares do seu território florestado, e provavelmente um terço dessa área está ocupada com eucalipto. A política florestal dos últimos anos tem contribuído para a descaracterização da floresta portuguesa. A floresta autóctone, de uso múltiplo, está a ser substituída por monoculturas intensivas que fomentam o absentismo rural e têm impactos irreversíveis no solo, na água e na biodiversidade.

As vantagens da floresta são sobejamente conhecidas. Mas será que podemos chamar floresta a uma plantação de eucaliptos? Uma floresta é um sistema complexo que se auto-regenera e que possui uma grande variedade de plantas em diferentes estados evolutivos.

Uma plantação de eucaliptos é uma área cultivada, composta por árvores da mesma espécie – muitas vezes clones – plantadas em blocos homogéneos da mesma idade.

O objectivo destas plantações é produzir e colher grande quantidade de madeira no menor tempo possível. Não difere muito de uma cultura agrícola…”

Se continuarmos neste “caminho”, é óbvio que o que resta da floresta portuguesa, fará parte da história…, com todas as graves perdas da biodiversidade, que ainda hoje possuímos, e assim caminharemos para uma situação irreversível, do ponto de vista do valioso património, “florístico” e “faunístico”, que nenhum de nós desejaria perder. Como tal, deveremos todos desde já, desde políticos a simples cidadãos, implementar medidas que contrariem a degradação e a destruição do que resta da nossa floresta autóctone. Promovamos a sua reflorestação!

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