António Gouveia

Comportamentos e sobressaltos

A sociedade portuguesa vive hoje entre comportamentos esquizofrénicos e sobressaltos esquizoides. Fora da realidade que nos cerca, somos perturbados com tendências de solidão, devaneios e ensimesmamentos, a nossa capacidade afetiva tem diminuído com os problemas das funções intelectuais, enfim, entrámos em rutura com o contacto humano e o mundo exterior, um egoísmo plangente, oposto do amor que é solidariedade, logo ou verbo que, há muitos anos atrás, definia a caridade, estado de graça e amor connosco, com os outros e com Deus, fosse Ele qual ou quem fosse, lá no fundo, todos somos mais ou menos religiosos.

Além do coronavírus, fomos agora confrontados com outros sobressaltos: a eutanásia ou “boa morte”, tolice grega, morfológica e semântica, a morte nunca é boa para quem parte nem para quem fica, querem referendar, imaginem, uma questão que é só nossa, de cada um, da sua consciência, do seu comando. Também o racismo, como se este fosse, ainda, o que foi durante séculos, questão ou problema de cor e raça e não já, pós conceito exclusivo de classes, os mais inteligentes contra os menos dotados, os mais ricos contra os mais pobres, por aí além, já todos indiferentes às questões da cor, da raça e do bairro social, há séculos que as lutas dos escravos gladiadores nos coliseus foram substituídas pelas lutas do futebol em modernos estádios, a mesma crueldade dos espetadores, a mesma turbulência, a mesma brutalidade cretina e selvagem. O sobressalto das alterações climáticas, esse, já não nos comove, apesar de os fenómenos de cheias e incêndios se repetirem mais e mais, só nos interessa saber se é o diesel, o biodiesel, o híbrido ou o elétrico que irão vencer nesta guerra comercial de tubarões e decidirmos qual modelo adquirir.

Depois, há toda uma série de comportamentos e sobressaltos que os governos (este ou outro) não conseguem controlar, a regulação e a administração. Ou seja, assistimos ao evoluir de situações impensáveis, como esta que leio hoje (já sabia) das forças armadas, a administração mais hierarquizada, competente e resiliente, que começa a entrar em colapso diminuição e dificuldade de recrutamento de efetivos, em queda anos seguidos, sem que alguém tome medidas, estão todos entretidos a discutir Tancos, por este caminho desparecerão um dia destes. Ou de uma TAP que não se deixa controlar, os CTT sem regulação, a justiça, um pântano onde ninguém põe o pé,  tudo se vai escapando ao controlo governamental, todos querem mandar e ninguém manda, anestesiados pelos pequenos poderes diluídos, escondidos e não renovados, espalhados pelos muitos esconsos da casa. Por que assim acontece? Temos um governo fraco, minoritário, não inspira confiança, tem poucos governantes com experiência e competência. Mas não é só o governo, o que se passou na discussão e aprovação do orçamento 2020, corrupio deplorável e quase inútil, dá-nos a medida desta política e toda uma administração pública que nos devia defender e servir acaba por sofrer com este status quo impotente, a local, a direta, indireta e reguladora, todos ao monte e fé num deus menor.

Entretanto, os melhores portugueses, independentes e descomprometidos, vão desaparecendo, que ainda tinham coragem de denunciar estas querelas esquizofrénicas, tropelias e tolices, partiu Vasco Pulido Valente, o Eça destes tempos modernos, ou “manhosos”, como alguém definiu, um cronista e escritor mordaz, cáustico e verrinoso que tanta falta nos vai fazer. E os que ainda tinham ou tiveram tempo para ajudar e melhorar a política, enquanto governação, João Ataíde, Pina Moura e Pedro Batista. Somos sobressaltados e não reagimos? Como, se perdemos o ânimo e quem não o perdeu, foi para o estrangeiro em busca de futuro melhor? Ficamos os velhos, com as nossas culpas nesta incapacidade de previsão dos tempos.

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