Manuel Silva

UM EQUÍVOCO CHAMADO JUAN GAIDÓ

A Venezuela vive numa ditadura, mal disfarçada de democracia, desde o tempo de Hugo Chávez.

Não basta haver eleições para se viver em democracia. Adolf Hitler também foi eleito pelo povo em eleições livres, o que não são as da Venezuela.

Tanto com Chávez como Maduro, as eleições eram e são uma farsa. O poder político controla a generalidade dos meios de comunicação, reprime e prende opositores, incluindo pessoas eleitas para cargos políticos, havendo mesmo assassinatos.

Há, no entanto, uma diferença entre Chávez e o seu sucessor. O governo de Chávez, com todos aqueles males, melhorou significativamente as condições de vida dos mais pobres. Nicolás Maduro destruiu o tecido económico e social. A inflação é catastrófica, o desemprego enormíssimo. Grande parte da população vive miseravelmente, a fuga de venezuelanos e imigrantes, entre os quais milhares de portugueses, é às centenas de milhar.

Numa sociedade destas justifica-se uma revolução. Foi o que tentou fazer Juan Guaidó, presidente da Assembleia Legislativa eleita pelo povo. Só que, a sua tentativa revolucionária caracterizou-se pelo aventureirismo, falta de organização, sem um projecto concreto para resolver os problemas da Venezuela, tendo sido facilmente derrotado pelas forças políticas, policiais e militares fieis a Maduro.

Ao ver-se derrotado, pediu a Donald Trump que invadisse o seu país. Esta atitude demonstrou o seu desespero, impreparação política, não ter noção de quais seriam as consequências de tal acto: intervenção da China e da Rússia ao lado de Maduro, ou seja, uma guerra entre potências, que poderia descambar numa III guerra mundial. Felizmente, desta vez, Trump, ou alguém por ele, teve mais juízo que Guaidó, que faz lembrar o radicalismo e o aventureirismo de Otelo Saraiva de Carvalho durante o PREC, ainda que defendendo posições políticas diametralmente opostas às do auto-proclamado presidente interino da Venezuela.

Por outro lado, se os americanos entrassem na Venezuela e vencessem, como não dão nada a ninguém sem receberem muito mais, o que no nosso país se chama “dar um chouriço e receber um porco”, tornariam aquele país sul-americano numa espécie de colónia, cujas riquezas rapinariam. Todos os povos sul-americanos sabem que os gringos são assim. Daí a falta de apoio a Guaidó, que a comunicação social disfarça manipulando imagens.

Os governos europeus, de um modo geral, apoiam Guaidó, não se apercebendo do equívoco que o mesmo constitui. Estão a fazer a figura de idiotas úteis, segundo a classificação de Lenine.

PS: no dia em que escrevo estas linhas, faleceu Pedro Batista, de 71 anos, dirigente estudantil, no Porto, no final dos anos 60/princípios dos anos 70 do século XX. Esteve preso pela PIDE e mergulhou na clandestinidade Foi um dos fundadores do grupo “Grito do Povo”, em 1971, que deu origem à Organização Comunista Marxista-Leninista Portuguesa (OCMLP), que viria a liderar após o 25 de Abril, a qual teve o seu fim em 1987.

Quando esta organização desapareceu, o seu dirigente António Abecassis regou-se com gasolina e incendiou-se, morrendo junto à foz do Douro, deixando uma carta que dizia ser o seu gesto um apelo a “todos os operários e demais oprimidos para que se revoltassem contra o capitalismo”.

Após aquela data, Pedro Batista aderiu ao PS, tendo sido seu deputado à A.R.. Mais tarde esteve no Partido Democrático do Atlântico (PDA). A convite de Rui Moreira integrava a actual Assembleia Municipal do Porto, fazendo ainda parte da Comissão comemorativa da revolta liberal na Cidade Invicta.

Teve um papel importante na defesa e promoção da cultura na sua cidade de nascimento, o Porto.

A política e a cultura no país e, muito especialmente no Porto, ficam mais pobres.

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