EDITORIAL 777
Festa ou solidariedade?
Festa ou solidariedade?

Fevereiro é tempo de matança do porco. Não tem que ser necessariamente em Fevereiro, mas tradicionalmente era nos meses de inverno. O frigorífico era o frio que entrava pelas frestas das paredes de granito e o congelador que conservava a carne para o ano inteiro era a salgadeira. Por isso os porcos se matavam em tempo de frio para servirem de alimento durante o ano inteiro. Em muitas casas agrícolas um porco tinha de dar para todo o ano.
A solidariedade era uma prática comum entre as famílias camponesas. Partilhavam as tarefas mais exigentes na base da entreajuda. Era assim nas ceifas, nas colheitas, nas malhas, nas podas e também na matança do porco, entre outras.
Claro que esta solidariedade era acompanhada, em todos estes trabalhos, por almoço e jantar à medida.
Para a matança do porco eram convidados dois ou três vizinhos que ajudavam a segurar o animal. Normalmente a tarefa de lhe espetar a faca na carótida cabia ao dono da casa. Quem cria os animais não lhes quer infringir sofrimento, por isso executa o acto com o máximo rigor de modo a minimizar o sofrimento dos animais. Depois havia que queimar a pelagem, lavar bem a pele e abrir o porco.
Esta era tarefa de homens numa sociedade patriarcal que organizava as tarefas de forma sexista.
A tarefa seguinte, separar a gordura das tripas e preparar as tripas para fazer as morcelas e as chouriças cabia às mulheres da casa.
Fazer as morcelas e as chouriças era também uma tarefa feminina.
No dia da matança comia-se os “miúdos do porco”, o fígado e outros. No dia seguinte que era o dia da desmancha, tarefa dos homens, era dia de presentear os vizinhos que ajudaram à matança com um jantar que incluía um bom cozido, febras e sarrabulho. Era a festa da matança do porco.
A pergunta que se coloca é: festa ou solidariedade? Não tenho dúvidas que eram momentos de solidariedade entre camponeses. Uma prática que ainda perdura em muitas nas aldeias do nosso país.
Muitas famílias continuam a fazê-la por necessidade, mas outras para manter a tradição.
Entretanto, as salgadeiras foram substituídas por arcas frigoríficas, o que permite uma melhor conservação da carne ao longo de todo o ano. É festa, mas a festa da solidariedade.
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