João Carlos Matos do Vale
“OS EX-COMBATENTES”
“OS EX-COMBATENTES”

Quem tem o gosto pela história da humanidade e especial dos grandes conflitos bélicos, certamente não deixará de ter curiosidade pelo que aconteceu nas duas grandes guerras mundiais e na guerra do Vietename. Não irei fazer um enquadramento da geopolítica à época, nem tentar explicar o que levou ao início do conflito.
As guerras são por norma de iniciativa de um grupo de “velhos” sentados nas confortáveis cadeiras do poder, com toda a segurança que por razões estratégicas, políticas ou religiosas, decretam guerra contra outro grupo igualmente de velhos. A verdade porém é que quem vai para a frente da batalha são jovens, muitos deles imberbes tantas vezes desconhecedores das ideologias reinantes nos alcatifados corredores do poder que obedecendo às superiores ordens, vão morrer longe da terra mãe. Alguns regressam, feridos, estropiados, com mazelas para o resto da vida. Mesmo aqueles que regressam sem problemas físicos, trazem consigo os sons das explosões e tantas vezes o cheiro nauseabundo dos cadáveres tombados no chão de ninguém.
Como brilhantemente escreveu Fernando Pessoa, estas “malhas que o império tece”, transforma jovens cheios de vida, em adultos de semblante carregado, portadores de uma dor que só no dia da sua morte se vão conseguir ver livres.
E o que se passa com aqueles que não são chamados para a frente da batalha? As mães, irmãs, noivas e mulheres, vão chorando e lamentando a sua sorte. Os oficiais generais vão enchendo o peito de medalhas e de louvores, enquanto os doutos decisores se vão glorificando de feitos conseguidos à custa do sacrifício de muitos.
Aquando da Guerra do Vietname, os militares que lá lutaram, ao pisarem de novo o pátrio solo foram recebidos como criminosos, pois para alguns esses soldados, não estavam a proteger o seu país no continente asiático, mas sim a defender uma determinada ideologia política, contra outra. Esqueceram-se porém esses críticos que o soldado é um cumpridor das ordens que superiormente recebe.
Hoje a mentalidade do povo norte-americano é diametralmente oposta. Um ex-soldado é visto como um veterano de guerra e tido como um herói nacional, perante a quem o comum dos cidadãos respeitosamente agradece.
Portugal teve na Guerra Colonial envolvidos cerca de cento e cinquenta mil soldados, dos quais faleceram cerca de mais de oito mil e mais de quinze mil regressaram com deficiências permanentes (físicas ou psicológicas). Hoje, quase meio século após o último disparo neste conflito, felizmente já se fez as pazes com as antigas colonias agora países independentes, mas infelizmente ainda não fez as pazes com os portugueses que por lá andaram a cumprir as ordens superiormente emanadas. É tempo de fazer justiça para com os nossos militares que se viram privados de anos da sua juventude e quantos deles ainda carregam esse fardo. Esses sim (à semelhança das forças de segurança e das forças de socorro) são os verdadeiros heróis e não aqueles que pagos principescamente marcam o golo da vitória, numa qualquer competição desportiva.
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