António Bica
AS MIL E UMA NOITES DE MUITOS CONTOS (18) - O Moço de Recados e as três Donzelas (continuação)
O Moço de Recados e as três Donzelas (continuação)
Na madrugada, Xerazade, sentindo que Xariar estava curioso por saber a continuação da história, começou:
Continuou o segundo peregrino: Quando bati nas palavras mágicas, a rapariga disse-me: «Não tarda aí o génio. Foge por onde entraste». Corri pela escada, esquecendo-me das sandálias e da machada. Voltei atrás, mas logo se abriu a terra e surgiu um demónio enorme que, sem me ver, disse à jovem: «Que desgraça te aconteceu para bateres com tanta força nas palavras mágicas?» Respondeu: «A solidão oprimia-me. Com o desespero, levantei-me bruscamente, caí e, sem querer, bati nas palavras mágicas da cúpula». Censurou-a: «Mentes desavergonhadamente. Como é possível teres caído para cima?» Pôs-se a procurar por todo o lado a ver se via alguém. Viu as sandálias e a machada e gritou: «Que é isto?» Ela voltou sem pestanejar: «Nunca vi tais coisas. Seguramente vieram contigo sem saberes, ou para me acusares sem razão». O génio redobrou a cólera: «São pérfidas essas palavras. Queres confundir-me com habilidades». Então rasgou-lhe os vestidos, prendeu-a a um poste e começou a chicoteá-la. Sem poder livrá-la da tortura, corri pela escada, antes que o génio me visse, até à luz do dia e tapei a abertura. Enquanto abandonava o local, a consciência censurava a minha cobardia. Embora o monstro me matasse, não tinha o direito de fugir. Enquanto assim pensava, cheio de desalento, fui seguindo até à loja do alfaiate. Encontrei-o preocupado por, por tanto tempo, não me ver. Disse-me: «Alegra-me o coração te ver. Temi que a desgraça se houvesse abeirado de ti». Sem que tivesse ocasião de lhe contar o que se passara, bateram à porta. Foi ver quem era e regressou dizendo: «Está aí um homem. Traz as tuas sandálias e a machada. Pelo que diz encontrou-as no caminho e quer entregá-las a quem as perdeu. Vai recebê-las e agradece-lhe o cuidado». Ao ouvir o que me dizia, empalideci de terror como se os dentes de um leão me despedaçassem o peito e as garras me arrancassem os braços. A parede abriu-se, o génio entrou, agarrou-me e levou-me para o palácio subterrâneo. Vi a jovem acorrentada a escorrer sangue. O génio gritou-lhe: «Este é o homem com que estavas, ó cróia.» Ela respondeu firme: «Não sei quem é. Vejo-o pela primeira vez». Ordenou-lhe: «Toma esta espada e corta-lhe a cabeça». A jovem, empunhando-a, caminhou para mim para me trespassar, gritando: «Morrerás às minhas mãos.» Respondi:
«Antes que a tua mão me faça/ sem remédio deixar de ver/ quotidianamente o glorioso sol,/ dizem-me os teus olhos/ o que a tua boca cala./ Num olhar, num gesto está/ todo um mundo de mensagens./ A palavra é a mais onde/ há sentimento e inteligência./ Um olhar diz além/ de mil belas palavras».
O ímpeto da jovem quebrou e atirou longe a espada. O génio entregou-ma e ordenou: «Corta-lhe a cabeça e deixar-te-ei livre». Agarrei a espada e avancei. Li nos seus olhos: «Assim me pagas?» Àquele olhar a espada escorregou das mãos que a empunhavam. Mas não desisti de lutar pela vida e interpelei o génio: «Se esta mulher tivesse feito, como tu crês, o que não deve, era meu dever cortar-lhe a cabeça. Como não fez, não posso, para me salvar, cometer tal vilania». O malvado do génio pegou na espada e, em vez de me matar, cortou a mão da rapariga, depois a outra e a seguir cada um dos pés. Assisti com o coração despedaçado. Ela, assim a sofrer, num breve olhar mostrou quanto me queria. O génio percebeu e gritou: «Esse olhar é a pior das infidelidades». Pegou de novo na espada e cortou-lhe a cabeça. Depois disse-me: «Quanto a ti, não te corto a cabeça, porque não tenho a certeza de que a infidelidade dela tenha ido além do olhar. E, se assim é, não serás culpado. Mas, porque tenho dúvidas, quero castigar-te, sem te tirar a vida. Escolhe o castigo». A opressão deixou o meu peito, que todos os males são alegria, quando substituem mal maior. Mas continuei a tentar livrar-me do castigo com a melhor argúcia.
O génio perdeu a paciência e levou-me pelos ares para o cimo de uma montanha. Aí transformou-me em macaco. Reflecti sobre os acasos da vida e confirmei a convicção de que a vontade pouco conta para as voltas da vida. Desci da montanha, andando de árvore em árvore, até chegar à beira do mar salgado, estrada de todas as esperanças para quem sente estreita a terra que pisa. Saltei para um barco que largava o cais, à procura de melhor fortuna. Os marinheiros apanharam-me e preparavam-se para me matar e comer. Chorei e lamentei-me, embora sem a faculdade da fala. Tão expressivo fui que o capitão do navio se apiedou e me salvou. Fiquei com ele e fazia-lhe todas as vontades. Sem suspeitar quem era, ficou tão espantado com as minhas habilidades, que passou a tratar-me como se fosse o que realmente era.
Ao fim de duas luas de mar alto e ventos que nos levaram velozmente, chegámos a uma cidade. O rei da terra, que era hospitaleiro e poeta, mandou por um emissário as boas vindas ao capitão que as leu de um rolo de papiro. Depois o emissário pediu que o capitão e os principais do barco escrevessem saudações ao rei. Quando todos escreveram, o capitão, por graça, sabendo das minhas habilidades, mas não suspeitando que soubesse escrever, entregou-me a caneta e papiro. Para espanto de todos, escrevi:
«Longe chegou a tua fama/ e o coro dos que te louvam,/ ó grande rei./ A escrever ninguém te iguala,/ a tua escrita é rio de sabedoria,/ onde os sábios procuram conselho./ Por muitas gerações se há de ler/ a harmonia e a beleza do que escreves./ A tua memória há de igualar/ a dos que nos tempos idos/ melhor usaram as palavras».
Devolvi-lhe o papiro. Todos leram e se assombraram pelo que escrevi.
Quando o rei leu, disse ao emissário: «Notável é este homem. Levai-lhe os melhores adornos e trazei-mo para que o cumprimente como a igual». O emissário fez um discreto sorriso de troça que não escapou ao rei. Encolerizou-se: «Como ousas sorrir de escárnio às minhas palavras?» O emissário prostrou-se e disse: «Senhor, perdoa não ter sabido conter-me, mas o autor destas palavras não é homem, mas macaco». Voltou o rei: «Não é a farda que faz o soldado valente, mas a coragem. Tragam-me quem tão bem escreve sem cuidar da aparência.» O emissário voltou ao barco, comprou-me por alto preço e levou-me ao rei. Na sua presença agi como bom conhecedor das regras cortesãs. O rei mandou servir-me os melhores frutos. Depois de comer, por gestos, pedi uma pena e escrevi:
«Ó filhos deliciosos das árvores,/ feitos para saciar as criaturas,/ sem que uma vida pereça,/ que triste é ter que matar/ para se comer o cadáver/ da vida que se tirou».
O rei quis ler o que eu escrevera e comentou: «Por Deus, admirado ficaria que um homem assim escrevesse. Que um macaco assim escreva, excede o entendimento». Mandou chamar a princesa sua filha, a quem muito estimava, para ver o prodígio. Ao chegar exclamou: «Senhor, este macaco é um homem enfeitiçado». Fiz sinais confirmativos do que dissera a princesa. O rei, que sabia que a filha lia nos corações, pediu-lhe que me libertasse do feitiço.
A aurora despontava. Xariar levantou-se para ir ao seu dever e Xerazade guardou a continuação da história para a noite seguinte.
Comentários recentes