António Gouveia

Duzentos anos depois, outro tempo, outra esperança

Duzentos anos depois, outro tempo, outra esperança

Ao contrário do que nos querem fazer crer, mais a juventude que nasceu próxima do 25 de abril – estou a falar dos meus filhos e quem anda na casa dos 40/50 anos -, a década de 60 não foi assim tão má, infernal e invernosa. Se foi o princípio do fim de António Salazar (caiu da cadeira do forte e do poder em julho de 1968, recordo-o bem, fizera 24 anos, tinha entrado para o banco, em Lisboa, a 1 março), foi também o princípio da evolução do país e mundo como hoje os conhecemos, sobretudo em termos de ciência e conhecimento, chegara o computador e, com ele, a informática,  todos os neologismos que se inventaram desde então. E chegámos à lua em julho de 1969. Já em termos de política, a juventude – os meus 20 anos, que bons foram! – começava a desesperar, paralisada e sem poder “piar”, arremetia contra a modorra instalada para tomar conta do seu lugar e futuro , a guerra do ultramar (colonial) era caso perdido, os impérios estavam a ruir, ela prejudicava o país, Salazar teimava no império para construir uma commonwealth à portuguesa, fazia sentido (parecia) mas não deixava que os colonos empreendedores e a própria nação, o seu governo, aproveitassem mais, estarmos lá há 500 anos não justificava abusos e saques, queria permanecer, não tinha gostado do que acontecera em 1961, uma “ingratidão” justificada mas não admitida, por isso, até para enviar angolares para a metrópole, a moeda tinha um ágio de desconto de 20 a 30 %,  a “justeza” e justiça da política do Estado Novo, descobrimos mundos que desenvolvemos, estávamos para ficar. Claro, faz parte da história, com abusos incontroláveis, sempre assim foi desde a antiguidade clássica.

Em 1974, aconteceu o que sabemos; fartos da monotonia e da modorra, da trela e do cabresto, tomámos nas nossas mãos a liberdade de fazer a revolução no 25 abril para andar para a frente apesar de a economia já respirar bem melhor, a dívida pública, em 1973, atingia o pico mais baixo de sempre, 15 % do PIB. O mesmo há 200 anos, com a revolução de 1820 no Porto, em 24 de agosto, a que se juntaria, em setembro, em Lisboa, outra Junta, fundir-se-iam a seguir, a família real refugiada no Brasil regressava. Porquê esta revolução? Tínhamos sido invadidos pelas tropas napoleónicas que, com Junot, Soult e Massena, mataram e saquearam forte e feio, amesquinhando e pisando o orgulho nacional, factos; mas, por outro lado, deixaram os ideais da revolução de 1789, ideias de liberdade, fraternidade e igualdade, todas elas são cruéis nos factos, mas benévolas e benfazejas nos ideias, ideais e utopias que transportam. Por causa dos factos, pedimos apoio aos aliados ingleses. Anuíram, mas, como sempre aconteceu (ainda hoje é assim), negociadas contrapartidas e interesses comerciais, tecidos em troca de vinhos (do Douro), disso ficou encarregado o general William Beresford, que, expulsos os franceses, ficou por cá nos negócios e dono disto tudo (idem, idem, hoje, passarões espertos). Não gostámos, e, em 1820, foi a vez da expulsão dos ingleses não sem que Beresford mandasse enforcar o general Gomes Freire Andrade e outros revolucionários, acusados de jacobinismo,  não suportavam a política inglesa de espólio e esbulho. Foi a chamada Monarquia Constitucional durante 190 anos e muita tinta para correr, com mais outra revolução em 1910, republicana e laica para tratar da política que, por sus vez, trata da economia, finanças e social de todo o tipo. Passados 200 anos, continuamos com os mesmos problemas, com (ou assim parece) mais liberdade. Para os muito ricos, de certeza, põem, dispõem e metem a mão onde querem, a justiça não os incomoda porque o privilégio é impune. Não tanto para os mais pobres (os desfavorecidos, a pobreza já não é o que era), vivemos num outro mundo, consequência da política e do esforço de muitos, sobretudo dos mais empreendedores e trabalhadores, também da ciência e do conhecimento, dos que, obcecados pelo saber, permanecem na sombra dos gabinetes e laboratórios das universidades, a eles devemos tanto de bom e o facilitar a vida do dia a dia.

Neste fim de semana, outro político portuense, Rui Rio, obstinado, persistente e sério, bateu o pé no congresso de Viana e tentar, mais uma vez, fazer de Portugal um país cada vez melhor, à sua maneira, uma pequena revolução. Desejo-lhe muita sorte e sucesso, conheço-o bem, confio nele e precisamos muito, estamos, de novo, num tempo de vésperas e incertezas, não é só o coronavírus, há muitos outros vírus espalhados por todo o lado que nos estão a deixar desconfortáveis e temerosos: a discussão do OE 2020, outra tolice, do UK no Brexit do dia 31 de janeiro, um abandono oportunista gerador de prejuízos para todos. À inglesa, curta, a moda de corte de cabelo quando era miúdo.

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