Francisco de Almeida Dias

Rubrica Portugal é mátria

6 junho 2010, a família Bello em Roma, na Primeira Comunhão da filha mais nova

Ana de Portugal – assim a “batizou” o Núncio apostólico no Uruguai, Mons. Martin Krebs, e foi assim que passou a ser conhecida e tratada, com grande simpatia, por todo o corpo diplomático estabelecido em Montevidéu. Isto porque, com a natural simplicidade que a caracteriza, quando numa receção oficial lhe perguntaram o nome, em vez de ter desbobinado apelidos importantes, que os tem, ou de ter lançado o mais óbvio cartão de visita sobre a mesa, o de ser a Senhora Embaixatriz de Portugal junto da República Oriental do Uruguai, ela se apresentou dizendo, tão somente, o seu primeiro nome e o país de onde vinha.

A diplomacia, no mundo instantâneo e globalizado em que vivemos, reveste-se de um papel por ventura ainda mais sensível que no passado. Ana Rita Stromp Morais faz parte, por idade e por espírito, da nova geração de representantes de Portugal pelo mundo, não como embaixadora, mas como embaixatriz, apoiando o marido. Fá-lo de modo ativo e dedicado, tendo-se tornado ao longo destes cerca de trinta anos de itinerância, num dos mais cativantes rostos portugueses no estrangeiro. Aliás, perdoe-me o Embaixador Nuno de Mello Bello, o inevitável (e bastante comum) jogo de palavras, mas, de facto, Ana de Portugal é BELLA, de apelido e de condição.

A beleza é essa coisa impalpável, que não sabemos definir senão por aproximações mais ou menos bem-sucedidas, mas que identificamos imediata e naturalmente. No caso de Ana Bello a beleza tem a ver tanto com os seus traços harmoniosos, quanto com a suavidade firme da sua voz, a sensibilidade com que olha e a leveza com que ri, os gestos sempre certos e a generosidade espontânea e ampla. É nessa profunda inteligência, temperada pelo seu bom coração e pelo seu bom senso, com cultura e com um verdadeiro entusiasmo pelas coisas portuguesas, que reside o bom serviço que, apoiando o seu marido, presta ao nosso país. Um pouco aquilo que, de Agustina Bessa-Luís, foi publicado no seu Dicionário Imperfeito: «Há nos Portugueses uma sinceridade para com o imediato que desconcerta o panorama que transcende o imediato. (…) Os que muito se formalizam muito escondem; os que acusam demasiado privam-se de ser leais consigo próprios. O país não precisa de quem diga o que está errado; precisa de quem saiba o que está certo.»

Ana Bello no Rio de Janeiro

Conheci o casal em Roma, quando o Doutor Nuno Bello era o Ministro Conselheiro da nossa Embaixada junto do Estado italiano, fazendo parte, aliás, de uma excelente equipa, liderada pelo Embaixador Oliveira Neves, na sua última missão diplomática, e que tinha como Conselheiro Cultural o saudoso Paulo Cunha e Silva (1961-2015), cujos grandes méritos em prol das artes portuguesas são tão recordados. Conheci Ana e Nuno Bello nesse entusiasmado e entusiasmante momento da vida oficial portuguesa na capital italiana, no início da década passada, mas tive a sorte de ser recebido na sua casa familiar e de ter tido a oportunidade de os conhecer também como casal feliz e sólido e como excelentes educadores dos seus três filhos – Marta, Tomás e Maria do Carmo – que daí a pouco, um após outro, haveriam de abrir asas e deixar a companhia dos pais, para se formarem academicamente e iniciarem as suas próprias vidas.

Ser mulher de diplomata e, com o marido, recriar em cada novo posto um lar caloroso e estável, onde educar os filhos, é compreender que é essa felicidade íntima o lugar onde se funda e reside o equilíbrio que a constante mudança de país, de língua, de hábitos e de afetos ameaça. Esse trabalho tem um preço, evidentemente, que é pago com abdicação voluntária de muitas coisas pessoais em nome de outras, familiares e nacionais. Mas dado que se trata de uma atitude livre e generosa, constante e dedicada, não se lhe chama abdicação, mas missão.

As viagens de Ana Bello começaram, porém, muito antes de assumir o apelido do marido – e do sogro, o velejador Fernando Bello, velejador olímpico no México e em Munique, que levou Portugal a ser, pela primeira vez em 1953, campeão mundial na classe de Snipes, com António Conde Martins. Segunda de seis filhos, recorda com especial emoção as viagens no paquete “Príncipe Perfeito”, pelo Natal, a caminho de Moçambique, onde vivia o avô materno, o médico Mário Stromp. Mais do que a estadia, necessariamente curta, era emocionante a viagem em si – a travessia do Equador e as respetivas festas a bordo, as gincanas que ali se faziam com as outras crianças, o deixar o inverno europeu para encontrar o calor africano. Nascida em Lisboa e “menina de cidade”, lembra também os animais que o avô criava na fazenda de Inhaminga, que o mítico tio Dico (Rodrigo Stromp) haveria mais tarde de doar a um grupo de missionários. A bondade das duas gerações de médicos no coração de Moçambique, faz com que ainda hoje se encontrem em Sofala muitas pessoas a quem as mães decidiram dar o apelido Stromp como nome próprio, em sua homenagem.

Da família Stromp – de onde nasceu também Francisco Stromp jogador e treinador de futebol, sócio fundador e dirigente do Sporting Clube de Portugal – havia de herdar Ana Bello a sua particular sensibilidade para as artes. No palacete da família (onde hoje funciona o Colégio São João de Brito, em Lisboa) reunia-se uma importante tertúlia republicana, frequentada pela fina flor da intelectualidade e das artes portuguesas – sob o olhar da “titia” Maria Guilhermina Lima Roxo, que o grande pintor Carlos Reis (1863-1940) tinha retratado admiravelmente em tamanho natural – e de que fazia parte virtuoso pianista e inefável compositor Vianna da Motta (1868-1948), professor de piano das meninas da casa, entre elas a tia-avó Octávia Martins Pereira, que haveria de continuar a tradição da família, reunindo na Avenida da Liberdade intelectuais do gabarito de Vitorino Nemésio (1901-1978).

O casal Bello em São Pedro do Sul

Depois dos primeiros estudos no Liceu Francês, Ana Bello formou-se em Pedagogia na Escola Superior de Educadores de Infância Maria Ulrich, tendo sido imediatamente convidada para trabalhar no Colégio “O Nosso Jardim”, ligado à mesma instituição como centro de estágio e de investigação pedagógica. Mas a sua curiosidade de conhecer outras realidades, a das crianças socialmente menos privilegiadas, levou-a pouco depois, em colaboração com o COAS (Centro de Observação e Ação Social), a coordenar um atelier de ocupação de tempos livres nesse espaço mágico que é o Chapitô, cuja mentora –  a artista circense Teté (Teresa Ricou) – destinou especialmente à integração social de jovens através da arte, na Costa do Castelo de Lisboa.

Durante a primeira missão do marido, em Cabo Verde, numa Biblioteca infantil, criou, com João Nuno Alçada, um espaço que haveria de se tornar modelar para outras escolas e instituições locais: em pequenos grupos de 8 a 10 crianças desenvolveu atividades que ligavam as artes à literatura para a infância. Depois das permanências nos postos diplomáticos de Bruxelas e Montréal (Québec, Canadá) e sempre em regime de voluntariado, irá participar, com grande sucesso, numa Oficina de expressão plástica junto da APPDA – Associação Portuguesa para as Perturbações do Desenvolvimento e Autismo – onde estreita amizade com Sílvia Perloiro.

De Roma o casal partirá para o Rio de Janeiro, para o Consulado Geral de Portugal, onde uma roda-viva de eventos a irá pôr à prova como grande anfitriã do Palácio de São Clemente: receções oficiais, concertos, desfiles de moda, certames de todo o tipo. É na cidade carioca que Nuno Bello recebe a notícia da sua elevação a Embaixador e de Montevidéu como a sua primeira colocação nesse cargo. E do Uruguai… para São Pedro do Sul! Hospedados no Clube de Campo do Gerós, Ana e Nuno Bello iniciaram o seu ano na cidade termal e não pouparam elogios ao cuidado com que a nossa cidade está tratada, mesmo depois da desastrosa passagem da depressão Elsa. Ao cabo de uma caminhada pela Ecopista, de um passeio pelo centro histórico e das devidas honras gastronómicas da região, os Embaixadores prometeram voltar em breve.

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