Crónica do Olheirão por Mário Pereira

O preço das bananas

 

Há alguns dias andava às compras num supermercado com uma pessoa e ela perguntou-me como é possível que as maças de fraca qualidade sejam mais caras do que o abacaxi ou as bananas, que vêm dos países tropicais.

Em Portugal, para observar isto basta ir a um supermercado, mas já pude observar o mesmo fenómeno noutros países da Europa Ocidental e nos Estados Unidos, o que mostra que esta é uma situação mundial e não algo que aconteça apenas em Portugal.

Só para confirmar este facto, em Portugal e já este ano, olhei com atenção para uma bancada duma grande superfície. As bananas eram vendidas a 1,05€ KG, o abacaxi a 0,85€ a unidade e as maçãs de segunda categoria a 1,49€, no meio havia laranjas com um aspeto já pouco convidativo a 0,78€ kg.

Como elemento adicional, verificamos que é fácil encontrar bananas da Madeira ao dobro das que vêm dos países tropicais e também que os ananases dos Açores, quando aparecem é pelo preço de 2 ou 3 abacaxis.

A resposta à questão inicial tem tanto de simples como de inquietante.

Depois de pensar mais um pouco sobre a situação, cada vez estou mais convencido que dei a resposta certa à pergunta inicial; no momento, e sem pensar, a resposta que me saiu foi, simplesmente: “porque são roubadas”.

Contudo, não me parece possível que se um bando de ladrões, na Nicarágua ou noutro país produtor, assaltasse uma quinta ou um armazém onde são produzidos ou guardadas as bananas e abacaxis e depois os fizesse entrar no circuito comercial, os conseguisse fazer chegar por um preço tão baixo aos nossos supermercados.

Num país europeu grande produtor de fruta, onde os produtores têm algum poder face aos circuitos de comercialização, já vi, numa aldeia onde há grande produção de fruta, maças da mesma raça e qualidade equivalente serem vendidas por um fruticultor a menos de 50 cêntimos por Kg e estarem à venda no supermercado da mesma aldeia por mais de 2€ o kg.

Isto quer dizer que do produtor ao consumidor o preço pode, sem escândalo, subir três ou quatro vezes.

Tendo presente esta lógica não consigo imaginar quanto recebem os produtores por cada quilo de bananas ou de abacaxi.

É seguro que estas produções são controladas por grandes multinacionais, que conseguem grandes  lucros, pelo que uma parte importante do euro que pagamos pelas bananas vai para elas, outra parte vai para a loja que as vende e no meio existem uma cadeia logística e vários intermediários que devem ficar com outra parte significativa do dinheiro.

Para que possamos comprar bananas a 1€ o Kg as empresas produtoras têm de ter custos de produção tão baixos, só possíveis não pagando aos seus trabalhadores um salário decente.

É um tanto violento, mas não é exagero dizer que ao comermos frutos tropicais, mais baratos que as nossas maças, estamos a ser recetores de produtos roubados aos trabalhadores que os produziram, os colheram e os fizeram entrar no barco que os trouxe para a Europa.

Este roubo só é possível porque os governos locais participam no esquema, muitas vezes usando da violência, para assegurarem que a população local trabalha por salários miseráveis. É daqui que vem a expressão república das bananas.

Este esquema é um dos elementos da pobreza estrutural que afeta estes países e, consequentemente, uma das causas da emigração da América Central para os Estados Unidos.

A este e muitos outros problemas, acrescem os causados pelos gigantescos subsídios dados pela União Europeia e pelos Estados Unidos aos seus agricultores, os quais lhes permitem produzir a  preços tais que arruínam os agricultores dos países pobres, que assim são obrigados a emigrar.

Não deixa de ser curioso podermos pensar que ao comermos bananas baratas estamos a colaborar num esquema que é uma das causas das migrações, que tanta azia causam a muita gente.

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