António Bica

Os grandes interesses económicos e o Papa Francisco

Alguns católicos e outros interessados em assuntos religiosos têm-se apercebido da campanha articulada por multimilionários norteamericanos ultraconservadores e por outras pessoas ocupando altos cargos dentro do Vaticano, todos interessados em denegrir as práticas pastorais do Papa Francisco.

É a primeira vez que um Papa se opõe diretamente ao sistema económico neoliberal que protege o afã dos multimilionários em acumular ilimitadamente riqueza, explorar países pobres, manipular mercados, criar milhares de milhões de desvalidos e agredir o ecossistema mundial, pondo em risco a vida na Terra.

A encíclica do papa Francisco “Laudato Si” de 2015 sobre o cuidado a termos com a nossa “Casa Comum”, a Terra, dirigida a toda a humanidade, foi mal recebida pelos grupos radicais de direita que, para serem credíveis se disfarçam de católicos piedosos. Frustrados por não conseguirem fazer renunciar o papa Francisco ao seu cargo escrevem calúnias e relatórios detalhados com o auxílio de agentes do FBI sobre os futuros cardeais para favorecer os que poderão servir os seus interesses e atacar os que podem contribuir para que venha a ser eleito novo papa que continue a ação do Papa Francisco.

Os opositores do papa Francisco estão preocupados com a liderança religiosa e moral dele e o seu impacto moral e político na opinião pública mundial e em chefes de Estado que reconhecem a sua coragem, a sinceridade, o carisma e a preocupação com os mais desfavorecidos de África e do Oriente Médio, que fogem da fome e da guerra a caminho da Europa.

Apesar da agressividade dos círculos conspiradores norteamericanos contra o Papa Francisco ele não se intimida. “Para mim é uma honra que os norte-americanos me ataquem” disse o Papa Francisco quando o jornalista francês Nicolas Senèze, correspondente do diário católico “La Croix” em Roma, lhe mostrou informação sobre a conspiração norteamericana contra o seu papado, durante a viagem de avião que o levou a Moçambique. O título da obra de que essa informação consta é “Como a América atua para substituir o Papa”, cujo título original é “Comment l’Amérique veut changer de Pape”.

Os detalhes dessa conspiração, os nomes dos protagonistas e dos grupos envolvidos nela constam do livro. Nele é descrita a estratégia da hostilidade contra o papado. A campanha contra o papa Francisco é conhecida por “Relatório Chapéu Vermelho” (“The Red Hat Report”). É desenvolvida por poderoso círculo que move muito dinheiro e grandes influências, sendo organizada pelos setores mais conservadores ao serviço dos multimilionários.  As peças deste jogo de calúnias e poder encaixam-se em complexo enredo que os adversários do papa Francisco vêm tecendo. A conspiração foi iniciada em Washington em 2018.

O grupo de ultraconservadores reuniu-se na capital norte-americana para fixar as metas que são: atingir a figura do papa Francisco da forma mais destrutiva possível e influenciar a sua sucessão, para que venha a ser escolhido, de entre os atuais cardeais, o mais adequado aos interesses do grande capital internacional.

O “Relatório Chapéu Vermelho” foi organizado por ex-membros do FBI, Departamento Federal de Investigações, integrando um grupo de advogados, activistas políticos, jornalistas e académicos que investigam a vida e as ideias de cada um dos cardeais para destruir as carreiras dos que puderem continuar a obra do papa Francisco, e para promover as daqueles que o possam substituir no papado, quando for o momento oportuno, visando destruir a obra do papa Francisco. Enquanto esse momento não chega, o poderoso grupo prepara o terreno para o que o jornalista Nicolas Senèze chama “ golpe de Estado contra o Papa Francisco”:

Com esses objectivo numa manhã de 2017 Roma apareceu coberta de cartazes contra o Papa. Foi o primeiro ato da ofensiva. O segundo, certamente o mais espetacular, aconteceu em agosto de 2018, quando, pela primeira vez na história do Vaticano, um cardeal, neste caso Carlo Maria Vigamo, que foi núncio, isto é representante do Vaticano nos Estados Unidos, publicou uma carta exigindo a renúncia de Francisco.

O correspondente do jornal “La Croix” no Vaticano detalha a conspiração deste grupo na missão de tirar do Vaticano o Papa Francisco, cujas posições contra o neoliberalismo, contra a pena de morte, a favor dos migrantes,  do equilíbrio climático da Terra, que é a nossa casa comum, como fez através da encíclica Laudato Sí, promovendo acções que contrariam os gananciosos interesses desses multimilionários. Os conspiradores contra o papa Francisco são defensores dos interesses dos donos das grandes empresas que especulam no mercado financeiro, que estão também as envolvidas na desflorestação da Amazónia. É por isso que o papa Francisco é pedra nos sapatos deles, flagelo das suas ambições.

Segundo o citado jornalista Nicolas Senèze, há organizações desses multimilionários que se disfarçam de caritativas, tais como “Os Cavaleiros de Colombo”, cujo património é de cerca de 100 bilhões de dólares em companhias de seguros; o banqueiro Frank Hanna; a rede de meios de comunicação Eternal World Television Network, cujo promotor, o advogado Timothy Busch, foi criador do Instituto Napa que tem a missão de difundir o neo liberalismo económico ao serviço do conservadorismo; e George Weigel e seu famoso “think tank”, “Centro de Ética e Política Pública”. Estes e muitos outros são membros ativos da conspiração contra o papa Francisco.

Parece história de ficção, mas é real. O Papa Francisco é objeto de uma das campanhas mais agressivas já promovidas contra um papa.

Nicolas Senèze esclarece as razões desta hostildade: O Papa Francisco, com a sua doutrina, contraria os grandes interesses desses empresários ultraconservadores. Por isso decidiram atacá-lo. Atuam como se fosse o conselho de administração de empresa quando quer despedir o director geral que deixou de promover os objetivos pretendidos pelos donos do capital. Os inimigos do papa Francisco contam com enormes recursos. Para fazer substituir este papa por outro que inverta a sua linha de pensamento estão dispostos a tudo.

Aproximam-se de bispos e cardeais de dentro da Igreja que se disponham a aceitar as suas manobras contra o papa Francisco. Algumas dessas pessoas, como o referido cardeaL Vigamo que chegou a acusá-lo de heresia, chegaram a exigir publicamente que o papa Francisco renuncie ao papado. Esse grupo de ultraconservadores pode estar a sobrestimar a sua determinação. O indicado cardeal Carlo Maria Vigamo talvez não tenha calculado que a maioria das pessoas dentro do Vaticano não estarão dispostas a trair o Papa Francisco.

Como ainda não puderam até agora, com as suas manobras, derrubar o Papa, estão a procurar nova estratégia. O papa Francisco tem 84 anos. Pensando que o fim do seu papado estará para breve, procuram influenciar o próximo conclave, para que eleja papa que defenda os seus interesses. Para isso, estão a investir muito dinheiro, contratando ex-membros do FBI para preparar relatórios com informações sobre os cardeais que participarão da eleição. O objetivo é desacreditar os cardeais que têm a intenção de continuar as reformas defendidas pelo Papa Francisco, para que não elejam papa cardeal que continue o caminho que segue o papa Francisco.

Nicolas Senèze é de opinião que, com a eleição do papa Francisco, os cardeais procuraram resolver a crise no seio da Igreja gerada pelos erros do passado que levaram à ocultação dos muitos casos de abuso sexual sobre crianças. Os grandes interesses económicos e os políticos ao serviço desses interesses, que desde o papa João Paulo 23 e o fim do 2º Concílio do Vaticano, sempre procuraram influenciar a eleição de novo papa, não suspeitaram que o cardeal Francisco Bergoglio não iria além de medidas para reformar a Igreja sem pôr em causa o neoliberalismo e com ele os interesses do grande capital. Mas a sua preocupação com os mais pobres levou-o onde os católicos ultraconservadores, sobretudo dos Estados Unidos, não suspeitavam.

Recentemente o anterior papa      Bento 16 que renunciou ao cargo, mas continua a viver no Vaticano talvez para procurar controlar o papa Francisco, publicou um livro a afirmar a velha posição conservadora da igreja Católica de só os homens solteiros poderem presidir às missas, tentando condicionar a decisão do papa Francisco sobre o assunto. Nesse livro avisa o atual papa, que em breve deverá reconhecer a possibilidade de homens casados poderem presidir às missas na Amasónia, onde há grande escassez de padres, que o celibato não deve ser posto em causa. Com este livro o anterior papa Bento 16 está a dar força aos que no Vaticano são apoiantes  dos conservadores norteamericanos liderados pelo cardeal Carlo Maria Vigamo.

Sobre a ativa campanha contra o papa Francisco Nicolas Senèze entende que Trump, ao apoiá-la, é influenciado pelo vice-presidente Mike Pence. As diferenças dele com o papa Francisco são muitas: a pena de morte, a atitude do papa Francisco contra o neoliberalismo favorecedor dos mais ricos, e outras. Agora até o anterior papa está engrossar o partido que no Vaticano está a atacar o papa Francisco.

Os próximos tempos podem trazer novidades. Estejamos atentos.

 

 

 

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