Coisas e Gente da minha Terra de NAZARÉ OLIVEIRA

O PENEDO

O PENEDO foi meu colega na Escola Primária durante quatro anos. Poucas vezes um nome se terá ajustado tão bem a uma pessoa. Já não me lembro do nome que lhe deram na pia da água benta. Para todos era o Penedo e nada mais. Era um latagão. Sólido, maciço como um penedo. Tronco robusto, forte peitaça, braços compridos, mãos que funcionavam como tenazes. Sobre o tronco, assentava uma cabeça de cabelos avermelhados, como avermelhada era a sua tez tipo sanguíneo. Tudo assentava em duas pernas altas e fortes capazes de aguentar tal arcaboiço. Tudo isto formava um conjunto atlético harmonioso que transpirava saúde e força e infundia respeito a franganitos como eu.

Isto não significa que o Penedo fosse um bruto ou abusasse da força. Pelo contrário: protegia os mais fracos.

O Penedo era uma espécie de lugar-tenente do Prof. Metelo. Quando a bicicleta tinha um pneu vazio, lá estava o Penedo a alertar: “Ó sepessor, o sarilho tem um pneu vazio”. E o Metelo: “Trata lá disso”. E lá ia o Penedo remendar o furo e dar à bomba. E, quando o professor trazia a mota, no fim das aulas, se ela não pegava, o Prof. Metelo, já encavalitado, dizia na sua linguagem peculiar: “Ó Penedo, dá lá um empurrão ao traste”. O Penedo deitava as garras a uma pega traseira e dava-lhe um forte impulso, como se estivesse a lançar um daqueles carros para avaliar forças que eu tinha visto na Feira Franca. E a velha mota, após duas tossidelas, pegava e lá ia a deitar fumo e dar estampidos, com o Prof. Metelo direito que nem um fuso.

Mas o Penedo tinha outra habilidade que só mais tarde, quando já éramos espigadotes, muito apreciei: tocar o sino da Igreja Matriz, para a missa das onze.

O Penedo subia à torre, deitava a mão à corda do sino grande e começava a sinfonia do bronze. O sino nas suas mãos era um brinquedo. Várias vezes, eu, um lingrinhas magricelas, subia alguns degraus da torre, poucos, maravilhado com aquele espectáculo de pujança e força. O Penedo puxava a corda num ritmo alucinante. O badalo batia no bronze e as badaladas, cada vez mais fortes, repercutiam em nós. E o Penedo, agarrado à corda com as duas mãos, puxava, puxava. O sino ganhava impulso, com amplitudes cada vez maiores, até atingir a vertical e dobrar para o outro lado. Dar a volta ao sino era coisa que poucos conseguiam fazer. Nem o Mário Batata, sacristão, o fazia. O Penedo não largava a corda enquanto o sino não desse várias voltas. Então largava e o sino, como um escravo libertado pelo seu senhor, continuava a tocar sozinho por algum tempo, diminuindo as amplitudes, e o badalo a bater mais fraco e lento, até se quedar, como um atleta extenuado depois de uma maratona.

Entretanto, o Penedo limpava o suor e descia as escadas da torre consolado. Missão cumprida!

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