Francisco de Almeida Dias
Rubrica Portugal é mátria

2019 foi ano de homenagem à obra de uma artista a que, só por profunda miopia e injustamente, não se tinha dado ainda o destaque devido na história da arte do Portugal contemporâneo. Sarah Affonso foi, de facto, uma artista excecional, faz parte de uma geração revolucionária e era casada com um génio, Almada Negreiros. Talvez o ter sido “a mulher de” – e, no seu caso, a mulher de um artista completo, que abraçou quase todas as formas de expressão criativa e aprofundou, por trás delas, uma densa filosofia sobre o homem e o seu lugar no universo – seja uma das razões para tão longo eclipse. Mas havia também em Sarah uma certa timidez, aquela falta de confiança que muitas vezes aflige os verdadeiramente grandes e certas circunstâncias adversas da vida material e familiar, confessadas com a simplicidade de quem não se sabia entrevistada, durante a longa conversa com a nora, Maria José de Almada Negreiros, que em 1982 veio a dar à estampa Conversas com Sarah Affonso.
No ano em que cumpriria 120 anos de nascimento, Portugal tributou à artista duas exposições antológicas, em sedes expositivas do maior prestígio e acompanhadas por catálogos ricos e bem documentados, que ficam para o futuro. A primeira, no Museu Calouste Gulbenkian foi intitulada Sarah Affonso e a Arte Popular do Minho / Sarah Affonso and Folk Art from the Minho – exposição bilingue desde o título, para que os rios de turistas, que acorrem hoje a Lisboa e à importante Fundação, pudessem aceder aos seus conteúdos. Patente de julho a outubro, no amplo espaço junto à Praça de Espanha, foi um projeto curado por Ana Vasconcelos, com a colaboração de Vera Barreto. A segunda, por ventura ainda mais interessante que a interior, de maior dimensão e abrangência, estará patente até 22 de março do próximo ano (ocasião a não perder, portanto, numa passagem pela capital) no Museu Nacional de Arte Contemporânea, no Chiado: Sarah Affonso, os dias das pequenas coisas / Sarah Affonso, the days of small things. Esta última, comissariada por Maria de Aires Silveira e Emília Ferreira, traça a biografia da autora e acompanha-a através das suas obras principais ao longo dos anos, tendo para tanto reunido um importante acervo que permite, talvez pela primeira vez, criar uma visão global sobre a evolução da artista. Mas não só.

Ao longo do tempo e entre os historiadores de arte tinha-se insinuado a ideia incorreta (veiculada, aliás, pela própria Sarah Affonso, na já mencionada entrevista), que a certo ponto da sua vida, por adversidades da circunstância familiar – já para não falar de um suposto “sentimento de inferioridade” relativamente a Almada – a artista tinha posto de parte os pincéis e tinha “desistido”. Ora, bem ingénua seria tal suposição: a arte é algo que se consegue explicar pouco, mas é simultaneamente mecanismo interno e resultado explicito, expresso por certas pessoas especiais, intérpretes do mundo em que vivem a partir de uma própria, particularíssima, angulação. E é por tal resultado enriquecer os outros – se se tem a capacidade de os mover, de lhes penetrar no ânimo, transmutando-se eventualmente em mecanismo também no espetador da obra – que se diz que há obras de arte que mudaram o mundo. Evidentemente, a partir do momento em que Sarah Affonso se descobre artista, intérprete do mundo, não é coisa a que possa mais renunciar, mesmo num laivo de mau génio, de zanga com o mundo ou com os pincéis, ou simplesmente num momento de cansaço e exasperação pela vida. O que a exposição do Chiado nos demonstra, é exatamente isso.
Durante a sua vida longa – Sarah Affonso nasceu em Lisboa a 13 de maio de 1899 e ali faleceu a 15 de dezembro de 1983 – a artista criou, continuadamente. Melhor diria: foi sempre profícua a ligação entre a sua alma sensível e ligada ao universo e as suas mãos operosas e habilíssimas. Hábeis no debuxo de um carvão (como os últimos desenhos que lhe conhecemos) ou na pintura de uma tela, o aspeto pelo qual a sua arte mais ficou conhecida: aqueles deliciosos quadros em que as formas são simplificadas e os panos de cor inteira e vivaz recordam talvez uma das suas nunca desmentidas fontes de inspiração, a arte popular do Minho, onde passou parte importante da sua infância. O que por vezes escapou à Crítica, como ao público, é a falsa ingenuidade daquelas figuras. Pois, para lá da agradabilidade estética, do grande conforto e satisfação que provocam no espetador ao serem, aparentemente, claras e imediatamente reconhecíveis, elas escondem mensagens, às vezes profundas e carregadas de densidade psicológica, como em certos, notabilíssimos retratos, e outras vezes divertidas e irónicas, como as suas célebres Meninas de 1928, distinguidas no Salon d’Automne no Grand Palais em Paris e que hoje fazem parte do acervo do Museu do Chiado. Aqui duas crianças muito bem postas e bem comportadas, dentro do cânone absolutamente clássico do retrato ocidental, sentadas em pose, bem vestidas e penteadas, com uma cortina compondo o fundo da composição, levantam para o espetador os olhos de… um livro aos quadradinhos! O facto da banda desenhada se tratar de uma absoluta novidade à época e da sua leitura ser ainda hoje vista com suspeição por educadores mais severos vem, por assim dizer, desmoronar todo o falso formalismo da cena.

Mas, dizia, Sarah Affonso, manteve, durante toda a vida, uma intensa ligação entre a sua alma de artista e as suas mãos, o seu ser artístico. A certa altura, quando dificuldades económicas a tanto impeliram o casal, fez botões de cerâmica, então muito em voga para os vestidos das senhoras, e com essa produção manteve a casa durante algum tempo. Sarah Affonso pegou numa agulha e bordou almofadas, toalhas, vestidos, fez tapeçaria; a artista ilustrou livros infantis e colaborou com empresas de publicidade e edições periódicas; projetou ela mesma e ajudou o marido a executar grandes ciclos decorativos para edifícios públicos; e, a certa altura da sua vida, teve uma nova paixão – que constitui, talvez, o núcleo mais comovente da exposição do Chiado e o aspeto em que, creio, se pode resumir o seu ser artista-artístico. Trata-se da Quinta da Lameirinha, em Bicesse (Estoril), adquirida em 1938: 1 hectare e meio que se transformou naquilo que se pode classificar de “obra de arte total”.
Situada numa zona ventosa, a plantação das árvores (a que chamava de suas “filhas”), decidida por Sarah Affonso em colaboração com os homens da terra, faz com que o vento vá sendo cortado até ao centro da propriedade. Aí, através das várias culturas escolhidas e semeadas, constituiu um verdadeiro universo autossustentável – aspeto de imensa modernidade, se pensarmos que tudo isto se passa nos anos Quarenta, época longínqua relativamente à consciência ecológica que hoje tanto nos aflige. Nesse cosmo “inventado” pela criadora (onde desenhou recantos, como o “roseiral da amizade”), instaurou ela um lugar de encontro: de reunião da família e dos amigos, da reunião da artista com a natureza, expresso no seu gosto de plantar flores e verduras, ou seja, de criar futuro, pois quando uma pessoa lança uma semente a terra está a ligar-se com o que há de vir. Num caderninho de apontamentos Sarah Affonso apontou, minuciosamente, as coisas que ia plantando e aquelas que ia vendendo à porta de casa – documento enternecedor, sem dúvida, mas também de grande valia histórica (diríamos de cripto-histórica), porque traça o pensamento e a ação da artista na sua horta e no seu jardim cujos elementos, plantados, crescidos, colhidos, tiveram eles mesmos uma valência artística, mas, por sua natureza, não existem mais.
«A quinta foi a tela onde Sarah Affonso trocou os lápis, os pincéis e as linhas pela terra, pela água, pela vegetação. (…) Deslumbramento pelas permanências mutáveis que se revelam num saber simples, singular, utilitário, num gesto milenar, intimista, e que se manifesta na paixão d e Sarah Affonso pelo artesanato, pelo bordado, pela beleza da própria natureza e pela prática da jardinagem» (Aurora Carapinha, do catálogo)
O primeiro desenho conhecido de Sarah Affonso, aos 11 anos de idade, é o de uma planta estilizada. Os últimos, delineados em 1978, são ainda e de novo as suas plantas. Escreveu Sophia que «Mesmo que fale somente de pedras ou de brisas a obra do artista vem sempre dizer-nos isto: que não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência, mas que somos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser.» A obra de Sarah Affonso vem exatamente recordar a profunda humanidade que se esclarece na relação com a natureza, e nessa relação – que a artista alimentou, pintando, desenhando, bordando, moldando, mas também semeando, regando e colhendo – se cumpriu o seu destino de uma das personalidades de maior vulto do século XX português.
Comentários recentes