Fernando Luís*
PSD - Entre o avançar ou o recuar

Como todas as organizações, os partidos políticos, enquanto duram, têm os seus altos e baixos.
Como cidadão desde que comecei a ter pensamento social, pelo conhecimento curricularmente transmitido e o adquirido fora da escola, concluí que, apesar de todas as grandezas e misérias, a nossa Monarquia, em quatro dinastias, foi fundamental para Portugal chegar à nação que é hoje, uma das mais antigas do mundo ocidental.
Pelo que aprendi e pelo que vivi, sempre em república, cada vez me sinto mais confortável na defesa do regime monárquico.
Na altura, os exemplos que me chegavam da Inglaterra, da Suécia, da Noruega, da Dinamarca, dos Países Baixos, da Bélgica, eram positivos. Hoje os mesmos exemplos permanecem reforçados com o caso de Espanha onde a figura do rei tem sido preponderante na unidade nacional.
A 1ª República pôs a economia em fanicos, sujeitou o Exército a uma desastrada participação na Grande Guerra, abandonou as províncias ultramarinas e, com sucessivos e curtos governos, gerou uma das maiores instabilidades políticas. Os partidos mais pareciam seitas a mando de caciques.
Este foi o caldo social, a situação propícia para o aparecimento do líder autoritário, na conhecida ditadura do Estado Novo.
Criado no mundo rural, em que a Igreja ditava as regras da moral, com uma guerra em África que nos ameaçava na aproximação à maioridade, ia refectindo que, embora o rei não fosse eleito, nas grandes decisões sempre ouvia o povo, para além dos nobres e do clero, em cortes. Fui-me apercebendo também que havia muitos monárquicos que lutavam contra o regime, especialmente os inseridos na Convergência Monárquica que viria a dar origem ao Partido Popular Monárquico.
Se a ausência da democracia não é questão de somenos, também temos que dizer que naquele tempo nem tudo foi mau. Partindo da muita miséria, no início do século, a vida dos portugueses foi melhorando muito. Com Marcelo Caetano criou-se a Segurança Social, vieram as primeiras pensões para os rurais, o serviço de saúde público gratuito e aconteceu mesmo a democratização do ensino.
Nesta realidade social e política, chegamos ao 25 de Abril que me encontra na Escola do Magistério Primário de Viseu. Na turma, os únicos que falavam de política era eu, monárquico assumido, e o Jorge Pinto, do Sátão, republicano dos quatro costados.
Depois a primeira manifestação do 1º de Maio, em liberdade, o único momento em que o povo esteve realmente unido, começaram a aparecer os donos da revolução, os antifascistas com currículo certificado nos ficheiros da PIDE / DGS.
Cedo perceberam que um povo habituado a obedecer facilmente se moldaria a uma nova ditadura. É então que começa a nossa luta contra o PREC, o Processo Revolucionário em Curso.
Na Polícia Militar, onde estava em 1975, presenciei coisas que confirmam o que escrevo. Este processo antidemocrático, onde o PCP era mais moderado e a UDP mais radical, viria a terminar em 25 de Novembro. Nesse dia, encontrava-me em Cavalaria 7, na Calçada da Ajuda.
Aí faleceram dois comandos e um camarada da Polícia Militar. Foram mortes que poderiam ter sido evitadas se o então Presidente, Costa Gomes, tivesse apoiado, a tempo, as forças que acabaram por sair vencedoras.
Como militar, apenas cumpri ordens e isso mesmo me foi reconhecido em tribunal militar.
Foi nesse tempo que me filiei no PPD por ser este um espaço de liberdade que contava com figuras públicas com provas dadas na defesa da democracia e do progresso para Portugal.
Mesmo a nível distrital o partido tinha gente distinta. Comparando com o que vemos hoje, é como passar de um bom vinho, de velhas cepas, para água churda.
A partir daí, o partido cresceu, venceu eleições, governou e liderou a maioria das autarquias.
Nesta euforia, muita gente se filiou mas também muitos se aproveitaram dos lugares de poder que passaram a ocupar. Voltou o velho caciquismo e uma teia de favores tomou conta da administração central e local. Organizações mais ou menos clandestinas mexiam os seus cordelinhos, principalmente no PS e PSD, ainda hoje os maiores partidos.
E foi neste clima que se chegou ao tabu do algarvio Cavaco Silva que deixou o poder, ao Partido Socialista, o herdeiro natural da 1ª República. Primeiro para António Guterres que conseguiu ver no pântano o partido do jobs for de boys e depois Sócrates, convincente no discurso, um verdadeiro político, se considerarmos a carga negativa que a palavra hoje comporta.
Enquanto isto, o PPD, agora PPD/PSD, sem líderes carismáticos, mas com a maioria das autarquias, é tomado por gente, sem experiência de vida, apenas com currículo na juventude partidária, os jotas.
Com o país quase em bancarrota, um destes, da linha liberal, consegue chegar a primeiro-ministro.
Com a ajuda da Troika e com mais jeito para o canto lírico do que para a política, baixou o partido aos mínimos.
Valeu-lhe certamente o sangue transmontano, para aturar Paulo Portas e teimosamente, num aguenta, aguenta, tirar Portugal do poço em que Sócrates o deixou.
O povo louvou-lhe a coragem por governar em tempos difíceis e deu-lhe mesmo a vitória em eleições, mas o pouco jeito para a política e o ódio que criou nos adversários não lhe deixaram margem para continuar a governar. Os resultados das últimas autárquicas levaram-no a abandonar, por sua iniciativa, a liderança do partido.
Foi neste estado de coisas, com o tradicional eleitorado, causticado pela austeridade, a fugir a sete pés, que os militantes elegeram o Dr. Rui Rio contra a chamada máquina partidária, que lançou Santana Lopes, e também contra a vontade da maioria dos deputados da bancada parlamentar da última legislatura.
Depois de dois anos de turbulência interna, os militantes, em calendarização normal, voltam a ser chamados às urnas. O partido continua a viver momentos de clarificação e de definição da orientação ideológica: social-democrata, como foi criado, ou liberal, perdendo a natural e habitual base de apoio.
Nesta hora de eleições internas, a responsabilidade de cada militante é enorme. Ou quer um partido fechado na clientela partidária ou de braços abertos à sociedade.
Só assim o futuro do próprio PSD será mais risonho. No contrário, o horizonte ficará ainda mais negro e pequenino como alguns comentadores da nossa praça.
*Neste texto, o autor optou por não seguir as regras do novo Acordo Ortográfico
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