Manuel Silva

Reflexão sobre o Natal a partir de factos concretos

Recentemente Vasco Pulido Valente, numa das suas crónicas escritas para o jornal “Público”, afirmava ter visto em Washington, há alguns anos, nesta época de inverno, corpos de sem abrigo (nos States chamam-se homeless) mortos, por congelamento, nas valetas.

No país mais rico do mundo, mas onde as desigualdades de rendimento são gritantes, existem muitos milhares de pessoas a viver e morrer nestas circunstâncias, pois não há um estado social. Não há, como dizia, no século XVIII, Adam Smith, o grande teórico do liberalismo económico, uma rede social abaixo da qual ninguém caia. O neo-liberalismo de que a América é campeã não tem essa perspectiva, mas a do “salve-se quem puder”, incutindo o culto do individualismo e do egoísmo, sem compaixão por quem fica para trás no país de sucesso. Lembram-se de um primeiro-ministro português que também assim falava e de um P.R. que expôs a pobreza que mostrava existir esse sucesso só para alguns?

Nas pessoas daqueles mortos congelados estava Cristo também morto. Cristo está onde estão os pobres e miseráveis em qualquer parte do mundo, logo nos EUA, onde passa de 30 milhões o número de pessoas a viver abaixo do limiar da pobreza. Este limiar é considerado relativamente ao número de pessoas que vivem com menos de 60% do rendimento médio da população.

Cristo não está em Wall Street, onde se fazem grandes vigarices. Quem não se lembra dos yupies (young urban professionals), que bem jovens estavam muito ricos à custa de actos criminosos praticados na Bolsa, como se viu no crash de 1987? Alguns suicidaram-se. A maioria foi punida com longos anos de prisão. A ganância e o crime não compensaram estes rapazinhos. O livro de Tom Wolfe “A fogueira das Vaidades”, passado ao cinema, mostra aquela dura realidade e o que é uma certa América sem escrúpulos.

Comemorar o Natal é olhar para os pobres, os sem emprego, os que não têm cama nem casa, os que morrem à fome, enquanto outros morrem por comerem demais. É ser solidário com aqueles, mas não apenas neste dia, senão está-se perante uma atitude hipócrita, o que, aliás, se vê muito nesta época. Já participei em vários jantares de Natal onde proliferava tudo menos o espírito natalício. Havia “convivas” a falar mal de outros ali presentes. Então os jantares de Natal partidários servem, em boa parte, para isso mesmo…

No ano de 1990 assisti em Fátima a uma homilia do então bispo de Setúbal, D. Manuel Martins, infelizmente já falecido. Pouco antes tinham caído os regimes comunistas e o muro de Berlim. A propósito daqueles acontecimentos, o mesmo prelado disse terem sido derrubados tais regimes por não respeitarem a liberdade. Mas, referindo-se aos regimes democráticos, inquiriu se nestes é livre quem não tem emprego, quem trabalha sem receber salário, quem passa fome ou dorme na rua.

O Natal está cada vez mais paganizado. Já não é o Menino Jesus que traz prendas às crianças, mas o Pai Natal utilizado pela coca-cola, implicada em golpes de estado fascistas na América Latina.

Para a generalidade das pessoas, mesmo as crentes, o Natal é essencialmente uma festa consumista, na qual Jesus, cujo nascimento se comemora, não tem lugar, o que pressupõe que se Cristo voltasse à Terra, seria mal recebido, especialmente pelos poderosos deste tempo como foi pelos poderosos do tempo em que nasceu.

Imaginem o que fariam os defensores da globalização, do capitalismo sem regras, os gatunos que levam bancos à falência, se O ouvissem dizer “é mais fácil um camelo passar no buraco de uma agulha que um rico entrar no reino dos céus”, que “os bens do mundo são de todos” ou convidar crentes a deixarem emprego, família e tudo que tinham para O acompanharem.

Se Cristo não fosse morto, seria apodado de comunista e perigoso esquerdista como são todos aqueles que falam  de justiça social e melhor distribuição da riqueza.

Com certeza que não é crime nem pecado comer uma boa refeição em família ou entre amigos no Natal ou trocar prendas, mas é também necessário reflectir nestas realidades que por todos são visíveis e que essa reflexão conduza à solidariedade com os mais necessitados, que passa por uma maior igualdade de oportunidades, pela criação de emprego e uma mais justa repartição da riqueza. Já agora, não é crime nem pecado ser rico se essa riqueza for obtida honestamente, com mérito, criando emprego para quem precisa, pagando salários justos e dignos.

À administração, direcção, redacção, colaboradores, assinantes, anunciantes e leitores de “Gazeta da Beira” apresento votos de um feliz Natal.

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