Francisco de Almeida Dias

Rubrica Portugal é mátria

rubrica Portugal é mátria

Ana Maria Bénard da Costa em Casal de Gumiei 2019

Ana Maria Bénard da Costa é, desde menina, uma apaixonada leitora e uma apaixonante contadora de histórias. Uma das memórias mais antigas que tem – dos anos da Guerra, em São Miguel, nos Açores – é a de ler para uma empregada analfabeta, portanto a de ser já, “dez réis de gente”, uma narradora. O pai, Dr. Alberto Toscano, sendo juiz, era colocado de dois em dois anos em diversas comarcas, e assim a família passou também por Ponte de Lima, Montijo, Torres Novas, Loulé, antes de se fixar em Lisboa.

Criança inteligente e aberta à vida, de cada lugar colheu histórias, para juntar à sua. E, desta longa lista de lugares, dois têm um lugar especial no seu afeto: a casa do avô paterno, na Arrifana (Vila da Feira) e a do avô materno, aqui ao lado, em Casal de Gumiei. Serve uma recente visita a esta última, a bela Quinta de São João, de pretexto para falar de Ana Maria Bénard da Costa, da sua ação pioneira e decisiva para a implementação do Ensino Especial em Portugal, do seu avô Samuel Maia, figura notabilíssima de médico, jornalista, escritor e esteta beirão.

Samuel Domingos Maia de Loureiro (Ribafeita, 1874-Lisboa, 1951) formou-se em Medicina em Lisboa, onde exerceu nos hospitais civis, tendo sido e Diretor da consulta de crianças do Instituto de Assistência Nacional aos Tuberculosos. Passa à história, sobretudo, como um dos principais autores filiados na estética naturalista que se desenvolve em âmbito social e geográfico regional, no seu caso o beirão. De 1894 a 1944 publica mais de uma dezena de títulos de narrativa (crónica, romance, teatro, novela) – Livro de Alma, Por terras estranhas, Mudança d’ares, Sexo forte, Entre a vida e a morte, Luz perpétua, Braz Cadunha, Língua de prata, Dona sem dono (com o qual recebeu o Prémio Ricardo Malheiros de literatura, em 1936), Este mundo e o Outro, História maravilhosa de Dom Sebastião Imperador do Atlântico, O diabo da meia-noite, Quem não viu.

Dr. Samuel Maia

Para além destas, assinou numerosas obras sobre temas médicos, relativas à prevenção, higiene, ao regime alimentar, à sexualidade, à medicina preventiva, à pediatria, de que se destacam dois best-sellers: Manual de medicina doméstica (com seis edições entre 1910 e 1947) e O meu menino (com três edições no ano da publicação, 1925, e mais sete até 1960). Publicou ainda textos sobre o vinho, sobre folclore e turismo e sobre muitos outros temas, devedores da sua intensa e muito reconhecida atividade jornalística, como cronista dos jornais O Século, Jornal de Notícias, Ilustração e Diário Popular.

Casado com Maria Teresa de Avelar, teve quatro filhos – João, Francisco, Leonor e Luís – de quem teve quatro netos, um de cada um dos filhos, e a partir de cujos nomes batizou os quatro grandes tonéis que conservava na adega de Gumiei, com o vinho produzido na Quinta de São João: Miguelão (Miguel), Zabelim (Isabel), Manuco (Manuel) e Namariz, a nossa protagonista. Em 1920 mandou erguer, no sólido “estilo português” que Raúl Lino pusera na moda, a grande casa que se mantém na posse da família – ali habita Helena Villas-Boas, viúva de Miguel Maia de Loureiro. Este era o primo de quem Ana Maria era separada apenas por poucos meses e a quem a uniam mil aventuras nos terrenos e no pinhal, na companhia do “Tonito”, um dos oito filhos dos caseiros, que ainda hoje ali vive.

Ana Maria recorda os animais que se criavam na quinta e os bens que ali se produziam – o vinho, o milho, as verduras da horta, as flores – mas a memória melhor é a das tardes passadas em redor da mesa de granito à sombra da grande carvalha, fazendo bonecos com as bolotas da Quinta, enquanto a mãe, uma exímia pintora que fora discípula de Eduarda Lapa (1895-1976), desenhava e pintava. A frase que o avô Samuel ali mandara pôr em azulejo abençoava a família: «TERRA DE ALEGRAR O CORAÇÃO».

Terra de Alegrar o Coração

Em 1958 inicia, com o casamento, uma nova fase da vida Ana Maria: o noivo é João Bénard da Costa (1935-2009), figura incontornável da história e da cultura cinematográfica portuguesa, grande crítico e ensaísta, que se tornou a verdadeira alma da Cinemateca Portuguesa, de 1980 até 2009. Também ele se apaixona pelo Casal de Gumiei, dali partindo para a sua lua-de-mel e ali regressando a cada verão com os quatro filhos do casal – João Pedro, Ana, Mónica e Sofia – que passam meses inteiros com a avó Leonor. É no fim da adolescência destes que uma nova paixão assola a família: a construção de caiaques; o rito dos mergulhos diários nas águas do Vouga transformar-se-á então em verdadeiras aventuras por cursos de água nem sempre caudalosos, e muitas vezes com a embarcação à arreata, escorregando entre seixos e ortigas – risos, arranhões, memórias felizes.

Depois dos primeiros estudos em casa e de uma (traumática) passagem pelo Colégio das Doroteias, Ana Maria irá frequentar a Escola Francesa de Lisboa e é dali que passa à Faculdade de Letras, onde se irá formar em Historico-Filosóficas com uma tese em Psicologia. Por conselho do seu Orientador, decide dedicar-se ao estudo do ensino de deficientes visuais, aplicando o teste de inteligência Wechsler a crianças que frequentavam asilos em Lisboa, Estoril, Porto e Castelo de Vide. Nos anos 50 do século XX, a segregação geral em que viviam os cegos refletia-se também na sua escolaridade, com raras exceções – como o Centro Helen Keller, então dirigido por Maria Amália Borges, com quem virá a colaborar e que virá a substituir quando, por razões políticas, esta se vê obrigada a exilar-se no Canadá.

Uma bolsa de estudo da Fundação Calouste Gulbenkian leva Ana Maria até São Paulo, que lhe alarga horizontes sobre a integração de crianças com deficiência no sistema normal de ensino. Tem então acesso a uma ampla bibliografia sobre o tema, que à época não chegava a Portugal, e partirá sucessivamente para os Estados Unidos, onde frequenta cursos, participa em congressos e contacta com Jeanne R. Kenmore da American Foundation for Overseas Blind, que se irá tornar numa mentora, para além de uma boa amiga. No Liceu Passos Manuel, em Lisboa, e graças à abertura mental do seu diretor de então, Diamantino Soares, consegue enfim integrar jovens deficientes visuais nas turmas regulares, prosseguindo e alargando a sua atividade e pesquisa até que Carvalho da Fonseca, da Direção-Geral de Saúde e Assistência, a convida para ser responsável pelo Departamento Nacional dos Deficientes Visuais.

Desta vida rica e interessante terão os nossos leitores oportunidade em breve de saber tudo com maior detalhe, porque está no prelo um livro com as suas memórias – que coincidem com a memória histórica do Ensino Especial em Portugal. Por agora, aqui ficam algumas breves imagens da vida beirã de uma mulher notável, um dia depois da Associação Portuguesa de Portadores de Trissomia 21, reconhecendo o seu trabalho na área do neurodesenvolvimento, ter atribuído a Ana Maria Bénard da Costa o Prémio Maria Teresa Palha de 2019.

D. Leonor Maia Loureiro na Quinta de S. João

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