COISAS E GENTE DA MINHA TERRA de NAZARÉ OLIVEIRA
OS TRÊS VELHOTES
Eram três simpáticos velhotes, todos passantes dos 70. Toda a Vila os conhecia.
BERNARDINO VASCONCELOS. Pai de quatro filhos: o Edgard, dono do Café; o Marcelino (Lininho), com loja de fazendas, outros panos e miudezas; o Ademar, funcionário do Grémio da Lavoura; e o José Vasconcelos, funcionário das Finanças. Todos figuras representativas da terra. Vasconcelos era antigo ajudante de notário aposentado. Pouco falador, calmo e pachorrento, fartos bigodes, tinha um tique característico que o levava constantemente a cuspilhar em seco.
DIAMANTINO REBELO. Secretário de Finanças aposentado, baixinho, palrador, espirituoso, de olhar vivo e perspicaz, sorriso maroto. Pai de numerosa prole: António, funcionário do Caixa Geral de Depósitos e muito conhecido do teatro amador sampedrense; Diamantino (Dino), engenheiro agrónomo; Marília, Lucília, Corália, Clementina, Conceição e Estrela.
JOSÉ DA SILVA, mais conhecido pelo PAI DA NOTÁRIA. Magrito, ossudo, nariz afilado, perfil semita, também tinha um tique: numa das mãos, a unha do polegar estava constantemente a tocar palheta com a comprida unha do dedo mínimo.
Pelo fim dos anos 40, começo dos anos 50, os Três Velhotes eram companheiros de passeata e cavaqueira de café, seu local de encontro, para o seu passeio matinal. Mesmo de Inverno, lá iam, embrulhados nos seus capotes, cachecol, luvas e chapéu clássico, à procura de uma réstia de sol. Rua Serpa Pinto acima, Jardim, Travessa do Cemitério, estrada de Santa Cruz, até ao desvio para Pouves. Regressavam pelo Cimo de Vila, Moitinhas, Rua Direita, rampa da Praça, até ao Café, onde sugavam a sua bica, a fazer embocadura para o almoço. Outras vezes, a passeata era em sentido contrário: Companhia/Fonte da Rua, Negrosa (eu via-os passar em frente da minha casa), estrada de Várzea, até à vivenda Pedra Azul, limite das suas andanças.
Com os Três Velhotes se passou um episódio que me foi contado pelo meu amigo António Guimarães (o homem da Tribuna de Lafões), que a ele assistiu.
Num fim de tarde primaveril, estavam os “Três Mosqueteiros” sentados à cavaqueira na esplanada do Edgard, refastelados num suave ripanço, a remoer lembranças, quando deles se aproximou um vendedor ambulante, de tabuleiro ao peito, suspenso por duas alças que davam volta ao pescoço. O homem trazia mercadoria variada, desde lâminas de barbear, agulhas, alfinetes, sabonetes, pentes e outras bugigangas. Mas trazia uma novidade em promoção que merecia as honras de propagandas: ESPEVITADORES PARA MÁQUINAS DE PETRÓLEO.
O vendedor lá terá pensado que os três velhotes ainda usariam tais máquinas, dirigiu-se a eles e explicou-lhes, no seu relambório inúmeras vezes repetido: “Espevitadores para máquinas de petróleo, práticos, eficientes, aumentam o rendimento da máquina, reduzem o consumo de combustível, muito fácil de utilizar e não há nada mais barato; não custa vinte, não custa quinze, não custa dez: custa apenas cinco escudos e quem comprar dois leva mais um de graça”.
Acabado o palavreado, o homem fica à espera. Uns momentos de silêncio e o José da Silva, tocando palheta com as unhas, pergunta:
— E isso para que serve?
O vendedor, com a paciência de quem está habituado a tais perguntas e repetir muitas vezes a mesma cantiga, recomeça a lenga-lenga: “Espevitadores para máquinas de petróleo… e quem comprar dois leva mais um de graça”.
De novo, ficou à espera. E o velho Vasconcelos, com voz sorna:
— E isso para que serve?
O homem fez uma careta, torceu o nariz e, mais uma vez, com paciência evangélica, recomeçou. “Espevitadores para máquinas de petróleo… e quem comprar dois leva mais um de graça”.
Novo silêncio. E o Rebelo, com um sorriso maroto:
— E isso para que serve?
Não havia pachorra! O vendedor não disse nada. Ajeitou o tabuleiro e foi pregar a outra freguesia. O que ele pensou ninguém o sabe!
E os TRÊS VELHOTES lá continuaram a desfilar lembranças.
José da Silva abandonou São Pedro do Sul, quando a sua filha, Dr.ª Clarisse, Notária, se transferiu para Guimarães.
Diamantino Rebelo e Bernardino Vasconcelos, companheiros de vida, repousam em dois gavetões, quase lado a lado, no cemitério antigo.
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