Crónicas do Olheirão por Mário Pereira

Notas sobre os medicamentos

Há alguns dias foi divulgado um estudo sobre os problemas com os medicamentos nos hospitais. O conhecimento que tenho do estudo é o que me chegou pelas notícias na rádio e na televisão. Assim, o que vou escrever é sobre o modo como o estudo foi tratado nas notícias e não tanto sobre o estudo propriamente dito.

Das notícias na rádio às 8 da manhã, desse dia, retive dois aspetos:

1 – Quarenta por cento dos hospitais referem serem habituais roturas nos stock de medicamentos medicamentos correntes, nomeadamente, genéricos.

2 – Há dificuldades no acesso a medicamentos inovadores devido à burocracia associada à sua aquisição.

O meu espanto é que ao longo dia nas televisões e na rádio nunca mais ouvi referências ao primeiro problema identificado pelo estudo enquanto se ouvia um martelar  constante no segundo ponto.

Esta opção da comunicação social deve ser analisada, pois não é inocente e, entre coisas, distorce a importância dos problemas.

O primeiro problema pode afetar todas as pessoas que acorrerem a um hospital, uma vez que se trata de medicamentos para tratamento de doenças comuns e que acontecem todos os dias.

Ao mesmo tempo que as notícias e comentadores ignoravam este problema, passaram o dia a falar das burocracias associadas à aquisição de medicamentos inovadores. Claro que se há burocracia é o governo que a cria só com a ideia de poupar nos custos.

Algumas vozes pareciam sugerir a venda dos medicamentos inovadores nos supermercados para que o acesso fosse livre e imediato.

Ao mesmo tempo que se erguia este coro, deixou de se ouvir qualquer comentário sobre as dificuldades que as empresa farmacêuticas estão a criar no acesso a medicamentos correntes não só nos hospitais mas também nas farmácias.

Conheço casos de pessoas que estiveram privadas de medicamentos para doenças crónicas, porque as farmácias não conseguem arranjá-los.

Tenho ouvido senhor bastonário da Ordem dos Médicos queixar-se de tudo e mais alguma coisa, mas, talvez porque não ouço com atenção, nunca o ouvi queixar-se do facto da indústria farmacêutica boicotar a produção ou a comercialização de medicamentos que os médicos receitam com regularidade e são essenciais para tratamento de doenças comuns.

Faz-me imensa confusão esta tendência da comunicação social para atribuir a origem de todos os males ao governo e ser de extremamente complacente com os poderes económicos.

Gostaria de pensar que os governos são tão poderosos e que são os únicos responsáveis pelos males do mundo. Entretanto, enquanto andamos entretidos a dizer mal do governo, os realmente poderosos vão continuando a reforçar o seu poder.

Hoje as empresas farmacêuticas são tão grandes e poderosas que na prática o governo português e dos outros países pequenos já não têm capacidade para negociar com elas e cada vez mais as decisões têm de tomadas a nível da União Europeia.

No setor do medicamento os dois problemas referidos no estudo são as questões chave.

Precisamos que haja inovação, que é necessariamente muito cara, pois é isso que permite encontrar tratamentos para mais doenças, mas também precisamos de ter acesso fácil e a um custo razoável aos medicamentos para doenças como a gripe e as diarreias, como convém que não faltem medicamentos para a tensão arterial, para a diabetes e outras doenças crónicas.

Os partidos de esquerda andam muito preocupados com a nacionalização de algumas atividades económicas, mas talvez mais importante que nacionalização da TAP ou dos CTT seja o Estado pensar em criar capacidade  própria para produzir medicamentos básicos e investir na inovação, pois é assustador o poder que tem a industria farmacêutica.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *