Manuel Silva

O POLITICAMENTE CORRECTO DA DIREITA

Uma certa esquerda utiliza o politicamente correcto em vários temas, mas muito especialmente no tocante à linguagem, mais parecendo estarmos perante a “novilíngua” que George Orwell refere no livro “1984”, escrito em 1948.

Também a direita, especialmente a “alt-ritght” (direita dura), que não se acoita só no PNR e no Chega, mas também no PSD e no CDS, tem o seu politicamente correcto.

Para a direita é politicamente correcto condenar o ataque às torres gémeas e ao Pentágono, em 2001,que provocou cerca de 3 000 mortes. Condenar o terrorismo de Estado, o pior dos terrorismos, da América, quando lançou as bombas de Hiroxima e Nagasáqui, matando muitos milhares de pessoas – como dizia Sofia de Mello Breyner, no seu poema “Vemos, ouvimos e lemos”, musicado e cantado por Francisco Fanhais, o ex-padre Fanhais, “a bomba de Hiroxima, vergonha de nós todos, reduziu a cinza a carne das crianças” é politicamente incorrecto.

Para a direita é politicamente correcto dizer ter sido Saddam Hussein um ditador e que os EUA libertaram o Iraque de uma ditadura. Seria cómico ver, ler e ouvir isto, se não fosse trágica tal “libertação”, que assentou numa mentira, pois está provado não haver, na altura, armas nucleares no Iraque, provocando a morte de 250.000 pessoas e, em boa parte, a formação do DAESH. Recorde-se também que Saddam não tinha ligação à Al-Qaeda. Os responsáveis por esta guerra, Bush filho, José Maria Aznar e Tony Blair, que aqui borrou a pintura da boa política social e económica que durante 10 anos praticou à frente do Reino Unido, deveriam responder e ser condenados no Tribunal Penal Internacional (TPI) por esta chacina, o que não aconteceu porque aquele Tribunal é o Tribunal dos vencedores. Já o foi relativamente à guerra e ao desmembramento da ex-Jugoslávia. Não foram só os sérvios que cometeram crimes contra a humanidade, mas também as forças bósnias e croatas.

Também as forças armadas americanas, às ordens do presidente que inalou, mas não fumou, Bill Clinton, mataram muitos milhares de inocentes na Jugoslávia, mas quem foi condenado no TPI foi o presidente deste país e os governantes e comandantes militares que o rodeavam.

Ainda a propósito de Bill Clinton, o mesmo, por volta de 1998/99, provavelmente para afastar as atenções da mancha no vestido da menina Levinsky, mandou bombardear o Iraque a pretexto de este país ter recusado a inspecção da ONU para verificar se ali existia armamento nuclear, assassinando as tropas americanas 2 000 pessoas (não foram muito menos que no ataque às torres gémeas). Lembro-me de estar a levantar-me no dia desse ataque, em Aveiro, cidade onde trabalhava, e ser ouvida pela Antena 1 uma portuguesa residente no Iraque, que afirmou: “estão a matar as pessoas como animais. Não está certo”. Clinton foi chamado a prestar contas no TPI?

Para a direita é politicamente correcto condenar a ocupação do Afeganistão pela URSS na década de 70 do século passado e ficar feliz com a derrota do ocupante. Mas é politicamente incorrecto afirmar serem os vencedores os “talibans”, financiados e armados pelos EUA, país a quem pagaram bem a ajuda prestada.

Para a direita é politicamente correcto condenar o antigo KGB pelos crimes que cometeu. É politicamente incorrecto dizer que também a CIA já matou muita gente e esteve por detrás da implantação de várias ditaduras militares violentas, cleptocráticas e corruptas na América Latina, na África e na Ásia. No golpe de Pinochet, no Chile, em 11 de Setembro de 1973, até a água suja americana, a coca-cola, deu um jeito.

Para a direita é politicamente correcto dizer que com a saída dos americanos da Indochina, o Vietname, o Laos e o Camboja caíram em ditaduras comunistas. É politicamente incorrecto dizer que os EUA queimaram muita gente viva naquelas paragens, com napalm, especialmente no Vietname. A fotografia da menina vietnamita a fugir, completamente nua, com o corpo a arder em napalm, em 1972, foi o princípio da derrota dos EUA, pois virou contra o presidente e o governo a opinião pública e publicada. Os contestatários já não eram só jovens trabalhadores e estudantes, intelectuais e artistas.

Para a direita é politicamente correcto afirmar que a crise iniciada em 2007/2008 se deveu ao facto de as pessoas viverem acima das suas possibilidades e deverem empobrecer, assentando a competitividade empresarial em baixos salários e, logicamente, no aumento das desigualdades entre pobres, classe média e ricos. Recordam-se deste discurso de Passos Coelho e Paulo Portas? Já é politicamente incorrecto recordar que a crise se deveu à financeirização da economia e à diminuição da produção, bem como às falências de bancos devidas a quem os assaltava por dentro: proprietários e gestores. O dinheiro que o Estado meteu até agora nos bancos dava para construir 27 pontes Vasco da Gama ou 150 novos hospitais.

 

FALECEU JOSÉ MÁRIO BRANCO

Apesar de ter sido maoista desde o pós-25 de Abril até 1985, tal como José Mário Branco, nunca militámos na mesma organização. Após sair do PCP na cisão operada por Francisco Martins Rodrigues em 1963, o autor de “qual é a tua, ó meu?” militou no CMLP/FAP, fundado por aquele guru do marxismo-leninismo. Após o 25 de Abril foi dirigente da UDP, que abandonou no início dos anos 80, continuando a ser de extrema-esquerda num percurso muito pessoal e fora de qualquer organização. Era demasiado rebelde para suportar a disciplina do centralismo democrático leninista. Mais tarde ligou-se ao Bloco de Esquerda, tendo cortado com este partido quando o mesmo se social-democratizou.

Eu pertenci ao PCTP/MRPP, inimigo figadal da UDP. Enquanto se mudavam os tempos, também se mudavam as vontades, como refere um poema de Camões cantado por José Mário Branco. Enquanto a maioria dos esquerdistas nos desiludíamos com o marxismo e procurávamos lutar por uma sociedade mais justa, sobretudo para os pobres e oprimidos, dentro do mainstream, José Mário Branco continuou a lutar por aqueles ideais na extrema-esquerda.

Foi um excelente cantor e compositor. A sua intervenção, bem como dos demais cantores de protesto, foi importantíssima para despertar consciências, para o derrube do  regime ditatorial e para as conquistas democráticas alcançadas com o 25 de Abril.

Sempre gostei imenso das suas canções, especialmente da “Queixa das almas jovens censuradas”, cujo poema é de Natália Correia, que marcou profundamente a minha geração.

Apesar de presentemente militar num quadrante bem distante, política e ideologicamente, de José Mário Branco, entendo que foi um Homem honesto, sempre ao lado dos mais fracos, inquieto e empenhado na construção de um mundo melhor.

Descansa em paz, Zé Mário.

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