Francisco de Almeida Dias

Sophia de Mello Breyner Andresen

Portugal é mátria

Em 1969, um certo “João César Santos” – que mais tarde iria trocar o último pelo penúltimo apelido e tornar-se o famoso e irreverente realizador João César Monteiro (1939-2003) dos premiados Recordações da Casa Amarela (Leão de Prata em Veneza, 1989) e A Comédia de Deus (Grande Prémio do Júri do mesmo festival, 1995) – regressado havia pouco de Inglaterra, onde frequentara a London School of Film Technique, roda um daqueles “filmes-poema” pelos quais haveria também de ser recordado. Tendo como título apenas o nome da autora que queria retratar, Sophia de Mello Breyner Andresen, a curta-metragem contou com Jorge Silva Melo na assistência de realização, e, tendo sido estreada apenas a 31 de janeiro de 1972 no Cinema Apolo 70, em Lisboa, foi galardoada com o Prémio Bordalo entregue pela Casa da Imprensa em 1973.

Em 19 minutos traça-se o perfil de uma bela mulher, então com 50 anos, através de imagens que têm a força de ícone religioso e impelem o espetador a partilhar a mesma veneração que o olhar do realizador revela: algumas colhidas na encenação de gestos poéticos – a concentração da escrita, a solitária observação do mundo que a rodeia, a simbiose do corpo físico com a corporeidade da casa caiada de branco – outras na fresca naturalidade da vida familiar, rodeada pelos cinco filhos adolescentes (Maria, Isabel, Miguel, Sofia e Xavier) e pelo marido, Francisco Sousa Tavares. O fio condutor é a voz da poetisa, que, para usar as palavras de um poema seu, com “solenidade e risco”, soletra as palavras que escreveu – as da sua obra mais famosa para a  infância, A Menina do Mar (1958), as de algumas poesias e outras extraordinárias, como esta:

«A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira. Não era nada de fantástico, não era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu descobria.»

Em ano de centenário do seu nascimento, multiplicam-se, justissimamente, as comemorações daquela que foi uma das vozes mais claras e mais altas da literatura de expressão portuguesa, de sempre. Aqui partimos não da vida ou da obra, mas dessa outra homenagem, que este ano cumpre cinquenta anos de rodagem, e que filtrou a sensibilidade de Sophia através da sensibilidade poética de João César Monteiro. Os primeiros fotogramas representam o perfil helénico, composto, para não dizer severo, da Poetisa, contra uma janela imensa aberta sobre o mar. E, na mesa nua, para além do caderno onde escreve, apenas um copo com água e um prato com fruta: “a própria presença do real”.

Esta obra ergue-se, na sua extrema simplicidade de meios, como o perfeito retrato de Sophia – uma espécie de transposição em celuloide daquele conceito que a Autora tantas vezes transcreveu em verso («Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco da cal onde a luz cai a direito.») Mas é também notável na antecipação dos tempos, por parte do realizador: não esqueçamos que em 1969 vivia ainda “o velho abutre”, como Sophia chamou Salazar num célebre poema, e, excetuando o Grande Prémio de Poesia, que em 1964 a Sociedade Portuguesa de Escritores tinha atribuído ao seu Livro Sexto, a autora era essencialmente reconhecida pelos seus, mais consensuais, contos infantis publicados até à data (A Fada Oriana, A Noite de Natal, O Cavaleiro da Dinamarca, O Rapaz de Bronze e A Floresta).

Se João César Monteiro não deixa de filmar Sophia lendo ao filho mais novo as célebres páginas d’A Menina do Mar, na sala da Travessa das Mónicas, em Lisboa, onde a família vivia – e também nisso bibliograficamente evocatório dessa propensão afim da poética, a de narradora infantil, nascida da necessidade de entreter as crianças de sua casa – ele retrata-a acima de tudo com a austeridade própria de voz consciente do seu tempo, desse tempo que então se vivia. Uma poetisa conhecedora do papel moral e cívico da poesia, uma cidadã que assumia o as suas obrigações na utópica reconstrução de um País novo, que daí a alguns anos havia de nascer e correr pelas ruas, emocionadamente, sob o signo da Liberdade, e para o que Sophia haveria de cunhar aquela maravilhosa palavra de ordem: “A poesia está na rua”.

Deliciosas são as cenas familiares, os mergulhos do barco e as longas braçadas por entre as rochas do amado Algarve (Praia de D. Ana), «A luz mais que pura / Sobre a terra seca». Esse Sul frente ao mar surgia-lhe como imagem refletida da Grécia a que se sentia ligada, desde o nome Σοφία até à lição dos Clássicos, por um fio invisível – ligação confirmada em setembro de 1963, quando finalmente se confrontou com o país onde «O cardo floresce na claridade do dia. Na doçura do dia se abre o figo. Eis o país do exterior onde cada coisa é: / trazida à luz / trazida à liberdade da luz / trazida ao espanto da luz / Eis-me vestida de sol e de silêncio.» Intensas são também as imagens do mercado de peixe, em que o contacto visceral entre os homens e os seres do mar se faz, tendo como fundo as palavras de Sophia, que evocam a sua responsabilidade cívica da poesia: «Mesmo que fale somente de pedras ou de brisas a obra do artista vem sempre dizer-nos isto: Que não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência mas que somos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser.»

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no Porto a 6 de novembro de 1919 e morreu em Lisboa, a 2 de julho de 2004, e foi, em 1999, a primeira mulher portuguesa a receber o Prémio Camões, o mais importante para a literatura de expressão portuguesa. Vale a pena ver o filme de João César Monteiro, disponível na internet, e consultar, no sítio da Biblioteca Nacional, “Sophia de Mello Breyner Andresen no seu tempo – Momentos e Documentos” (http://purl.pt/19841/1/index.html), aproveitando esta ocasião para ler ou reler a extensa e riquíssima obra (poesia, prosa, contos infantis, teatro, ensaio…) daquela que deixou, como testamento espiritual, a ideia de uma “nova aliança com a vida”: «Não quero possuir a terra mas ser um com ela. Não quero possuir nem dominar porque quero ser: esta é a necessidade.»

Nota:

Francisco de Almeida Dias, Ph.D. (1980) é doutorado em Literaturas Comparadas pela Università degli Studi Roma Tre, e está ligado à Cátedra Pedro Hispano, Università degli Studi della Tuscia, onde ensinou literatura portuguesa. Foi convidado Câmara Municipal de Alcochete a realizar uma palestra a 9 de novembro de 2019, pelas 16H, na Biblioteca municipal, por ocasião do encerramento das comemorações do 100.º aniversário do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen.

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