Nazaré Oliveira – Coisas e Gentes da minha terra- XXIV

O TRINDADE

 

Volta a Portugal: Alfredo Trindade vestindo a camisola amarela em 1933

Depois do Futebol, a Volta a Portugal em Bicicleta era o evento desportivo mais importante. Para ela se transferia a rivalidade Benfica/Sporting, tanto mais que o futebol estava de férias. Lá por meados dos anos 30, essa rivalidade era encarnada pelos dois ídolos da época: NICOLAU pelo Benfica; TRINDADE pelo Sporting. Era o grande duelo. Pela rádio, acompanhava-se o decorrer da etapa: o pelotão, as fugas, as quedas, os furos, as desistências, o carro-vassoura, a meta, onde se aglomeravam os mais fanáticos, para aplaudirem o sprint final e vitoriar o vencedor.

Naquele ano, num dia calmoso de Julho, a etapa partia de Aveiro, passaria pelos Concelhos de Lafões, a caminho de Castro Daire, e por aí adiante… São Pedro do Sul preparava-se para ver passar os gigantes da estrada. A camisola amarela era envergada pelo TRINDADE. Tudo a postos! A certa altura, começou a correr a notícia de que o Trindade tinha fugido ao pelotão e pedalava isolado com grande avanço. Gerou-se expectativa, sobretudo entre os sportinguistas. O conhecido advogado e ferrenho adepto Dr. Bandeira, no mirante da sua vivenda no cimo da Avenida da Estação, preparava-se para ver passar o seu ídolo. Já se grita: “lá vem ele”. E eis que surge o Trindade, isolado, vindo do lado das Termas: com a camisola amarela, capacete de protecção, óculos de aviador (à Gago Coutinho), pedalando rijo. Quando o fugitivo passa frente ao mirante, o Dr. Bandeira bate palmas com entusiasmo e saúda-o: “Bravo, Trindade!”

O ciclista continua a pedalar, faz a curva da Auto-Reparadora, desce para a Companhia e, em pedalada rápida, inicia a subida em direcção à Praça. Ao cimo, o Edgard, de máquina fotográfica em punho, dispara as fotografias que futuramente haveria de expor. O Trindade ultrapassa o Café, flecte à direita em direcção à Ponte e, em frente à loja do Lininho, pára e desmonta. Tudo ficou alarmado. Que seria? Um furo? Uma avaria mecânica? Nada disso! O Trindade volta para trás, a pé, de bicicleta pela mão e dirige-se para o Café. Encosta a bicicleta ao passeio, entra no Edgard e no balcão pede uma cerveja. As pessoas ficam admiradas com o comportamento do ciclista. Afirmam-se melhor e dão conta do logro: Era o AVELINO GRACINDO, da Ponte, o autor da brincadeira!

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