António Bica

COMO EXIGE O PRESIDENTE DA REPÚBLICA SOBRE O ROUBO DE ARMAS EM TANCOS, TUDO TEM QUE SER APURADO, DOA A QUEM DOER (1)

 

COMO E QUANDO FORAM ROUBADAS (1ª parte)

O jornal Público de 28 de Setembro de 2019 publicou texto nas páginas 20 e 21 sobre o roubo de armas em Tancos, relatando como ocorreu segundo o despacho da acusação de 23 dos arguidos no processo.

Segundo a informação, são vários os autores do planeamento e da execução do roubo.

João Paulino, ex-fuzileiro, então com 31 anos, conhecido traficante de drogas de Ansião, distrito de Leiria, que é arguido no processo do roubo de pistolas Glock da PSP de calibre 9 mm, com conivência de quem as tinha à guarda. João Paulino, além do negócio de armas, vendia haxixe e cocaína à consignação a rede de revendedores que recebiam a droga confiada, pagando-a à medida que a revenda era feita. A rede de revendedores tinha 2 núcleos principais, além de Ansião: um no norte, incluindo em Aveiro, e outro no sul, incluindo em Loulé, no Algarve.

Era membro da rede como revendedor Valter Abreu, então com 32 anos, conhecido por Pisca, residente em Aveiro. Este Pisca, antes do início de 2017, recebeu de João Paulino droga à consignação para a revender e pagar quando vendida, retendo a comissão.

Mas o Pisca, desempregado, gastou o dinheiro por que vendeu droga que o ex-fuzileiro João Paulino lhe entregou, ficando sem possibilidade de saldar as contas do negócio. Um sobrinho do Pisca, Filipe Sousa, que era então militar em Tancos, informou o tio de que os Paióis Nacionais de Tancos, situados um pouco a norte de Almourol no rio Tejo, eram mal defendidos e mal vigiados. O Pisca sabia que o João Paulino, além do negócio de drogas, traficava armas, como as pistolas Glock roubadas na PSP. O Pisca decidiu informar o João Paulino de que os Paióis Nacionais de Tancos, onde eram armazenadas as armas do Perímetro Militar de Tancos, não eram bem guardados, talvez com o objectivo de receber recompensa pela informação que lhe permitisse pagar o que lhe devia.

O ex-fuzileiro Paulino ouviu e pensou em preparar o assalto aos paióis. Em Fevereiro de 2017 contactou o seu conhecido António Laranjinha para começar a planeá-lo. Reconheceram o local onde estão os paióis para verificar a possibilidade de acesso a eles. Pareceu-lhes fácil. Para abrir as fechaduras dos portões dos Paióis, decidiram falar com Fernando Guimarães, conhecido por Nando, o que foi feito no início de março de 1017.  O Nando vivia na casa em que morava Paulo Lemos, especialista em forçar fechaduras, sendo por isso conhecido por Fechaduras.

Em Março de 2017 o ex-fuzileiro João Paulino, o Nando e o Fechaduras juntaram-se a almoçar em Lisboa, junto à Estação de comboios de Sete Rios, para preparar o assalto aos Paióis de Tancos. O João Paulino pesquisou no Google as imagens dos edifícios dos Paióis e também das suas fechaduras para o Fechaduras dar opinião sobre a possibilidade de as abrir.

No dia seguinte ao encontro em Lisboa o ex-fuzileiro João Paulino, organizador do assalto, chamou o Valter Abreu, conhecido por Pisca e o sobrinho, militar em Tancos, para se reunirem no bar do João Paulino, em Ansião. Aí o ex-fuzileiro João Paulino, certamente para obter informação detalhada sobre a vigilância dos paióis, prometeu pagar aos dois, ao Pisca e ao Filipe Sousa, porque conhecia bem os Paióis de Tancos e as facilidades de assalto a eles, 25% das vendas do que fosse roubado e eventualmente relacionamento com outros militares com responsabilidades na vigilância e defesa dos paióis.

O Fechaduras, que estivera no almoço em Lisboa, tinha sido acusado de crime no Porto, tendo ido viver para o Algarve por insistência da mãe para se afastar de novos problemas com a polícia, reflectiu sobre o assalto e o risco que corria, decidindo dissociar-se do projectado assalto aos Paióis Nacionais de Tancos.

Talvez para se beneficiar nos problemas com a justiça, o Fechaduras telefonou a procuradora do DIAP do Porto, por ser informador do DIAP, ou porque a conhecia dos seus processos, a informá-la de que iria haver assalto para roubo de armas no centro do país, sem precisar o local.

A procuradora do DIAP informou a Polícia Judiciária, indicando o Fechaduras como envolvido.

Entretanto o plano para o assalto aos paióis avançou. O ex-fuzileiro João Paulino comprou na margem sul do Tejo caixa estanque de grande capacidade para meter nela as armas e as munições a roubar, podendo ser escondida debaixo de terra sem que que a humidade as danificasse. Posteriormente comprou no mesmo local várias outras caixas próprias para armazenar munições.

Depois o João Paulino foi comprar a Espanha ferramenta adequada para abrir as fechaduras dos paióis, usando as informações que o Fechaduras lhe tinha dado no almoço em Sete Rios, em Lisboa; a seguir pensou em local para esconder as armas e munições que fossem roubadas, tendo-se decidido pela Portela da Carregueira, a Norte do Tejo, propriedade de avó dele .

Para o assalto aos paióis foi escolhida a noite de 27 para 28 de Junho de 2017 por ser lua nova, por isso sem luar, e porque o ex-fuzileiro João Paulino tinha sabido pelo militar de Tancos, o Filipe Sousa, sobrinho do Pisca, que nessa noite seria fácil entrar nos paióis.

As condições de segurança dos Paióis Nacionais de Tancos, onde se guardava então muito armamento militar,  eram, segundo a informação do Filipe Sousa, quase inexistentes nessa noite: o sistema de vigilância não funcionava, porque a vídeo-vigilância não estava operacional; estavam inativos os sensores de movimento; o sistema de deteção de vibrações nos edifícios dos paióis não também não funcionava; e a degradação das redes metálicas impeditivas do acesso aos edifícios dos paióis permitiam a  entrada fácil por elas.

Acrescia a tudo isso ser insuficiente a iluminação na zona exterior aos edifícios dos paióis: os projectores luminosos das torres de vigilância não funcionavam; não existiam alarmes sonoros contra intrusos nos paióis; não havia equipamento de visão nocturna; e não era feita vigilância nocturna dos paióis.

A acrescer a esta grave incúria com a defesa e a  vigilância dos paióis, que na noite de 27 para 28 de Junho de 2017, quando foi feito o assalto aos paióis, foram dispensados os militares encarregados de fazer rondas noturnas aos paióis, tendo o comandante da guarda aos paióis assumido ter assegurado só duas rondas a eles, uma de tarde e outra de manhã, possivelmente uma na tarde de 27de junho e outra na manhã de 28 de junho de 2017, nenhuma durante essa noite. Assim na noite de 27 para 28 de Junho de 2017, quando foi feito o assalto, não houve rondas.

Não consta da acusação se foi só o sobrinho do Pisca, o militar Filipe Sousa, que transmitiu todas essas informações ao ex-fuzileiro João Paulino, por ser do seu conhecimento pessoal, ou se ele as tinha também de outra fonte.

O caminho para o roubo das armas e munições nos Paióis Nacionais de Tancos estava, nessa noite de 27 para 28 de junho de 2017, mais do que aberto, escancarado.

Em 27 de junho de 2017 o Pisca saiu de Aveiro para o assalto aos paióis com o fim de se reunir em Ansião com o chefe do grupo João Paulino e os outros 6 participantes no assalto, tendo seguido para os paióis em carrinha de caixa fechada e o Pisca no carro em que veio de Aveiro. Embora sendo noite escura, foram com as luzes dos carros apagadas. Chegados pararam junto a uma das torres de vigia dos paióis, que, como as outras, estava sem vigilante.

Iniciando o assalto, o Pisca entrou por ruptura da degradada rede exterior dos paióis e cortou a seguinte, a mais próxima dos paióis, com alicate de que ia munido. Ficou depois de vigia dentro do carro que trouxe de Aveiro com instruções para avisar com a buzina do seu carro se alguém aparecesse, devendo, nesse caso, simular estar parado por avaria. Os que vieram na carrinha de caixa fechada, foram, com a cara tapada e luvas, transportando dois carrinhos-de-mão para os paióis números 14 e 15 situados cerca de 550 metros adiante.

A seguir, segundo a acusação, o ex-fuzileiro João Paulino, sabendo onde, dentro dos paióis, estavam as armas e munições que lhe interessavam, rebentou as fechaduras dos dois paióis com a ferramenta que para isso comprara na Espanha. Só rebentou as fechaduras dos paióis onde as armas e as munições estavam, embora não conste da acusação a fonte dessa informação, se proveniente do Filipe Sousa, sobrinho do Valter Abreu, conhecido por Pisca, ou de outra.

O roubo foi feito com tranquilidade e sem incidentes. Depois todos partiram nos veículos que trouxeram e esconderam as armas e as munições roubadas no local que o João Paulino havia escolhido, na Portela da Carregueira, a Norte do Tejo. Depois seguiram para as suas casas.

O rigor do planeamento do roubo, a tranquilidade da sua execução e a inexplicável ausência de vigilância dos Paióis Nacionais de Tancos podem ser indiciadores de ter havido conivência ou participação no roubo de outros militares do Perímetro Militar de Tancos, eventualmente por via do militar em Tancos, Filipe Sousa, sobrinho do Valter Abreu, conhecido por Pisca. Estranhamente não parece que tivesse sido investigada essa possibilidade para a confirmar, ou infirmar.

No caminho para a residência, em Aveiro, o Pisca desfez-se do alicate com que cortara a rede do perímetro dos paióis, atirando-o à Ria.

 

NOTA: Continua em próximo número

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