Manuel Silva

VITÓRIA AMARGA DO PS

As sondagens da última semana da recente campanha eleitoral para as eleições legislativas não erraram relativamente aos resultados finais.

O Partido Socialista, ao qual, no início da campanha todos os órgãos de comunicação social e sondagens vaticinavam uma vitória, com maioria absoluta ou lá próxima e a uma distância de 15% a 20% do PSD, ficou a 8 deputados daquela maioria e obteve perto de 9% de votos a mais que os sociais-democratas, não chegando aos 37%, apenas mais 5% que nas legislativas de 2015, que o PS perdeu. Está-se perante uma vitória amarga do vencedor.

Se nos últimos quatro anos os pensionistas e os trabalhadores que recebem o salário mínimo viram os seus rendimentos melhorarem, o que é justíssimo, as restantes camadas da população, especialmente a classe média, não viram crescer o seu poder de compra. O défice % é a consequência das cativações de Mário Centeno, que causaram grandes danos nos serviços públicos, especialmente no sector da saúde, e da maior carga fiscal de sempre, que impediu um maior crescimento económico, sendo, por outro lado, o investimento público baixíssimo, inferior ao verificado no governo de Passos Coelho.

Por todos aqueles motivos e pelo abuso de poder que se verificou com o “familiagate” ou aquando da última greve dos motoristas de matérias pesadas, o povo português negou a maioria absoluta ao PS e a António Costa.

Por outro lado, acabou a geringonça, a qual, de resto, só foi possível para derrubar o governo Passos/Portas. Essa questão agora não se coloca e os partidos à esquerda do PS decidirão o seu voto futuro na A.R. caso a caso. Perante esta situação, até poderão passar os orçamentos de Estado, mas reformas estruturais que preparem o futuro do país, só acontecerão se os socialistas chegarem a acordo, em questões de regime, com o PSD. Como não há mais nada a restituir, o próximo executivo irá ter uma acção parecida à de um governo de gestão.

O PCP/CDU e o BE não ganharam nada em terem participado na geringonça. Quanto ao BE, que tem óptima imprensa, não se verificou a subida de votação prevista pelas sondagens. Aumentou o número de deputados, mas perdeu 1% de votos relativamente há 4 anos, não chegando sequer aos 10%. O PCP teve o pior resultado de sempre em eleições legislativas (6,5%), que não é devido essencialmente a ter estado na geringonça, mas porque continua agarrado a ideias que faliram no mundo inteiro há 30 anos. Apesar do rejuvenescimento de quadros, deputados e membros do Comité Central, continua agarrado à mesma “ganga” de sempre como se o mundo não tivesse mudado. A substituição de Jerónimo de Sousa no lugar de secretário-geral por um quadro novo como João Ferreira, Bernardino Soares ou João Oliveira, poderia atrair novos sectores da população ao partido.

A extrema-direita, através do Chega, entrou pela primeira vez, ao fim de 45 anos de regime democrático, no parlamento. O PAN passou de 1 para 4 deputados, o Livre e a Iniciativa Liberal também elegeram um deputado cada um. O PAN está a crescer em todo o país. Os outros novos partidos parlamentares obtiveram 1% de votos ou pouco mais. Só que a esmagadora maioria desses votos foi concentrada no círculo eleitoral de Lisboa, o que permitiu a eleição daqueles deputados, mostrando cada vez mais o acentuado repúdio pelos principais partidos na grande Lisboa. Em todo o país, houve uma enorme abstenção, igualmente demonstrativa da desconfiança de quase metade da população relativamente à classe política.

Para Pedro Santana Lopes, estas eleições foram o canto do cisne.

O CDS teve das piores votações de sempre. Pouco passou de 4% de votos, elegendo apenas 5 deputados, porque Assunção Cristas nada trouxe de novo e fez uma oposição histriónica ao governo – a mesma que os direitinhas do PSD queriam que Rui Rio fizesse – sem grande conteúdo, mais parecendo a ex-feirante da Malveira para quem cozinhou um prato num programa televisivo.

Assunção Cristas demitiu-se da liderança do seu partido e já afirmou não continuar deputada. As candidaturas que se perfilam à sua sucessão apontam para uma viragem ainda mais à direita, o que não augura nada de bom para o futuro do CDS.

Finalmente, o PSD. Antes da campanha eleitoral, tudo apontava para um péssimo resultado dos sociais-democratas, igual ao verificado nas eleições para o Parlamento Europeu. No debate com António Costa, Rui Rio mostrou claramente estar melhor preparado que o seu adversário para dirigir um governo reformista e desenvolvimentista, com justiça social. Durante a campanha mostrou ser dos actuais líderes o que possui melhores qualidades para chefiar um governo. Só que a sua política iria mexer com muitos interesses. Daí a antipatia que por ele mostrou a comunicação social vendida ao alto capitalismo sem escrúpulos e subjugada ao poder político de momento.

Por outro lado, Rio e a direcção do PSD foram alvo de um constante boicote e ataque por parte dos passistas que, hipocritamente, pretendiam participar na campanha eleitoral, o que a direcção social-democrata não permitiu e muito bem.

Tendo em conta estas condicionantes, embora o PSD não atingisse o seu objectivo que seria a vitória, não teve má votação e recuperou muito eleitorado que parecia perdido.

Quando escrevo estas linhas ainda não é conhecida a posição de Rio face a nova candidatura à liderança do PSD. Deverá avançar. Se não o fizer, os verdadeiros sociais-democratas terão que encontrar outro candidato credível que enfrente Luis Montenegro, Miguel Pinto Luz ou Maria Luis Albuquerque, indicada pelo tecnocrata de Boliqueime já praticamente esquecido.

Se o PSD virar de novo à direita, cavará a sua sepultura e então é que o PS conquista a totalidade do eleitorado central, podendo a qualquer momento provocar uma crise que resulte em eleições antecipadas que lhe darão a tão almejada maioria absoluta.

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