António Bica

AS MIL E UMA NOITES DE MUITOS CONTOS (17) - O Moço de Recados e as três Donzelas (continuação)

Ainda os galos não haviam cantado, Xariar pediu a Xerazade que continuasse.

Começou ela:

O primeiro peregrino continuou:

Depois de o meu tio ter batido com o sapato no filho, disse-lhe: «Senhor, não acrescentes aflição à aflição. O teu filho e a mulher com que jaz são agora negro carvão. De nada vale bater-lhe». Então contou:

Ó filho do meu irmão, este meu filho apaixonou-se, depois da infância, pela irmã. Preocupado com o que poderia acontecer, disse comigo: «São muito novos. Tudo passará». Chamei-o, censurei-o duramente e disse-lhe: «Toma cuidado. Lembra-te que sois irmãos. Não conjures sobre nós a ignomínia e a desgraça». Procurei mantê-los separados, mas entrara neles a paixão, de que o desfecho, se não se curar, é a morte. Depois que os separei, fez ele construir este túmulo, dizendo que certamente a morte em breve o levaria. Vejo agora que o fez de acordo com a irmã e que, aproveitando a minha ausência, aqui se encerraram. O castigo de Deus desceu sobre eles e os fez carvão.

As lágrimas correram dos seus olhos e dos meus. Decorrido muito tempo disse: «Assim perdi ambos os filhos. Agora, que também perdeste o teu pai, serás meu filho». Saímos do túmulo, que fechámos como se não tivesse sido aberto, e regressámos.

Ao longe sons de trombetas e tropel de cavalos aproximavam-se. Em pouco tempo a cidade foi inesperadamente invadida. Apercebemo-nos pelos estandartes que o vizir que matara o meu pai tinha acabado de entrar de surpreza na cidade, receoso de que o meu tio vingasse a morte do irmão, procurando assim evitar essa vingança. Vi que, se antes escapara da morte a que fora condenado, não me livraria agora dela. Os soldados do vizir conheciam-me e qualquer um me entregaria na mira de recompensa. Cortei a barba, para que, sem ela e cego de um olho, me não reconhecessem. Saí disfarçado de peregrino e dirigi-me à cidade de Bagdade, luz do mundo, governada pelo grande califa Faro Alrachide, para lhe contar esta história e pedir protecção. Cheguei ontem. Errei pelas ruas intermináveis e cheias de gente, até que encontrei o segundo peregrino. Saudei-o e pedi-lhe ajuda. Respondeu-me: «Também não sou desta terra». Continuámos depois até chegarmos a esta casa.

Acabada a história a jovem disse: «Triste é a tua história e, porque bem a contaste, estás livre». E mandou soltá-lo. Respondeu: «Peço-vos que me deixeis ouvir as histórias dos meus companheiros». A jovem consentiu e pediu ao segundo peregrino que contasse a sua história. Começou:

Sou filho de rei e nasci sem defeito. Li os melhores livros e tive bons mestres. Exercitei com afinco a arte poética e o meu nome tornou-se conhecido. O rei da Índia pediu ao meu pai que fosse à sua corte. Mandou armar navios e iniciei por mar a viagem, que durou um mês. Desembarquei com o séquito, os cavalos, os camelos carregados de presentes e iniciámos a longa marcha até à capital da Índia por planície desértica. Uma tempestade de areia levantou-se e obrigou-nos, durante horas, porque nada víamos, a permanecer imóveis. Quando se dissipou, apareceram ao longe sessenta cavaleiros ladrões do deserto. Procurámos fugir, mas eles, mais velozes que os camelos, apanharam-nos. Dissemos: «Somos enviados à corte do rei da Índia». E mostrámos o salvoconduto. Responderam: «Não somos seus súbditos nem vivemos no seu território». Desembainharam as espadas e atacaram. Alguns dos meus cairam mortos. Eu e alguns outros conseguimos fugir, abandonando os camelos e toda a carga, dispersando-nos. Na desorientação da fuga fiquei sozinho. Dirigi-me à montanha próxima na esperança de avistar terra habitada. No cimo entrei numa gruta para me abrigar durante a noite. Pela manhã avistei uma cidade.

Chegado a ela vi que era terra próspera e de bom clima. Numa rua um alfaiate costurava na loja. Saudei-o, desejando-lhe paz. Retribuiu e, como me viu cansado, convidou-me a sentar. Contei-lhe o que acabava de me acontecer. Aconselhou nada dizer do que me sucedera por o rei da cidade estar em guerra com o meu pai. Matou a minha fome e a minha sede e deixou-me pernoitar num canto da loja. Fiquei alojado por três dias, passados os quais me perguntou se conhecia algum ofício de que pudesse viver. Respondi: «Aprendi poesia, matemática e todas as ciências». Comentou: «Nada disso te serve para viver». Depois de discutirmos sobre o que poderia fazer para ganhar a vida, decidi, com o seu acordo, cortar lenha nos baldios longe da cidade e vendê-la pelas ruas. Comprou uma corda e um machado, recomendou-me aos lenhadores e comecei a ganhar a vida. Vivia pobremente, mas consegui juntar dinheiro para pagar ao meu benfeitor a corda e o machado. Todos os dias visitava a loja, onde repousava do trabalho duro e conversávamos longamente. Um dia, ao cortar uma árvore pela raíz, deparei com uma argola de cobre em tampa de madeira. Levantei-a e vi uma escada por onde desci até chegar a magnífica sala, onde estava uma jovem bela como a mais preciosa das pérolas. Olhou-me e disse: «És homem ou demónio? Como chegaste a este lugar onde vivo sem ver ninguém?». Respondi: «O destino trouxe-me junto de ti para me fazer esquecer as penas». Contei-lhe quanto me acontecera. Depois de acabar, disse: «Também te contarei a minha história:»

Sou filha do rei da Índia, que me casou com o filho do irmão. Antes que dormisse com ele, um génio arrebatou-me e transportou, contra a minha vontade, para este lugar. Nada me falta, mas vivo só. Vem ver-me de quinze em quinze dias e desaparece de novo. Se, no intervalo, precisar que volte, basta tocar nas palavras mágicas escritas na cúpula desta sala. Há nove dias que não vem. Podes ficar por cinco, para que não aconteça que chegue e se vingue. Ouvi maravilhado a história e aceitei com gosto o convite. Levou-me para esplêndidas instalações de banhos. Corriam para largos tanques água quente e água fria. Ambos nos despojámos do que vestíamos e entrámos no banho de vapor. O suor cobriu-nos o corpo e correu por ele. Mergulhámos no tanque de água fria e passámos ao de água tépida, onde numa bandeja flutuante havia doces e bebidas perfumadas. Depois de longas horas deixei o banho e adormeci. Acordei na manhã seguinte com a companheira ao meu lado. Conversámos longamente e por fim cantou para mim:

«Tivesse sido prevenida/ de antemão que virias,/ como tapete a teus pés teria/ o vermelho do meu sangue/ e o negro dos meus olhos./ Para ti teria preparados/ o viço dos meus peitos/ e a força das minhas coxas/ para teu melhor repouso.»

Agradeci-lhe comovido. Passámos o dia falando e bebendo pela mesma taça, até que veio a noite. Quando a manhã chegou, levantámo-nos felizes. Propus entusiasmado libertá-la do génio e tirá-la daquele palácio. Sorriu mansamente e disse: «Não ponhas mais desordem na vida. O génio vem só de quinze em quinze dias. Porque queres para ti mais que catorze, se no décimo quinto em ti estará o meu pensamento?» Cheio de ardor e de ciúme não atendi ao que me dizia. Pedi-lhe que tocasse na inscrição mágica para que o génio aparecesse e me batesse com ele. Em resposta recitou-me estes versos:

«Desesperas pela separação/ e recusas o afastamento/ sem perceber que estando livres/ melhor ainda nos unimos./ A rotina apaga o amor/ e o ciúme assassina-o».

Mas, sem atender à sabedoria, violentamente bati nas palavras mágicas que faziam aparecer o génio.

A manhã raiava. Xerazade suspendeu a narrativa.

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