Manuel Silva
Faleceu DIOGO FREITAS DO AMARAL

Faleceu, com 78 anos de idade, o Doutor Diogo Freitas do Amaral, primeiro líder do CDS, ex-professor universitário, especialista em Direito Administrativo, que há longos anos estava afastado da política partidária.
Muito ligado profissionalmente ao Doutor Marcelo Caetano, de quem era assistente na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, foi convidado nos primeiros anos da chamada primavera marcelista, que não o chegou a ser, a filiar-se na União Nacional (UN), partido único da ditadura, o que recusou.
Fez parte da Câmara Corporativa, na qual defendeu posições liberalizantes e democratizantes do regime. Dessa Câmara faziam parte também pessoas já, nessa altura, de esquerda, como Maria de Lurdes Pintassilgo. Vitor Constâncio, também de esquerda e socialista, tinha um lugar de técnico na Presidência do Conselho de Ministros.
Após o 25 de Abril, Diogo Freitas do Amaral fundou o CDS, inspirado na democracia-cristã e no movimento conservador europeu, com o objectivo de integrar a direita no novo regime.
Na sequência do 28 de Setembro de 1974, todos os partidos de direita radical foram extintos. O partido mais à direita passou a ser o CDS. Nos meios rurais e mesmo nos grandes centros populacionais, antigos caciques do salazarismo aderiram ao CDS, não fazendo a devida reciclagem democrática, o que viria a dar uma imagem reaccionária e restauracionista das bases do partido.
No entanto, Freitas do Amaral e o seu braço direito, Adelino Amaro da Costa, lutaram pela democracia contra os que, no PREC, procuraram criar uma ditadura de sinal contrário, ao lado do PPD (actual PSD) e do PS, bem como do sector democrático do MFA (Movimento das Forças Armadas).
O CDS votou contra a Constituição aprovada em 1976, dado o seu carácter ideológico, que separava, em vez de unir os portugueses.
Com Sá Carneiro, Ribeiro Teles, líder do Partido Popular Monárquico (PPM) e o Movimento Reformador de António Barreto e Medeiros Ferreira, dissidentes do PS, Freitas do Amaral participa na Aliança Democrática (AD), que vence por maioria absoluta as legislativas de 1979 e 1980.
O governo da AD, do qual foi ministro dos Negócios Estrangeiros, baixou a inflação, diminuiu o desemprego sem as artimanhas actuais, e melhorou o poder de compra dos portugueses.
Com a morte de Sá Carneiro e Amaro da Costa em Camarate, a AD não foi mais a mesma. O PSD escolheu para a liderança Pinto Balsemão, que viria a ser primeiro-ministro. Freitas do Amaral, tal como Sá Carneiro, haviam dito durante as presidenciais do final de 1980 que caso o general Ramalho Eanes fosse o seu vencedor, não ficariam no governo. Freitas do Amaral assim fez.
A má situação económica internacional, a falta de força política por parte de Balsemão levaram ao decaimento do novo executivo. Em 1981, Freitas do Amaral regressa ao governo, na qualidade de ministro da Defesa. Nas autárquicas de 1982, a AD regista uma vitória amarga, que leva à queda do governo e à demissão de Balsemão e Freitas das lideranças dos respectivos partidos.
No ano de 1986, Freitas do Amaral, após se desfiliar do partido que fundou, candidata-se a P.R., com o apoio do PSD e do CDS. Quase vence na primeira volta. Na segunda volta, com o apoio de toda a esquerda, incluindo a mais radical, é eleito Mário Soares por cerca de 3% de diferença.
Nas legislativas de 1991, quando Cavaco Silva obtém a segunda maioria absoluta, o CDS, novamente liderado por Freitas do Amaral, tem apenas 5% de votos, mais 1% que 4 anos antes, com Adriano Moreira. Freitas volta a abandonar a liderança do seu partido, para a qual é eleito Manuel Monteiro, uma criação de Paulo Portas e do defunto “Independente”.
O CDS ficou muito à direita, defendendo um conservadorismo e um nacionalismo serôdios. Freitas do Amaral abandona de vez o partido que fundou, tendo apoiado o PSD em várias eleições. Em 2005, após o descalabro do governo de Santana Lopes, apoia o PS, vindo a ser ministro dos Negócios Estrangeiros de Sócrates, embora por pouco tempo, tendo pedido a sua demissão por motivos de saúde.
A partir desta altura, passa a ser um observador comprometido, como se auto-qualificava o francês Raymond Aron, sem partido, Condenou a guerra da NATO contra o Iraque, assente numa mentira, que conduziu à morte de 250 000 pessoas.
Freitas do Amaral deu muito a Portugal, na defesa da liberdade, da democracia e da justiça social. Deixa muito falta, pois grande parte dos actuais responsáveis políticos não estão ao seu nível, de Francisco Sá Carneiro, de Mário Soares ou de Álvaro Cunhal, fundadores do actual regime democrático.
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