EDITORIAL 769

Não é absoluta mas é confortável

Em Viseu, os dois partidos da direita perderam milhares de votos, apesar de o PSD se manter o mais votado. PS e BE aumentaram de votação. Foi positivo, mas ainda insuficiente.

O CDS perdeu o seu eterno deputado, Hélder do Amaral. O BE que tinha apontado como meta eleger pela primeira vez um deputado por Viseu, apesar da subida considerável ficou aquém da meta. O PS aumenta o número de deputados e quatro deputados.

Pedro Mouro, economista, vice-presidente da Câmara Municipal de São Pedro do Sul, integrava a lista do PS em oitavo lugar.  Não foi eleito nem isso era previsível. Poderá, contudo, vir a ocupar um lugar no Parlamento se alguns dos eleitos forem chamados a integrar o Governo. Não será fácil, mas não é impossível.

A região de Lafões ganharia, assim, uma voz na Assembleia da República que a representasse, nomeadamente no que respeita a políticas dirigidas à coesão social e territorial.

À direita o PSD não consegue eleger Telmo Antunes, o quinto na lista por Viseu, outro lafonense que integrava listas, este em lugar elegível caso se repetissem os resultados de 2015. Jurista, com larga experiência autárquica, que, se fosse eleito, iria para o seu segundo mandato no Parlamento, de onde saiu para presidir à Câmara Municipal de Vouzela durante três mandatos consecutivos.

Lamento a ligeira descida da CDU. A CDU desempenha historicamente um papel relevante na região e é fundamental para a esquerda que a CDU recupere a sua força no distrito e na região. Sobre isso o debate terá que ser interno mas creio que precisa de definir estratégias para atrair juventude.

A nível nacional, a relação de forças no Parlamento mudou a favor do PS. A maioria resultante destas eleições não é absoluta, mas é quase como se fosse. Está criado um quadro parlamentar que confere a António Costa grande margem de manobra para garantir maiorias.

Para fazer aprovar diplomas e até o Orçamento de Estado, a negociação do PS com os restantes grupos parlamentares tem um grande leque de opções, bastando garantir algumas abstenções para que sejam viabilizados.

O facto de o PS ter eleito mais deputados do que a direita em conjunto e também mais do que a esquerda, faz com que, por exemplo, uma moção de censura apresentada pela direita ou pela esquerda não tenha efeito prático. A não ser que essa moção juntasse direita e esquerda, praticamente todos contra o PS, o que se afigura como improvável com um Parlamento mais diverso.

De facto, só o PS conseguiu capitalizar eleitoralmente os efeitos de quatro anos de “geringonça” e reforçar-se. Foi injusto, mas foi a realidade dos resultados eleitorais. Agora, para garantir estabilidade governativa, o PS não depende de uma “geringonça 2.0”. Claro que António Costa, depois de indicado pelo PR com 1º Ministro, vai fazer o périplo das negociações com os vários partidos porque isso reverte a seu favor, reforça-o politicamente.

Porém, como se conclui destas eleições, uma “geringonça 2.0” seria uma espécie de “abraço de urso” às restantes forças à esquerda e isso não seria bom nem para a democracia nem para o país. Não se deve trocar a liberdade de ação, em defesa de quem trabalha e de uma economia mais justa, por uma quantas medidas aceites pelo PS, por muito interessantes que possam parecer. Ainda para mais quando se avizinha uma crise de consequências imprevisíveis em que, como é tradição social-democrata, são os trabalhadores que são chamados a pagá-la.

Finalmente, nem os quatro anos em que o Parlamento ganhou grande centralidade no debate e na decisão conseguiram motivar mais portugueses a votar. A taxa de abstenção aumentou, passou de 43% para 45,5%, e o número de votos brancos e nulos também aumentou. Curiosamente Viseu contraia esta tendência vê a taxa de abstenção a diminuir. O número de votantes foi de 51,04 em 2015 passou para 51,28 em 2019. Alguma coisa precisa de ser mudada nesta mitigada democracia.

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