Aldeia de Santo Estêvão – Passado
Texto e fotos de Sérgio Costa
• Sérgio Costa
Tal como outras aldeias do interior de Portugal, a aldeia de Santo Estêvão está em “vias de extinção”. Este artigo aborda a história da aldeia e ajuda a compreender os motivos por trás do êxodo rural. Apenas conhecendo o passado se pode trabalhar o presente com vista no futuro.
O nome da aldeia certamente deve as suas origens ao primeiro mártir do cristianismo. O mártir Santo Estêvão foi acusado de blasfêmia pelas autoridades judaicas e depois apedrejado até à morte durante o julgamento. Fatalismo ou apenas coincidência, a aldeia de Santo Estêvão parece seguir o destino do mártir que lhe deu o nome, ou seja, está condenada à morte. Devido ao êxodo rural, a aldeia perdeu quase todos os habitantes permanentes. Sérgio Costa foi o último habitante natural da Aldeia.
Agricultura como sinónimo de progresso
Para compreendermos o abandono da aldeia de Santo Estêvão é necessário começarmos por analisar a influencia da agricultura na nossa história. A agricultura representou um novo nível de evolução humana. A técnica de cultivar a terra constituiu um novo patamar na nossa história, uma espécie de revolução industrial, mas com 10 mil anos de antecedência. Com o desenvolvimento da agricultura, o estilo de vida nómada em busca de fruta, raízes e animais para caçar, foi-se transformando gradualmente num estilo de vida sedentário. De facto, a agricultura foi uma ferramenta poderosa na luta pela sobrevivência dos nossos antepassados.
O estilo de vida sedentário deu origem a mudanças que chegaram aos nossos dias. Por exemplo, a criação de muralhas, frequentemente no topo das montanhas. Assim começou a produção, armazenamento de alimentos e a divisão social do trabalho (profissões). Em conclusão, a agricultura representa o início da diferenciação entre a nossa espécie e o resto dos animais.
Um exemplo de armazém de alimentos que chegou até aos nossos dias é o canastro ou caniço, tal como na Foto 1. Esta estrutura é normalmente construída numa base de pedra e com tábuas de madeira espaçadas entre si. A base elevada em pedra constitui um bom alicerço e ao mesmo tempo dificulta o acesso aos roedores. Os espaços entre as tabuas (as frestas) permitem a passagem do ar, facilitando assim a secagem do milho. Como o milho exige a colheita no outono, este precisa de ser conservar seco para impedir a proliferação dos microrganismos na estação da chuva.
Canastro em Santo Estêvão
O século passado
Particularmente durante as décadas de 50, 60 e 70, Santo Estêvão foi uma aldeia onde se lutou pela sobrevivência. Tal ato deveu-se principalmente à severa ditadura, bem como ao crescente número de famílias (cerca de 50 pessoas viviam em Santo Estêvão neste período) que lutaram para encontrar terra suficiente para cultivar. Durante este período, a maioria das pessoas não eram proprietárias de terrenos de cultivo. Para encontrar alimento, viam-se obrigadas a trabalhar as terras dos senhorios. Em troca das terras os senhorios recebiam uma quarta parte, ou mesmo metade da produção das mesmas. Mesmo com a criação de gado. Assim, o fruto do trabalho árduo dos camponeses tinha de ser dividido com os senhorios.
Na Aldeia de Santo Estêvão, em particular, a agricultura era centrada na produção de milho. O milho fornece alimento durante todo o ano para os animais e também dá para fazer Pão. Uma vez que onde houver pão e vinho já não há fome, a extremamente trabalhosa cultura do milho era dominante em Santo Estêvão. As vacas também produziam quantidades significativas de fertilizante natural para a terra, melhorando assim a produção do milho. Assim se fecha o ciclo, um ecossistema perfeito entre o homem, os animas e as plantas.
As vacas foram os animais mais “respeitados” em Santo Estêvão e nas regiões de altitude média. As vacas puxavam o arado que penetrava no solo e virava-o. Ao revolver o solo facilita-se o cultivo da terra. As crias das vacas eram geralmente vendidas nas feiras locais, muitas vezes a única receita monetária do ano. Este ecossistema, sustentável do ponto de vista ambiental, é incapaz de competir com a eficiência da agricultura industrial. Assim, desde os anos 50 que o interior foi perdendo população.
Na Foto 2 vimos um carro de vacas, ainda em bom estado de conservação e funcional. Este era principalmente utilizado para o transporte dos produtos agrícolas. Hoje em dia é raramente é visto, mesmo em áreas rurais. Este é fabricado em madeira de castanheiro e as rodas em ferro fundido. Tradicionalmente, é puxado por duas vacas.
O carro de vacas existente em Santo Estêvão é um dos meios de transporte mais primitivos e mais simples
A infraestrutura publica na aldeia resume-se às calcadas e à fonte da Aldeia, Foto 3. Esta fonte foi outrora a principal fonte de água da aldeia. O primeiro reservatório à direita servia para apanhar água para consumo doméstico. As duas barras de ferro servem para apoiar os garrafões ou jarros enquanto são enchidos com água. O segundo reservatório, com vegetação verde, continha água potável para os animais. Os outros dois reservatórios à esquerda foram construídos ??para lavar a roupa e de forma a que as vacas não os pudessem alcançar.
Fonte da Aldeia
De forma muito resumida e ligeiramente enquadrada na história, este artigo relata o passado de Santo Estêvão. No presente, a aldeia está recetiva aos visitantes, pode ser apreciada no seu estado natural, mas qual será o futuro desta aldeia? Não perca as surpresas reservas para o próximo artigo.
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