Francisco de Almeida Dias

Dom José Tolentino Mendonça, Novo Cardeal Português

A presença portuguesa em Roma tem sido assinalada, ao longo dos séculos, pela passagem ou permanência de grandes personalidades, que ajudaram a formar o imaginário italiano no que à lusitanidade se refere. Recordo, de relance, o mítico Cardeal de Alpedrinha, D. Jorge da Costa, que morreu com mais de 100 anos em 1508, depois de ter convivido com cinco papas e ter acumulado sucessivamente sete títulos cardinalícios, que chegou mesmo a emprestar o seu nome a um arco de triunfo de época aureliana, por se encontrar encostado a sua casa, mantendo-se até hoje na memória topográfica romana como “l’arco di Portogallo”. Pouco depois será a sumptuosa embaixada de D. Manuel a Leão X Médicis a dar brado: Hanno, um elefante albino vindo de Cochim, foi o primeiro paquiderme a pisar o território italiano desde os tempos de Aníbal, o Africano – de tal ordem que teve Rafael a desenhá-lo, poetas e dramaturgos a escreverem sobre ele e os purpurados a deixarem as suas funções na Cúria para o levarem a passear pelas ruas da Urbe! E isto para não falar no mais glorioso de todos os momentos, aquele em que o ouro e os diamantes do Brasil fizeram de Lisboa mais romana que a própria Roma, através das numerosas encomendas artísticas que D. João V mandou executar, ao mesmo tempo que desenvolvia uma importante e delicada política diplomática nessa cidade, então o centro político – e não só religioso – da Europa e do mundo.

O século XXI tem agora mais um ilustre português para juntar a essa galeria luso-romana. Foi com grande expetativa e emoção que se recebeu a notícia no passado dia 1 de setembro da elevação à púrpura cardinalícia de Dom José Tolentino Mendonça, no próximo Consistório de 5 de outubro de 2019. Esta nomeação, já anteriormente ventilada por alguns meios de comunicação, só agora veio a ser confirmada pelo Papa Francisco, em reconhecimento dos méritos espirituais e intelectuais do prelado português, que é sacerdote, intelectual e poeta, reunindo assim, na sua complexa e fascinante personalidade e atividade, os mais elevados resultados da espiritualidade. Pode dizer-se que teremos muito em breve um novo cardeal humanista, numa época que, cansada de sentir alienada das matérias da alma em favor de um materialismo desenfreado e sem sentido, recomeça hoje a querer ir mais ao fundo de si própria, descobrir-se na plenitude do Ser. Tolentino é o sexto cardeal português do século XXI, o terceiro designado pelo Papa Francisco e o segundo membro mais jovem do Colégio Cardinalício.

O futuro Cardeal nasce na Madeira em 1965, filho de pescadores que vão tentar a sua sorte no Lobito. Assim, a infância do poeta é cheia da imensidão e das cores de África, até que a Revolução o devolve, pré-adolescente, à ilha natal. É talvez essa a experiência mais marcante no início da vida de Tolentino, aquela que se lhe descobre nos primeiros versos, aquela onde eventualmente descobre a sua vocação religiosa. Depois da formação inicial no Seminário do Funchal, vem para Lisboa. É um brilhante aluno na Católica, que segue para Roma, depois da licenciatura em Teologia, para completar os seus estudos. À sua segunda licenciatura no Pontifico Istituto Biblico, segue-se em 2004 o doutoramento dedicado ao estudo da construção da imagem de Jesus pelo Evangelista Lucas, concluído com a nota máxima. A par de ensaios e de outros textos de caráter religioso, o Autor publica também poesia desde 1990, e desde 1998 com a prestigiadíssima editora Assírio & Alvim, afirmando-se uma das vozes mais altas e coerentes da literatura portuguesa de hoje. Ensina na Universidade Católica, de que se torna vice-reitor em 2012. Na Capela do Rato em Lisboa, local historicamente associado a uma ala culta e progressista da Igreja portuguesa, orienta espiritualmente, durante anos, uma Comunidade de imenso prestígio, em cuja assembleia se conta a fina flor da intelectualidade, do jornalismo, da política e da sociedade da capital.

Impressionado com as suas capacidades, o Cardeal Gianfranco Ravazzi indica-o em novembro de 2012 como Consultor do Pontificio Consiglio per la Cultura e será essa aproximação a Roma a torná-lo conhecido do Papa Francisco, que o chama a orientar os exercícios espirituais da Cúria Romana na Quaresma do ano passado. Poucos meses depois, a 26 de junho, Portugal é surpreendido com a notícia da sua nomeação como arcebispo titular de Suava, Arquivista e Bibliotecário do Vaticano. Agora, pouco mais de um ano passado, novo reconhecimento e honra colocam o sacerdote português no centro das atenções. É momento para desejarmos ao Rev. Mons. Dom José Tolentino Mendonça inspiração e força no cumprimento da sua missão e ficarmos orgulhosos desta nova e brilhante página da história portuguesa em Roma, que traz o seu nome no título. Quem sabe se não virá este mesmo nome a juntar-se enfim ao de Pedro Hispano, até hoje o único papa nascido em Portugal?

 

Nota:

Francisco de Almeida Dias, Ph.D. (1980) é doutorado em Literaturas Comparadas pela Università degli Studi Roma Tre, e está ligado à Cátedra Pedro Hispano, Università degli Studi della Tuscia. A editora SetteCittà de Viterbo irá publicar nas próximas semanas o seu Il magnifico corteo sulle macerie, una lettura dell’opera poetica di José Tolentino Mendonça. O autor tem um segundo livro no prelo, com saída prevista pelo Natal, sobre a presença portuguesa em Roma: Roma portoghese: storie e memorie di angeli, santi, ambasciatori ed elefanti (editora Solfanelli).

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