António Bica

AS MIL E UMA NOITES DE MUITOS CONTOS (16) - O Moço de Recados e as três Donzelas (continuação)

AS MIL E UMA NOITES DE MUITOS CONTOS (16)

Na noite que se seguiu Xerazade continuou:

A jovem interpelou os homens: «Dizei a vossa última vontade, que vos resta uma hora de vida. Se algum de vós for governante, mais depressa o mandarei matar». O califa confidenciou ao vizir: «É melhor revelar quem somos para não corrermos o risco de ficar sem cabeça». O vizir comentou: «É o que merecemos por quebrar a palavra». Voltou o califa: «Não podes ironizar quando a situação é séria». A jovem aproximou-se dos peregrinos e perguntou: «Sois irmãos?» Responderam: «Não. Somos pobres e, enquanto peregrinos, vivemos de pôr sanguessugas e ventosas». Voltou a jovem: «Nascestes cegos?» O primeiro respondeu: «Nasci com os dois olhos. Depois perdi um. É uma história espantosa que, se fosse escrita, todos leriam com admiração». O segundo e o terceiro disseram: «Também nós nascemos sem defeito. Mais tarde perdemos um dos olhos». Todos acrescentaram na esperança de não perder a cabeça: «As nossas histórias são admiráveis e as aventuras prodigiosas». A jovem intimou-os: «Cada um contará a sua e, se bem contada, ficará livre».

Começou o moço de recados: «Senhora, a minha vida sempre foi simples e sem nada que recordar. Nasci pobre e pobre vivo do meu trabalho de carregador para quem, em cada dia, me contrata na praça pública. Prodigioso é o que me aconteceu desde que a vossa irmã me chamou, mas isso bem conheceis». Disse-lhe a jovem depois de o mandar soltar: «Podes ir em paz». Voltou ele: «Senhora, não irei enquanto não ouvir as histórias dos meus companheiros».

O primeiro peregrino começou: «O meu pai era rei. O irmão era também rei noutra cidade. Nasci no mesmo dia do filho do meu tio. Ambos crescemos e eu, de tempos a tempos, ia a sua casa e convivíamos. Na última vez que o visitei ofereceu-me um banquete, com boa comida e excelentes vinhos. Comemos e bebemos. Depois o filho do meu tio disse: «Quero fazer-te um pedido». Respondi: «Estou ao teu dispor». Pediu que jurasse sobre o livro sagrado e jurei. Saiu e logo voltou com uma linda mulher perfumada de nardo e vestida sumptuosamente. Disse-me: «Leva esta mulher». Indicou-me para onde a devia levar e acrescentou: «Encontrarás um túmulo no meio de muitos outros e aí esperarás por mim».

Porque havia jurado e a ele me ligava grande amizade, não pude recusar». Acompanhei a jovem mulher e, chegados ao local, sentámo-nos sob a cúpula do monumento, que ela conhecia, a aguardar pelo filho do meu tio, que chegou com uma vazilha cheia de água, um saco de gesso e uma enxada. Afastou as pedras do chão do túmulo e com a ferramenta cavou até encontrar uma tampa. Levantou-a e surgiu uma escada coberta com abóboda. Disse para a mulher: «Depende de ti a escolha». Ela, sem responder, desceu a escada e deixou de se ver. Disse para mim: «Quando tiver descido, deves repôr a tampa, cobri-la com terra e juntar as pedras tumulares que unirás com o gesso amassado, de modo que ninguém note que foram abertas.

Logo desceu e deixei de o ver. Procedi como me pedira e regressei ao palácio do meu tio, que então andava à caça. Deitei-me. No dia seguinte reflecti no que se passara e arrependi-me do que fizera. Mas o arrependimento não desfaz o feito, só pode levar a que não se repita. Regressei ao local do túmulo, mas não o encontrei. O filho do meu tio não me saía do pensamento e, de preocupação, deixei de comer, de beber e de dormir. Durante sete dias tentei, sem o conseguir, encontrar o túmulo onde o meu primo entrara. Para não enlouquecer decidi regressar ao meu país. Próximo da cidade um grupo de homens atacou-me e prendeu-me. Reconheci que eram soldados do meu pai. Interroguei-os. Um deles disse: «A fortuna voltou as costas à tua família. O vizir levou a tropa à revolta e matou o teu pai. A nós mandou prender-te».

Havia inimizade entre mim e o vizir porque um dia, a caçar, uma flecha minha se cravou no seu olho e ficou dele cego. Vendo-me preso, relembrei as palavras do poeta:

«Que o destino se cumpra./ Nada é eterno e tudo passa./ Não percas a modéstia na fortuna/ e não desesperes na adversidade./ Lembra-te que o acaso é inelutável;/ se te busca, de nada vale resistir».

Quando ceguei, sem querer, o vizir, não se atreveu a retaliar, mas abrigou no coração o rancor e a vontade de vingança.

Levaram-me à sua presença e mandou que me cortassem o pescoço. Disse-lhe: «Como me mandas matar, se não cometi crime?» Ele apontou para o olho cego. Repliquei: «Aconteceu sem que o quisesse». Respondeu: «Pois, se ainda protestas, vou fazer-te o mesmo». Aproximou-se e meteu o dedo no meu olho e arrancou-o, rindo da vingança». Entregou-me, para que me degolasse, a um soldado, que bem conhecia e me levou para fora da cidade. Antes que me matasse recitei as palavras do poeta:

«Nos dias da prosperidade/ a todos procurei respeitar,/ nenhum humilhei com injustiça,/ e muitos me chamavam justo/ convencidos, ou esperando favores./ Agora que a fortuna partiu,/ cada um ao passar me desconhece,/ olhando para o lado sem me ver./ Se alguém pergunta: quem é o infeliz?/ responde indiferente: não sei».

O soldado respondeu de improviso:

«A ingratidão não mora neste peito;/ no de outros talvez, não no meu./ Aceitei ser teu carrasco/ para te poder libertar./ Foge para longes terras que aqui/ o tirano prendeu a liberdade./ Vai, livra-te da tirania/ que só se é gente se livre».

Agradeci-lhe e voltei à cidade do meu tio. Contei-lhe como a fortuna fora adversa com o meu pai e como eu recuperara a liberdade. Respondeu: «Acrescentas sofrimento à minha dor. O meu filho partiu e não regressou mais. Mandei procurá-lo por toda a parte e em nenhures se encontra». Contei tudo o que se passara. Pediu-me que com ele voltasse ao cemitério. Aí, depois de muitas tentativas, encontrámos o túmulo onde o  filho entrara. Penetrámos nele e chegámos a sala onde havia comida abundante e leito de cortinas cerradas, que logo o meu tio abriu, encontrando o filho abraçado à mulher que com ele entrara, ambos transformados em negro carvão. Exclamou encolerizado: «Tiveste o teu castigo». Descalçou o sapato e bateu-lhe com ele na cara.

O dia aproximava-se sem que Xerazade, no entusiasmo da narrativa, o notasse. Xariar, para ir ao seu dever, pediu-lhe que, na noite seguinte, prosseguisse tão espantosa história.

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