Manuel Silva
O homem das contas certas e da ordem

Aquando da última greve dos motoristas de matérias pesadas, com a vitória que o governo de António Costa obteve, logo apareceu quem dissesse haver forte probabilidade de o mesmo e o seu partido ganharem as próximas eleições com maioria absoluta, pois além das contas certas, Costa era o homem da ordem. Nem sequer se deram ao luxo de falar em ordem democrática, sempre necessária à democracia liberal.
Toda a imprensa, rádios e televisões afinaram por aquele diapasão. Pacheco Pereira foi o único que vi escrever ser objectivo do governo reduzir os efeitos das greves, pois os serviços mínimos impostos foram praticamente máximos, o que aconteceu logo a seguir com os trabalhadores da Ryanair.
O PCP e o Bloco de Esquerda não tiveram uma posição frontal de defesa dos trabalhadores. Mais: o PCP alinhou com o governo e o patronato nesta luta. Quem diria? O que faz a pretensão de comer alguns restos do repasto governamental do PS…
Já no tempo da ditadura, o PCP, quando as lutas dos operários, demais trabalhadores e estudantes aqueciam, vinha pedir calma. No dia 12 de Outubro de 1972, no ISE, actual ISEG, quando um pide puxava de uma arma para os estudantes, a direcção da respectiva A.E., conotada com o PCP e presidida por um tal Pedro Aranda, aconselhou calma e fez tudo para que a massa estudantil não agarrasse o agente da polícia política. O resultado foi este disparar à vontade, assassinando José António Ribeiro Santos e ferindo José Lamego, hoje militante do PS, então militantes do MRPP e da sua organização estudantil, a Federação dos Estudantes Marxistas-Leninistas (FEML).
Dos partidos ditos de esquerda, apenas o PCTP/MRPP manteve a sua coerência, apoiando inequivocamente os motoristas em luta.
O historiador Vasco Pulido Valente, um dos primeiros militantes da extrema-esquerda, no MAR (Movimento de Acção Revolucionária), entre 1963 e 1968 e que, após o 25 de Abril oscilou entre o PS e o PSD, sendo actualmente apartidário e pertencente à alt-right, escrevendo no jornal reaccionário “Observador”, onde não faltam antigos “esquerdistas” como João Carlos Espada, Nuno Crato, Helena Matos e José Manuel Fernandes, foi um dos mais acérrimos defensores “das contas certas e da ordem” de António Costa.
Era eu criança e já ouvia aquela expressão sobre o então ditador Oliveira Salazar. Tinha posto as contas públicas no rumo certo e garantia a ordem.
O equilíbrio orçamental escondia a miséria e o atraso de Portugal, a fome, os meninos e meninas que iam descalços para as escolas no Inverno, a falta de infra-estruturas (inaugurar um chafariz era uma festa em qualquer aldeia). De água ao domicílio nem se falava. A esmagadora maioria dos estudantes pobres ou mesmo de classe média não frequentavam a universidade ou até o ensino secundário, como aconteceu com a maior parte das crianças e jovens da minha geração.
As “contas certas” da dupla Costa/Centeno escondem o caos nos serviços públicos, especialmente na saúde, e as cativações do ministro das Finanças, que impedem o investimento público, sem o qual não pode o investimento privado desenvolver-se.
A ordem salazarista assentava na negação das liberdades fundamentais, bem como da realização de eleições livres, na prisão e tortura de opositores ao regime e em alguns assassinatos de militantes do “reviralho”, como então se dizia.
É evidente que a “ordem” socialista não pratica tais actos, mas está a colocar em causa o direito e o efeito das greves, para além de já estar a abusar do poder, especialmente através do nepotismo e do controlo da generalidade da comunicação social. Imagine o leitor se o PS ganha as legislativas com maioria absoluta !…
Razão tinha o escritor peruano e prémio Nobel da Literatura, Mário Vargas Llosa, quando afirmou, há muitos anos: “o capitalismo sem escrúpulos prefere os socialistas a governar”.
Quem conhece a História do século XX também sabe que o fundador do Partido Fascista Italiano, Benito Mussolini, fora antes militante do Partido Socialista Italiano, que usava a foice e o martelo como bandeira e tinha como hino a “Bandera Rossa”.
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