Nazaré Oliveira

O MEU PAI

MANUEL DE OLIVEIRA se chamava. Nasceu no Bairro da Negrosa, em 1905. Na oficina de ferreiro de seu pai, conhecido por José Pernicas, começou a aguçar os picos dos pedreiros. O meu avô tinha um hobby: a pesca à rede. De vez em quando, lá ia ele, com a ajuda dos dois filhos, nadadores exímios, deitar as redes no Vouga. Nas minhas memórias de infância, guardo ainda algumas reminiscências do levantamento das redes, com os barbos, as bogas e os roubacos entalados nas malhas.

Na adolescência, meu pai tomou um rumo que haveria de ser uma das facetas mais importantes da sua vida: foi aprender música com o Senhor Vigário. Numa das minha crónicas já tracei o perfil do Senhor Vigário e falei da sua importância na vida sampedrense, durante os 36 anos que paroquiou a freguesia.

Meu pai, dotado de um ouvido excelente e grande vocação para a música, haveria de desempenhar um papel importante no domínio desta arte.

Solteiro ainda, emigrou para o Brasil. Não encontrou lá a árvore das patacas e pouco tempo se demorou.

Regressado, comprou um automóvel e obteve licença de motorista de praça profissional. E pronto! A conduzir automóveis e transportar passageiros passou a sua vida. Obteve novas licenças e, na praça de S. Pedro do Sul, chegou a ter quatro automóveis, um sempre guiado por ele. Os seus carros dos mais modernos para a época, sempre bem equipados e cuidados, desde o Willis de princípios doa anos 40 (ainda me lembro do seu número de matrícula: MP—10—08) até ao Cadillac dos últimos tempos. Durante várias décadas, percorreu milhões de quilómetros, sem acidentes ou problemas com as autoridades controladoras do trânsito. O seu mérito foi reconhecido quando, numa Campanha de Segurança Rodoviária promovida a nível nacional pelo Diário de Lisboa, em 1964, lhe foi concedida uma MEDALHA DE CONDUTOR EXEMPLAR.

Esta foi a sua vida profissional. Paralelamente decorreu a sua vida artística. Na Banda musical da terra, tocava clarinete e flauta e, quando meu tio António Nazaré, regente da Filarmónica Harmonia, faleceu, meu pai assumiu a regência. Recordo-o a reger a Banda , nas procissões, nas Cavalhadas de Vildemoinhos, no desfile de bandas do distrito, integrado no programa da Feira Franca…

Terminada a sua actividade profissional de motorista de praça, passou a dedicar-se exclusivamente à música. A garagem dos automóveis transformou-se em escola de música, onde ensinou gratuitamente a muitos jovens sampedrenses as primícias da arte musical e a tocar diversos instrumentos, alguns dos quais vieram a fazer parte da Banda.

Mas noutros sectores culturais se desenvolveu a sua arte. No ORFEÃO, além de componente, era colaborador do Dr. Marques Guimarães, como ensaiador do naipe dos baixos. (O Dr. Marques Guimarães, que regia o Orfeão, há-de merecer-me uma crónica).

O meu pai era um dos componentes do GRUPO CORAL SACRO, constituído pelos Dr. Abel Poças (ao órgão), o Zeca de Moldes, o Zé do Pico, o Amadeu Teles (Barão da Agulha), António Teles e Manuel de Oliveira (meu pai, a tocar flauta e a cantar). Pela Páscoa, este Grupo fazia as delícias dos fiéis na cerimónia das Endoenças de Quinta-Feira Santa.

No Domingo da Paixão, quando a Procissão parava a visitar os Passos armados em todas as igrejas e capelas, lá estava o Grupo a cantar o Miserere, acompanhado à flauta pelo meu pai. E noutras cerimónias religiosas em que havia cantoria o meu pai estava presente.

Marido exemplar, foi pai de quatro filhos — duas raparigas e dois rapazes — que criou com honra e dignidade. Restam dois: eu, com os meus 90 anos, e 40 de professor, e meu irmão Licínio, que seguiu a função pública nos serviços da Justiça e se aposentou no topo da carreira. Seja esta uma homenagem que prestamos a nosso Pai.

Que Deus o tenha junto de Si!

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