António Bica

Os EUA não desistem de castigar os iranianos por terem expulsado os americanos do seu país

■ Em Junho de 2019 dois navios petroleiros sofreram danos no golfo de Omã, à entrada do Golfo Pérsico. Os EUA apressaram-se a culpar disso o Irão

O Irão é antiga nação com mais de 2.500 anos designada Pérsia durante dezenas de séculos, que mantém a sua identidade política e cultural desde o século 7 antes da era cristã. Sofreu invasões diversas como a grega sob o comando de Alexandre Magno no início do século 4 antes da era cristã, a do califado islâmico no século 7, dos turcos no século 11, dos mongóis no século 13, e outras menos relevantes. Mas sempre os iranianos conservaram a sua identidade linguística e cultural. Depois da invasão islâmica adoptaram essa religião.

Sob o domínio do califado islâmico com sede em Bagdade, a partir do século 7 a Pérsia adoptou a dissidência designada xiita do islamismo sunita tradicional.

Até à adopção do xiismo a Pérsia foi governada por delegado – emir – representante do califa. Todo o mundo islâmico era então governado por autoridade única, designada califa, partir da grande cidade de Bagdade, concentrando numa só pessoa o poder político e o poder religioso. Os governadores na Pérsia, sendo designados pelo califa eram escolhidos entre persas, porque tinham que saber a língua e a cultura do país para o poder governar.

Quem exerce o poder por delegação sempre aspira a exercê-lo por direito próprio. Por isso os emires da Pérsia procuraram estimular a adopção do ramo xiita da religião islâmica nesse país. A razão por que promoveram a adopção do xiismo Pérsia foi a de assim deslegitimarem o poder do califa de Bagdade para nomear o governador da Pérsia. Segundo o xiismo o poder político e o poder religioso não podem ser exercidos pela mesma pessoa se não for descendente do profeta Maomé, o que é impossível por todos terem sido mortos em Carbala, no sul do Iraque, no século sétimo.  Assim os persas deixaram de considerar legítimo que o califa nomeasse emir para governar a Pérsia, concentrando o poder religioso e o político.

A partir da morte do profeta Maomé, porque o profeta só tinha como descendente uma filha de nome Fátima ainda sem filhos, os mais poderosos apoiantes do falecido Maomé decidiram escolher entre eles quem exercesse os poderes políticos e religiosos concentrados na pessoa do escolhido, que passou a ser designado califa. Assim foram sucessivamente designados califas Abu Bakr, Omar, Otoman e Ali.

No ano 661 da era cristã já tinha idade para governar o único neto do profeta Maomé, chamado Hussein, que era filho da única filha dele, Fátima.

A maioria dos islâmicos consideravam que a concentração do poder político e do religioso numa só pessoa não era legítimo senão no profeta Maomé, por ter sido escolhido por Deus para lhe transmitir os preceitos da nova religião reformadora da velha religião hebraica monoteísta trazida do Egipto havia então mais de 1500 anos.

Essa maioria entendia que, em consequência da morte do profeta Maomé, a solução política de outros terem assumido a sucessão do profeta Maomé, com concentração pessoal  de todos os poderes políticos e dos religiosos depois da sua morte, só tinha sido aceitável até o neto do profeta, Hussein, ter idade para governar. Tendo chegado a essa idade, devia ele assumir todo o poder político e todo o religioso, não sendo legítima essa concentração de poderes, senão em pessoa descendente de Maomé.

Governava então em Bagdade o califa Yazid, que se opôs firmemente à pretensão de Hussein e a reprimiu violentamente, massacrando o neto do profeta e os que o acompanhavam, em Carbala, no Sul do actual Iraque, no ano 680.

A partir desse massacre os islamitas que entendem que o poder político e religioso não pode ser concentrado numa só pessoa do sangue de Maomé, são designados xiitas, defendendo que só é legítima a concentração do poder político e do religioso numa só pessoa, se for descendente do profeta Maomé, o que é impossível por terem sido morto Hussein, único descendente do profeta, em Carbala, no sul do Iraque.

A Pérsia, actualmente designada Irão, porque segue o ramo islâmico xiita, respeita com rigor esse princípio, separando o poder político, que resultava da sucessão de pai para filho em regime monárquico, ou, no caso de o regime ser republicano, como o actual no Irão, resulta de eleições periódicas. Desde que o Xá fugiu em 1979 do país, o poder religioso, que sempre foi exercido pelo clero xiita, que elege entre eles o aiatola, equivalente, para os xiitas iranianos, ao Papa. O poder político na Pérsia é exercido pelos mais votados periodicamente para o parlamento e a presidência da república.

No século 19 os ingleses, que então dominavam a Índia, passaram a influenciar a Pérsia, que era governada por um rei designado Xá. O poder religioso era exercido, como continua a ser, por clérigos conhecedores da religião.

Desde 1941 foi Xá do Irão Reza Pahlavi, sendo o seu poder partilhado com assembleia eleita pelo povo. A forte influência política da Inglaterra, que então dominava a Índia, sobre o governo do Irão, levou o país a entregar-lhe a exploração dos grandes campos petrolíferos junto ao Golfo Pérsico em condições de quase todo o rendimento pertencer à Anglo-Persian Oil Company, da qual veio a resultar a BP, British Petroleum.

Em 1951 o advogado Mossadegh liderou, ganhando-a, a campanha eleitoral para a assembleia legislativa iraniana com programa de desenvolvimento económico do país assente em maior igualdade social, na generalização do ensino, na promoção dos direitos das mulheres e na reforma agrária. Para financiar essas reformas políticas propôs a nacionalização da indústria petrolífera dominada pela Inglaterra. Em consequência nesse mesmo ano de 1951 foi nacionalizada a indústria petrolífera do Irão.

A Inglaterra reagiu pedindo apoio aos EUA para derrubar o governo de Mossadeg.

Os EUA entenderam-se com a Inglaterra para o fazer. A CIA aconselhou o Xá Reza Pahlavi a fugir do país para a Itália com o pretexto de correr perigo de vida. Na sequência dessa fuga a CIA organizou os que se opunham às reformas políticas de Mossadegh, nomeadamente as chefias militares, o alto clero xiita e os donos da grande propriedade fundiária. Assaltaram em 19 de Agosto de 1953 a residência de Mossadegh, prendendo-o.

Trouxeram o Xá da Itália e fizeram-no a assumir o poder absoluto, garantindo a sua segurança na condição de a política da Pérsia passar a ser orientada pelos EUA. Assim o governo efectivo do Irão passou a ser exercido pelos numerosos diplomatas americanos da embaixada dos EUA em Teerão. O Xá limitava-se a exibir-se com a rainha Soraia em paradas e grandes banquetes como rei da Pérsia.

A repressão no país tornou-se feroz, a economia, que foi privada das receitas da indústria petrolífera, estagnou e a cultura popular de costumes conservadores passou a ser agredida pela indústria do cinema americano.

Nestas condições políticas, sociais e económicas cresceu entre o povo a vontade de pôr fim à ditadura do Xá e de expulsar do Irão os americanos que o manobravam. O alto clero iraniano, que tinha apoiado em 1953 os EUA nas acções lideradas pela CIA, tornou-se grande inimigo dos americanos. O então aiatola Komeini, perseguido pelo Xá por instigação americana, refugiou-se no Iraque, cuja população é maioritariamente xiita. Sadam Hussein, que passou a governar o Iraque sob tutela americana, foi pressionado a expulsar do país o aiatola Komeini, que se refugiou em Paris.

A crescente revolta popular desencadeou no país rebelião contra as políticas pró-americanas do Xá. A rebelião foi liderada pelo clero xiita encabeçado pelo aiatola Khomeini a partir do seu exílio em Paris, sendo apoiada pela Frente Nacional que havia sido criada por Mossadegh, pelo partido marxista Tudeh e pelas organizações políticas e militares fedayin e mujaedin.

Face à pressão popular o Xá fugiu do país em 1979, foi deposto o governo que governava seguindo as instruções que lhe eram dadas pela embaixada norte-americana, foi tomado o palácio do Xá e em Novembro um grupo de estudantes tomou a embaixada americana em Teerão, tendo detido em 4 de Novembro de 1979 os seus numerosos funcionários. Foram detidos todos os 66 os funcionários americanos da embaixada americana.

O presidente americano, Carter, que estava no fim do seu mandato e era candidato nas eleições, decretou  drásticas medidas de embargo de exportações para o  Irão e congelou os depósitos de dólares nos EUA no valor de  muitas centenas de milhões. Os aviões comerciais iranianos e os equipamentos americanos das fábricas do país deixaram de poder ser reparados

O então candidato Reagan a presidente dos EUA, em 1979, que concorria com o presidente Carter em fim de mandato, mandou a Teerão delegados seus negociar secretamente a libertação dos 66 funcionários detidos na embaixada americana em Teerão em troca do descongelamento dos depósitos em dólares e da venda de peças para reparar aviões e maquinaria, logo que fosse eleito. Reagan, com base nessa negociação, prometeu aos eleitores americanos libertar, logo que fosse eleito presidente, os 66 americanos reféns na embaixada. Com essa manobra secreta Reagan ganhou as eleições presidenciais, derrotando Carter, para o que a desastrada tentativa militar que ordenara para libertar os americanos detidos na embaixada, tendo para isso enviado aviões e helicópteros para o Irão.

Em Março de 1980 esses aviões e helicópteros aterraram a cerca de 500 kilómetros a Sudeste de Teerão. Mas  forte tempestade de areia levou à destruição das aeronaves e à morte dos militares envolvidos. Foi humilhante desastre militar.

Desde então os sucessivos governos dos EUA têm procurado vingar-se dessas derrotas e continuarão a procurar fazê-lo.

Para isso buscaram apoio em 3 aliados: a Arábia Saudita, Israel e o Iraque quando era governado por Sadam Hussein.

A Arábia Saudita apoia esse propósito dos EUA por razões religiosas, porque é o centro do islamismo sunita e por isso hostiliza o que é Irão é o centro do islamismo xiita. O Iraque só hostilizou o Irão quando foi governado por Sadam Hussein, que então governava o seu país em aliança com os EUA, tendo-se disposto a invadir o Irão para anexar a sua parte Sul junto ao Golfo Pérsico, onde se situam grandes reservas de petróleo.

O Irão, depois da revolução de 1979, tendo por isso sofrido a tentativa saudita de o isolar dos cerca de 1000 milhões de fiéis islâmicos sunitas, passou a apoiar sem reservas os palestinianos dominados pelos judeus israelitas, apesar de serem todos sunitas. O governo de Teerão assumiu firmemente esse apoio para quebrar a tentativa do seu isolamento pelos EUA junto dos países islâmicos de religião.

Assim os EUA ganharam 4 empenhados aliados contra o Irão em 1979: a Arábia Saudita, Israel e o Iraque então governado por Sadam Hussein.

Na sequência o Iraque governado por Saddam invadiu o Irão em 17 de Setembro de 1980, tendo-se prolongado as hostilidades até 20 de Agosto de 1988. Os EUA venderam ao Iraque para atacar o Irão forte armamento, incluindo armas químicas. O Irão defendeu-se com tenacidade e eficácia. A guerra causou cerca de 1 milhão de mortos sobretudo iranianos, milhão e meio de feridos e prejuízos de cerca de 150 biliões de euros.

A presidência Trump nos EUA, depois de 2016, procurou reforçar usar o empenho da Arábia Saudita e de Israel em atacar o Irão. Com esse objectivo e o de vender armamento fez negócio de com  a Arábia Saudita no valor de mais de cem mil milhões de euros e absteve-se de condenar o governo saudita por não respeitar as regras democráticas de governo, desrespeitar os direitos humanos, o princípio da igualdade entre homens e mulheres e recentemente ter atraído o jornalista saudita Kashoggi ao consulado saudita de Istambul e aí o ter assassinado, fazendo desaparecer o seu corpo. Em relação a Israel, os EUA continuam a fornecer-lhe gratuitamente o armamento militar mais sofisticado, tendo em 2018 decidido, com flagrante desrespeito do direito internacional, aceitar que Jerusalém passe a ser a capital de Israel contra o decidido pela ONU e apoiaram em 2019 a declaração unilateral de Israel de anexar os montes Golã como seu território.

O presidente Trump retirou os EUA dos acordos internacionais concluídos em 30 de Julho de 2015 entre o Irão, os EUA, Rússia, China, França, Alemanha e Inglaterra, delineando atacar o Irão durante o tempo que resta do seu mandato, provavelmente para levar a maioria dos americanos a votar nele nas próximas eleições presidenciais americanas, na última metade de 2020.

Para isso rompeu em 9 de Maio de 2018 o acordo diplomático multinacional destinado a manter o desenvolvimento da energia nuclear do Irão a um nível impeditivo de construir bombas nucleares. Esse acordo foi assinado pelos EUA, França, China, Rússia, Alemanha e Inglaterra em 13 de Novembro de 2013.

Em Junho de 2019 dois navios petroleiros sofreram danos no golfo de Omã, à entrada do Golfo Pérsico. Os EUA apressaram-se a culpar disso o Irão, o que o seu governo desmentiu. A União Europeia recusa aceitar a culpa do Irão. O mesmo fez o Japão, país a que pertence um dos petroleiros que sofreram danos.

Alguns observadores consideram haver forte probabilidade de os ataques aos petroleiros serem obra dos EUA, ou da Arábia Saudita, ou Israel, com conivência americana.

Trump, o presidente dos EUA, tem interesse em acção bélica contra o Irão para com isso influenciar a seu favor as eleições presidenciais do fim de 2020; a Arábia Saudita tem também interesse para acabar com o apoio do Irão às minorias xiitas habitantes no reino saudita, no Iémen, nos Emirados Árabes Unidos, em Omã e noutros países de maioria sunita; e Israel tem também interesse para o governo do Irão deixar de apoiar os palestinianos.

Em 20 de Junho de 2019 o Irão derrubou um drone dos EUA com fundamento em esse drone ter entrado no espaço aéreo iraniano. Os EUA afirmaram que o drone foi derrubado em espaço acima de águas internacionais do estreito de Ormuz. O Irão exibiu imagens dos destroços do drone derrubado caídos em terra do Irão como prova de que já tinha entrado em território iraniano.

Ou por o drone sobrevoar o espaço aéreo do Irão, quando foi derrubado, ou porque nova guerra no Médio Oriente na sequência da catastrófica guerra no Iraque em 2003 poder comprometer a reeleição de Trump no fim de 2020 para a presidência dos EUA, Trump recuou.

A situação mantém-se muito tensa. Trump até agora tem preferido agredir a economia dos países que quer submeter aos seus interesses a agir militarmente contra eles.  Porque ameaçou destruir a Coreia do Norte com fogo e fúria sem dispara uma arma, é de esperar que, com o Irão, Trump também não entre em guerra. Mas pode acontecer.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *