António Bica
AS MIL E UMA NOITES DE MUITOS CONTOS (14) - O Moço de Recados e as três Donzelas (continuação)

Na noite que se seguiu Xariar pediu que Xerazade continuasse. Começou ela:
Alguém bateu à porta. Uma das jovens foi ver e, regressando, anunciou: «Chegaram três estrangeiros cegos do olho esquerdo. Proponho que os deixemos entrar». As companheiras concordaram e recomendaram-lhe que intimasse cada um: «Não fales do que não te diz respeito para não ouvires o que não agradará». Correu à porta e voltou com os jovens zarolhos que tinham a cara barbeada, grandes bigodes retorcidos e pareciam ser peregrinos. Entrados desejaram paz. As jovens levantaram-se e convidaram-nos a sentar-se. Olharam à volta e viram o moço de recados que o vinho tornara alegre. Pensaram que também era peregrino e exclamaram: «Alegra-nos encontrar um companheiro». O moço de recados respondeu: «Aqui tudo correrá a contento. Mas olhai o que está escrito à entrada da porta». As jovens sorriram e disseram entre si: «Mais engraçado vai ser com os peregrinos». Ofereceram-lhes de comer e de beber. Enquanto a taça rodava e ia sendo cheia, o moço perguntou aos novos convivas: «Meus irmãos, sabeis tocar?» Os peregrinos estimulados por estas palavras e de coração alegre pelo que comiam e bebiam tiraram dos sacos um sistro, um alaúde e uma flauta e começaram a tocar, acompanhando-os as jovens com alegres canções.
De novo bateram à porta. O califa de Bagdade, Faro Alrachide, havia-se disfarçado e percorria a cidade, como frequentemente fazia, para ver o que de bom e mau houvesse e assim melhor o corrigir ou premiar. Ia acompanhado pelo vizir e pelo alferes-mor, ambos também disfarçados. Ao passar junto do palácio onde os jovens se divertiam, ouviram tocar e cantar. Disse o califa: «Que bem cantam e tocam. Entremos para os felicitar». O vizir objectou: «Senhor, seguramente são bêbedos que se divertem». O califa insistiu: «Quero ver quem é. Usa uma artimanha para que entremos sem que suspeitem quem somos». O vizir respondeu: «Escuto e obedeço». Bateu à porta. Uma das jovens veio ver. Disse-lhe: «Senhora, somos mercadores do Mar Índico. Uns dos desta terra convidaram-nos para casa. Comemos e bebemos e agora, por ser noite, perdemo-nos na imensa cidade. Pedimos-vos que nos deixeis pernoitar para que, sendo dia, possamos encontrar a hospedaria». À jovem pareceram respeitáveis. Foi pedir conselho às irmãs e as três decidiram alojar os que pareciam mercadores. Regressou e disse-lhes: «Entrai». As donzelas deram as boas vindas e declararam: «Sois convidados. Uma só condição pomos: Não faleis do que não vos diz respeito para não ouvirdes o que não agradará». Concordaram. Foram convidados a sentar-se, as taças circularam, enchendo-se e esvaziando-se, e as iguarias rodaram nos pratos de metal dourado. O califa olhou para os peregrinos e espantou-se intimamente por serem zarolhos. A beleza, a graça das jovens e o ambiente requintado surpreenderam-no.
Uma das donzelas dirigiu-se às outras: «Minhas irmãs, é preciso que cumpramos o nosso dever». Chamou o moço de recados: «Anda comigo, vem ajudar-me». No jardim estavam duas cadelas negras presas por correntes. Trouxeram uma para a sala onde estavam os convivas. Uma das jovens bateu na cadela com um pau. A cadela ganiu submissa, mas a jovem continuou a bater até a deixar maltratada. Pegou-lhe depois ao colo, afagou-a, beijou-a e entregou-a ao moço para que a levasse e trouxesse a outra, a que fez o mesmo. O califa sentiu o coração partir-se ao ver a crueldade com que cada cadela era batida e espantou-se por a seguir ser tão acarinhada e beijada, mas conteve-se a ver no que tudo ia dar. Uma das jovens voltou-se para as irmãs: «Façamos o que nos cumpre». Subiu para cima de um leito de branco mármore embutido nas margens de lápis lazuli e no centro de finos desenhos a ouro, esmeralda e safira e disse às irmãs: «Mostrai o que sabeis fazer». Uma trouxe um alaúde, subiu ao leito e começou:
«Quando o amor entrou em casa, / o sono fugiu pela janela. /O meu sangue pertence ao amado; /mais por ele quero derramá-lo / que o conservar nas minhas veias./ A sua imagem são meus pensamentos, /neles o vejo na ausência, / em tudo ele se reflecte; / em cada coisa está o seu vulto. / Todos me dizem que o amor é mágoa / e dor, lamento e ausência. / Bem sei e de mim quero arrancá-lo, / mas debaixo está da minha pele, / as raízes bem dentro deste peito / até onde as pernas nascem. / Tendo-o em mim, ele me tem».
Cantou o último verso com tanto sentimento sublinhado pelo alaúde, que o califa bateu palmas com entusiasmo.
Xerazade suspendeu a narração e, depois de pausa, disse: «Senhor, adivinha-se a aurora além das cúpulas de Bagdade. Se for da vossa vontade, amanhã continuarei». Xariar levantou-se e foi ao seu dever.
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