António Bica
AS MIL E UMA NOITES DE MUITOS CONTOS (13) - O Moço de Recados e as três Donzelas (continua)

Na noite seguinte choveu fortemente, os trovões soaram com violência e os relâmpagos rasgaram o céu, o que fez perder o sono a Xariar. Sentindo-o, Xerazade começou:
Em Bagdade, nas margens do rio Tigre, um moço solteiro vivia de recados. Passava os dias no mercado, esperando que o contratassem. Um dia chegou uma jovem mulher, velada por véu de seda pontuado a ouro, debruado a brocado. Era esbelta e perfeita. Desvelou os olhos negros sombreados de longas pestanas sobre pálpebras aveludadas e falou com voz macia: «Moço, pega na alcofa e segue-me». O carregador seguiu a jovem, que adiante comprou um arrátel de azeitonas, maçãs, marmelos, pêssegos, limões e cidras; à frente um ramo de anémonas rubras e flores de romãzeira; no açougue duas libras de carne; na tenda dos frutos secos cinco arráteis de miolo de amêndoa; no confeiteiro alfenim, pastéis perfumados, tortas de laranja e torrões de alicante; no perfumista água de rosas de Alexandria e de flor de laranjeira, incenso, âmbar e almíscar; no taberneiro quatro canadas de vinhos das melhores colheitas. O moço esforçava-se por seguir a jovem que, desembaraçada e lesta, corria os melhores estabelecimentos da cidade. Por fim chegaram a palácio em mármore rodeado de amplo jardim. Abriu os portões de pau preto com batentes de bronze uma jovem elegante de seios como romãs. O rosto lembrava a estrela da manhã e os olhos das gazelas. O moço, vergado ao peso da alcofa, exclamou: «Por Deus, este é um dia abençoado». Entraram em sala espaçosa, adornada de mobília elegante, onde uma jovem bela como o sol estava reclinada num leito. A sala dava para pátio interior, onde a água rumorejava, caindo de elegantes fontes de pedra trabalhada. O moço lembrou-se do poeta: «Quem diz que a tua cintura/ é como ramo flexível/ falta à verdade./ Ao teu corpo nada é comparável».
A jovem reclinada levantou-se e, com as irmãs, pôs sobre a ampla mesa o que fora comprado, deu duas moedas de prata ao moço e despediu-o.
Ele, porém, quedou-se. Uma das jovens interpelou-o: «Ficas pasmado? Não te chega a paga?» Protestou ele: «Pelo contrário, não costumo receber senão um quarto de moeda pelo trabalho. O que me pasma é viverdes sem homem. Como diz o poeta, para que haja boa harmonia são precisos quatro instrumentos: a arpa, o alaúde, a cítara e a flauta. Serei, se permitirdes, a flauta com prudência, sagacidade e discrição.» Acrescentou: «Tenho por lei as palavras do poeta:
O que verdadeiramente é homem/ não revela o que se passa/ entre ele e uma mulher./ O segredo é para ele/ como alta fortaleza/ cuja porta está selada/ e a chave foi perdida.»
As jovens conferenciaram entre si e a mais bela disse: «Este moço é discreto e de fina inteligência. Bem merece ficar ao nosso serviço.» Sentaram-se à mesa, onde as provisões haviam sido postas com elegância. Encheram as taças de vinho e beberam. O moço improvisou ao alaúde:
«Da chama do coração,/ de lágrimas de alegria,/ da cor do sangue generoso,/ do aroma de almas eleitas/ é feita esta bebida.»
E continuou:
«No vinho está a alegria./ É força e saúde de quem bebe,/ para o mal é remédio eficaz./ Beba da fonte de alegria/ aquele que a tristeza ensombra.»
A festa continuou por largo tempo e o vinho foi passando pelos copos. Morrera o dia e uma das jovens, depois de conferenciar com as outras, disse: « Esta noite ficarás connosco com a condição de te deixares governar por nós e de de nada pedires explicação.» Como ele concordou, disse mais: «Lê o que está escrito à entrada da porta.» Leu:
«Do que vires fala não terás/ para não ouvires o que desagradará.»
Xariar, vendo a noite fugir ao dia, pediu a Xerazade que continuasse na seguinte a história do moço de recados e das três donzelas e levantou-se para ir às suas funções.
Comentários recentes