Nazaré Oliveira – Coisas e Gente da minha Terra
O COLÉGIO DE SÃO TOMÁS DE AQUINO (parte II)

O meu primeiro ano no Colégio de São Tomás de Aquino foi o meu baptismo de fogo. Confiantes nos meus serviços, o Cónego Isidro e o Dr. Sales quase se limitavam às importantes tarefas de Direcção e actividades docentes e passaram para mim praticamente as restantes actividades. Como professor, para além da Geografia que já leccionara no ano anterior, passei também a leccionar Português dos dois primeiros anos.
A vida do Colégio decorria com toda a normalidade. A frequência aumentava e os resultados dos exames eram bons. Como é próprio da vida escolar, alguns episódios mais ou menos anedóticos. No mesmo ano em que entrei no Colégio, entrou o contínuo José Ferro, a substituir o Venâncio. O Zé era meio filósofo e tinha boas relações com os alunos, que gozavam com ele, puxando-lhe pela língua, para se divertirem com as suas tiradas filosóficas: um dia, alguém (creio que foi o Alcides) lembrou-se de ensiná-lo a falar inglês; ensinaram-lhe algumas frases, “Thank you”, “Very well”,”I’m an ass”. Só não lhe disseram o significado da última. Os alunos, gozadores, pediam-lhe que falasse inglês e o Zé, todo ufano, disparava: “Very well, I’m an ass”. Até que a D. Cidalina lhe disse que andavam a gozar com ele e a frase significava “Eu sou um burro”. O Zé não se deu por achado e, quando lhe pediram que falasse inglês, respondeu com ar de quem vira o feitiço contra o feiticeiro: “Você, I’m an ass”. Gargalhada geral! Mas de burro e que o Zé não tinha nada. Não aprendeu a falar inglês, mas aprendeu a falar francês. Emigrou e prosperou em terras de França. Quando voltou de férias, parecia um lorde.
Em 1956, operou-se uma importante transformação na vida do Colégio de São Tomás de Aquino, consequência da fundação do Colégio de Santo Agostinho, em Viseu, de certo modo, um “filho” do Colégio de São Tomás de Aquino. Foi nessa altura que apareceu o Dr. Gomes Silvestre, chegado de Salamanca, com uma licenciatura em Filosofia. Aproximou-se do Dr. Sales Loureiro e do Cónego Isidro. No Colégio não havia lugar para ele. Pensaram então na fundação de um colégio em Viseu, que seria dirigido pelo Dr. Silvestre. Assim chegou a ser anunciado. Além de um negócio promissor, resolveria o problema do Dr. Silvestre. Só que, nos contactos preliminares que com ele tiveram, o Cónego Isidro e o Dr. Sales aperceberam-se que o Dr. Silvestre, dotado de uma cultura filosófica superior, poderia vir a ser um bom professor, mas não tinha sentido prático e vocação para montar de dirigir um Colégio, tanto mais com internato e problemas práticos demasiados para um filósofo. E foi então que se voltaram para mim, “pião das nicas”, sempre pronto para desempenhar todas as tarefas, desde condutor da carrinha ou contabilista, a professor. Para surpresa minha, o Cónego Isidro e o Dr. Sales vieram propor-me a entrada para a sociedade do futuro colégio de Viseu, para dar apoio ao Dr. Silvestre. Matutei e, como sempre me regi pelo aforismo latino primum vivere, deinde philosophari, arrisquei. Contraí um empréstimo, com o meu pai por fiador. Nesse ano, tinha acabado o curso e casado.
Poucos dias depois, tudo se alterou. O Dr. Silvestre já não iria dirigir o novo Colégio. Ficaria em São Pedro do Sul, entrando para a sociedade de São Tomás de Aquino. Eu iria para Viseu, montar e gerir o Colégio de Santo Agostinho, com o Dr. Sales como director oficial, mas continuando em São Pedro do Sul, onde era Presidente da Câmara e desempenhava outros cargos. Deslocar-se-ia três vezes por semana a Viseu, para leccionar História.
E foi assim que eu, com a verdura dos meus vinte e sete anos, me vi à frente de uma barca complicada que rapidamente atingiu a frequência de 200 alunos, sendo 100 internos. Valeu-me a experiência adquirida na minha passagem por várias repartições e a tarimba de quatro anos no Colégio de São Tomás de Aquino. No internato, a preciosa ajuda de minha mulher. Ali nasceram e viveram os primeiros anos as minhas duas filhas. Perdoem-se-me estas referências pessoais.
Mas voltemos a São Pedro do Sul e ao Colégio de São Tomás de Aquino, cuja estrutura se alterou: saí eu ( de professor e não de sócio, que nunca fui) e entraram para a sociedade o Dr. Silvestre e a D. Cidalina. Outros professores por lá passaram depois, alguns com permanência demorada, como o Dr. Acácio Tomás e sua esposa Dr.ª Irondina e o Prof. Serra. Não trabalhei com eles, mas tivemos boa convivência.
Dezasseis anos mais tarde, voltei a passar episodicamente pelo Colégio de São Tomás de Aquino: em 1971 /72, quando estive a montar e dirigir a Escola Preparatória D. João Peculiar, criada nesse ano, pediram-me para dar no Colégio, em acumulação, meia dúzia de aulas semanais.
De resto, o Colégio de São Tomás de Aquino estava no seu último ano de funcionamento. Ao cabo de 23 anos, acabou em 1972. Não porque estivesse caduco, desactualizado ou ineficaz. Mas porque já não era necessário. Tinha cumprido — e bem — a sua missão. Felizmente, a difusão do ensino oficial trouxe a São Pedro do Sul a criação da Escola Preparatória D. João Peculiar, em 1971, e no ano seguinte, o ensino secundário. No edifício do Colégio passou a funcionar uma Secção do Liceu de Viseu, que depois passou a Escola Secundária autónoma. Com a construção de novas instalações para esta Escola, o velho edifício do Colégio, remodelado, abriu de novo as portas, como Residência para Estudantes. (Continua no próximo número)
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