António Bica

AS MIL E UMA NOITES DE MUITOS CONTOS (12) - História do Pescador (conclusão)

Noite ainda, sentindo que Xariar despertara, começou Xerazade:

O jovem sentado no leito, cujas pernas eram de branco mármore, disse: O meu pai foi rei desta cidade, senhor das Ilhas Negras e destas quatro montanhas. Reinou setenta anos e chegou ao fim dos dias. Com a morte passou para mim o reino. Casei com a filha do meu tio para reforçar os laços familiares e melhor assegurar a estabilidade do reino. Apesar da conveniência do casamento sempre a minha mulher mostrou por mim e também eu por ela grande afecto e respeito. Um dia, no palácio, estendi-me numa cadeira longa e, como estava calor, mandei a duas camareiras que, agitando leques, me aliviassem do calor. Enquanto me refrescava a leve brisa, adormeci por um instante, voltando logo a acordar. Tão bem estava que me mantive como que adormecido. Uma das camareiras, cuidando-me a dormir, comentou: «O nosso rei não merece a mulher que tem». Supuz que me censurava por alguma desatenção com a rainha. Respondeu a outra: «Que a maldição caia sobre mulheres como ela». Tive vontade de tomar a espada e de um golpe cortar a ambas a cabeça. Mas o destino quis que, em vez disso, continuasse a fingir que dormia. Voltou a primeira: «Bem descuidado é o nosso amo. Porque confia na rainha, deixa que passe cada noite com outro homem». Desculpou a segunda: «Como pode ele saber, se ela, com pretexto de cuidado pela saúde, lhe faz beber, todas as noites, quando se deitam, uma tisana que o faz dormir profundamente para correr a outra cama». E ambas concluíram: «Pior que a das serpentes é a manha das mulheres pérfidas».

Quando ouvi isto, decidi ser prudente e não agir sem me certificar. Nessa noite fingi que bebia a tisana que quotidianamente me trazia. Quando me cuidou adormecido, levantou-se, vestiu-se, perfumou-se, tomou uma espada e deixou o palácio. Sem que ninguém desse por isso, disfarçadamente a segui. Atravessou a cidade e, fora de portas, entrou numa alfurja, onde um homem enorme e de terrível aspecto a esperava. O que tinha que acontecer aconteceu. O mundo cobriu-se para mim de trevas. Sem mais reflectir, precipitei-me sobre ambos com a espada e dei um forte golpe no pescoço do homem com que me pareceu tê-lo morto. A rainha ergueu para mim as mãos quando ia descarregar outro golpe sobre ela e, a partir de então, não soube o que mais se passou. Acordei na minha cama, no palácio, como se nada tivesse acontecido. A rainha estava de pé, de cabelos cortados, vestida de luto e disse: «Senhor, acabei de saber que a minha mãe morreu de doença, o meu pai foi morto e o meu irmão esmagado pelo desmoronamento de um edifício. Por isso choro e estou de luto». Respondi: «É o teu dever». Durante um ano a rainha fechou-se nos seus aposentos sem querer ver ninguém. Decorrido o ano disse: «Grande continua a minha dor. Vou construir nos meus aposentos uma casa de luto para que nela chore a minha solidão». Construiu o monumento e, disfarçadamente, encerrou nele o homem a quem eu cortara o pescoço, que não havia morrido, mas ficara horrivelmente desfigurado, sem poder falar, com a cabeça tombada e presa por um bocado de carne.

Apesar da minha paciência, não me pareceu tal coisa tolerável. Entrei no que ela chamava a casa do luto e desembainhei a espada para a punir, como entendi que merecia, e acabar de matar o objecto da sua paixão. Quando viu o meu propósito, imediatamente fez um encanto e transformou as minhas pernas em branco mármore. Depois de assim me ter enfeitiçado, com medo de ser punida pelos meus súbtitos, fez do meu reino um lago cercado de altas montanhas onde os encerrou transformados em peixes. O rei que entrara no palácio encantado e procurava desvendar o mistério dos peixes virou-se para o jovem rei de pernas de branco mármore e perguntou: «Onde se encontra essa mulher?» Respondeu: «Na casa do luto onde continua a servir o degolado. O rei, que procurava desvendar o mistério dos peixes, deixou que chegasse a meia noite, que é a hora dos prodígios, e dirigiu-se à casa do luto. Carregou sobre o degolado, fê-lo largar a alma e atirou-o a funda cisterna sem préstimo. Depois disfarçou-se e deitou-se no lugar do degolado. Chegou a rainha feiticeira, pôs ao lado do que cuidava ser o degolado uma taça de vinho e lamentou-se: «Meu senhor, fala-me, quero ouvir a tua voz». Imitou a algaravia de um quase mudo e disse: «Só Deus é poderoso. Deves perdoar e libertar do feitiço o jovem rei». A rainha feiticeira, tão contente ficou com ouvir falar quem ela julgava ser o degolado, que respondeu: «Escuto e obedeço». Logo foi junto do jovem rei e restituiu as pernas de branco mármore à sua normal natureza. A rainha feiticeira voltou à casa do luto. O fingido degolado gemeu: «Bem fizeste. Restitui agora este reino ao que antes foi e os peixes à sua natureza de homens». Respondeu ela: «Os teus desejos são ordens». E correu a desfazer os seus maléficos encantos. Quando voltou, o falso degolado disse: «Chega-te a mim para que me ajudes a levantar». Quando se debruçou, o rei enterrou-lhe no peito a espada e fê-la largar a alma.

Ambos os reis juraram paz eterna entre os seus estados. Ao pescador foi dado o governo das Ilhas Negras.

Com a manhã, o dever chamou Xariar. Xerazade concluiu: «Assim foi punida a rainha feiticeira. Amanhã, se o meu senhor o permitir, saberemos da história do Moço de Recados e das três Donzelas.»

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