Crónicas do Olheirão por Mário Pereira

Serviços públicos ou negócios privados?

Por razões pessoais, que não interessam ao caso, tomei algum contacto com a situação dos centros de saúde, creches, jardins e infância e escolas básicas na cidade de Lisboa.

Pelo que tenho visto parece que, desde há dezenas de anos, se estar a trabalhar, intencionalmente, para criar uma rede de escolas e centros de saúde apenas para as pessoas  pobres, enquanto esses serviços para a classe média e os ricos são assegurados por privados.

Nós temos algumas razões de queixa dos serviços públicos, mas comparando com o que existe na cidade Lisboa vivemos noutro país.

Em Lisboa se tens um filho e precisas de colocá-lo numa creche tens de inscrevê-lo numa creche privada, por vezes, com um ano de antecedência, sendo que algumas delas chegam a cobrar dinheiro para assegurar a vaga.

Jardins de Infância públicos na cidade de Lisboa são coisa desconhecida e comparando as escolas primárias públicas com os Centros Escolares da nossa região, parece que recuamos ao século passado.

De certeza que não é por falta de dinheiro (basta imaginar o IMI que recebe) que a Câmara Municipal de Lisboa não investe na educação nem na saúde.

Muito provavelmente, nenhum vereador, nenhum membro da Assembleia Municipal, nenhum diretor de serviço tem os filhos num jardim de infância ou numa escola básica pública. Como eles não usam, para os pobres qualquer coisa serve.

Ouvi a descrição do Centro de Saúde de uma freguesia importante de Lisboa a funcionar num andar velho adaptado. Faria boa figura na Guiné Bissau, mas seria inaceitável em qualquer vila da província.

Enquanto isso, na área dessa freguesia existe um edifício moderníssimo, que terá custado à Câmara vários milhões de euros, onde funcionam os Serviços Médico Sociais da Câmara.

Os funcionários da Câmara têm o seu serviço todo moderno, por sua vez, os funcionários dos ministérios, incluindo o da saúde, têm a ADSE e, também, não vão aos centros de saúde. Acresce que os bancos e as grandes empresas oferecem seguros de saúde aos seus trabalhadores que assim podem ir aos hospitais e médicos privados.

A moral da história é que em Lisboa as pessoas com poder e influência não recorrem aos centros de saúde nem fazem ideia como funcionam. Se soubessem teriam vergonha.

Poderíamos dizer que com o mal dos outros podemos nós bem, mas não é bem assim, pois os negócios privados da saúde e da educação ainda não estão saciados e continuam a querer mais.

O perigo é que comece a ser considerado normal o que acontece em Lisboa e que o estado desinvista ainda mais dos serviços públicos, com o sério risco de que se reduza a oferta em áreas tão básicas como a saúde e a educação.

O problema é grave, porque se está a criar uma clara divisão social. A classe média e os ricos recorrem aos serviços privados e os pobres ficam entregues à miséria.

Note-se que a Câmara de Lisboa já teve como presidentes: Jorge Sampaio e António Costa em diversos momentos apoiados pelo PC e pelo Bloco de Esquerda. Até eles se têm deixado dominar pela estratégia, de longo prazo, dos negócios da saúde e da educação…

Há uma clara tendência para transformar a saúde e a educação em negócios na linha do que acontece nos Estados Unidos onde o serviço público de saúde e às escolas públicas são só para pobres, o resto são negócios privados. Até nas universidades públicas os alunos pagam o custo do ensino.

O resultado disso é que os Estados Unidos têm os cuidados de saúde mais caros do mundo, com uma qualidade muito inferior ao que temos em Portugal, um sistema de ensino público muito mau e uma geração de jovens com enormes dívidas contraídas para pagarem os estudos.

Ainda a propósito de serviços públicos, vi na televisão o deputado Hélder Amaral (eleito por Viseu) muito preocupado com o metro de Lisboa. Sobre os transportes das nossas aldeias nada disse…

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