Crónicas do Olheirão por Mário Pereira

Quem Somos nós?

Ao passar na Rotunda do Relógio em Lisboa vi um cartaz do partido Chega Basta, a dizer: “Agora os escravos somos nós. BASTA de trabalhar para os outros”.

Embora escrito por um partido, irrelevante, cujo líder André Ventura, tendo de escolher entre os seus comentários desportivos na CMTV e um debate televisivo com outros candidatos ao Parlamento Europeu, optou por ir discutir o último penalti, este cartaz merece alguma atenção, pois sintetiza o programa deste e de muitos outros partidos, que estão a nascer pelo mundo fora, cuja causa principal é ser contra os outros.

Talvez, por estratégia ou falta de espaço ou, então, por falta de coragem os autores do cartaz não dizem quem são os outros, deixando a resposta a cada leitor.

A ideologia que leva alguém a fazer um cartaz destes mostra até que ponto estamos a esquecer-se do que faz de nós humanos.

Nós, sendo seres vivos como os outros, temos como principal caraterística distintiva e específica o facto de termos consciência de quem somos, dos outros e do meio que nos rodeia.

Hoje é reconhecido que a construção da nossa identidade pessoal só é possível em interação com outros. Ninguém existiria sozinho.

A construção da nossa identidade enquanto seres humanos depende da capacidade para, de forma equilibrada, cooperarmos e nos opormos aos outros. Desde logo, a relação com os nossos pais, para ser equilibrada, tem de ter um certo nível de cooperação, mas também uma certa dose de oposição, especialmente marcada na adolescência. Quando este equilíbrio se rompe dá asneira.

Aliás, a dificuldade ou impossibilidade de estabelecer relações construtivas com os outros é uma deficiência das funções intelectuais a que se dá o nome de autismo e também muitas doenças mentais estão relacionadas com esta dificuldade.

A ideia de um partido se afirmar como sendo contra os outros, evitando especificar quem são eles é perigosa, porque comporta uma ameaça aos outros, que pode ser qualquer estranho, mas também porque mostra que estamos a criar uma sociedade que se esqueceu do que é a humanidade.

A definição de quem são os outros implica escolher também quem são os “nós”. Quem são os “nós” do Basta?

Parece-me que serão só os brancos ricos e da classe média. Poderíamos perguntar, de forma provocatória, se isso inclui os berardos e afins deste mundo?

A afirmação da recusa de trabalhar para os outros, como programa político, tem implícita a aceitação, em contrapartida, da recusa dos outros em trabalharem para nós.

Não me parece que isso seja muito boa ideia, nomeadamente, para as crianças, os jovens, os reformados, os idosos, as pessoas com doenças crónicas, etc…

Já basta e já chega de gente com ideias tão velhas e perigosas. Não é necessário que apareçam novos partidos que façam da perseguição aos outros o seu programa.

O cartaz mostra como é essencial que as escolas, em vez de valorizarem a competição e ensinar às crianças e aos jovens que o ideal é serem melhores que os outros, comecem a ensinar: que é bom que os outros façam coisa para nós; que é bom fazer coisas com os outros e que é bom fazer coisas para os outros.

A ideia de que uns são “nós” e uns são “outros” tem sido causa dos maiores crimes: os católicos, em tempos, mataram os “outros” que não que não acreditavam no seu Deus, os nazis mataram os “outros” impuros, o estalinismo e o maoismo mataram os “outros” que não eram alinhados e por mesma razão há grupos radicais islâmicos, e não só, que querem liquidar os “outros”.

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