Manuel Silva

As duas campanhas eleitorais

A extrema-direita poderá obter nos 28 países da UE, nas próximas eleições para o Parlamento Europeu, um quarto dos deputados, segundo algumas sondagens.

Na revista “Sábado”, de 16 de Maio, Pacheco Pereira, refere-se à participação nesta campanha eleitoral nos seguintes termos: “se tirarmos as comitivas partidárias, organizadas para disfarçar o vazio, os que sobram (apoiantes) não chegam aos dedos das mãos (…) Estas eleições não dizem nada a ninguém se forem, como é suposto ser, europeias. Na verdade, só há uma razão para votar nas eleições para o Parlamento Europeu: punir ou apoiar o governo. Se não houvesse essa razão então é que não estava lá ninguém”.

Aquela notícia e aquele comentário estão profundamente ligados. Os cidadãos, em Portugal e na generalidade dos países da União Europeia, estão desiludidos com a mesma e têm razões para isso.

Com a União Europeia chegou a moeda única, o euro, um brinde à Alemanha, como reconhece o primeiro-ministro António Costa, pois ficou com um valor idêntico ao do antigo marco alemão, enquanto todas as outras economias ficaram com uma nova moeda com um valor muito superior ao das antigas moedas nacionais. O euro passou a valer mais 200% que o nosso antigo escudo. Todos os países perderam competitividade em relação à Alemanha. Mais: a economia europeia passou a crescer menos que no tempo da velha CEE.

Os critérios de Maastrich: 3% de inflação, 3% de défice público e 60% de dívida pública, de tão apertados, só prejudicaram o crescimento económico na UE. Aquando da crise das chamadas dívidas soberanas, em 2008 e nos anos seguintes, a intenção inicial das instituições europeias era ligar pouco àqueles critérios e injectar dinheiro na economia para vencer a crise. No entanto, não foi isso que se verificou. Sabe o leitor porquê? Porque os bancos alemães estavam quase todos a falir. Passando a emprestar dinheiro aos países em dificuldades e à beira da bancarrota, como foi o caso de Portugal, com juros mais elevados do que pagavam pelos empréstimos contraídos junto do BCE, os alemães salvaram os seus bancos à custa do aumento do desemprego, da pobreza, da miséria e da proletarização, como diria Karl Marx, da classe média.

Sempre que se falava em reforma da legislação laboral, era para favorecer o patronato e retirar aos trabalhadores direitos pelos quais lutaram e morreram outros trabalhadores, especialmente operários, no século XIX.

A soberania dos parlamentos nacionais ficou submetida ao Parlamento Europeu. As chamadas regras europeias são impostas pelos burocratas de Bruxelas que ninguém elegeu às instituições democráticas de cada país. É caso para perguntar: para que servem as eleições nacionais?

Estes factores, todos ligados, estão na origem do avanço da “alt right” populista/nacionalista em vários países.

PS, PSD, CDS e os governos de que fizeram parte, incluindo o actual, concordaram com todos os tratados e acordos que levaram a este estado de coisas. Daí que falem de questões nacionais e esqueçam as europeias, escamoteando a sua responsabilidade na actual crise visível no velho continente e procurando transformar estas eleições na primeira volta das legislativas.

Enquanto os partidos “europeístas” fazem este tipo de campanha, a CDU, o BE e os partidos pequenos de esquerda e de direita levantam todas aquelas questões.

Se o leitor está contra as actuais políticas europeias e os partidos responsáveis pelas mesmas, não se abstenha. Poderá votar naqueles partidos.

Se concorda com tais políticas, ou estando contra as mesmas –  hoje, sair da União Europeia e do euro, com todos os defeitos apontados, seria catastrófico – quer julgar o governo actual, lembre-se que este atingiu um défice de apenas 0,5% do PIB à custa de um enorme aumento de impostos e das cativações de Centeno, que provocaram o caos actual nos serviços públicos, especialmente no sector da saúde. O investimento público durante a legislatura que está a terminar foi inferior ao do governo de Passos Coelho. Está aqui a explicação para a economia crescer menos do que devia. A austeridade continua. Quem vive com o salário mínimo ou pensões de reforma pequenas viu a sua vida melhorar, o que está certo, mas o resto da população, especialmente a classe média, continua a empobrecer.

O cabeça de lista pelo PS, Pedro Marques, enquanto ministro das infra-estruturas, é o responsável por se viajar em comboios velhos, que até motores deixam cair, bem como pela degradação dos demais transportes. Onde estão as suas obras dignas desse nome? Deixou projectos para 10 anos quanto a obras públicas. Se em tempo de “vacas gordas” o PS não aumentou o investimento, como irá fazê-lo quando as economias nacional e internacional esfriam? O PS, António Costa e Pedro Marques enganam os portugueses.

O cabeça de lista do PSD, Paulo Rangel, tem muito mais conhecimento da política europeia que o seu adversário socialista, com a sua experiência de 10 anos no P.E.. Embora a generalidade da comunicação social o ignore, Rui Rio aponta reformas necessárias na saúde ou na União Bancária, enquanto defende impostos mais baixos para atrair investimentos, aumentar a produção e a competitividade, a fim de criar emprego e melhorar a situação sócio-económica de todos os portugueses, especialmente os mais desfavorecidos.

Perante estas alternativas está a escolha entre a manutenção do status quo ou a reforma e a mudança rumo a um Portugal moderno.

PS: na anterior edição, no artigo alusivo aos 50 anos da morte do meu pai, nos últimos parágrafos escrevi duas vezes “avô paterno”. A expressão correcta é “avô materno”. Aliás, o meu avô paterno faleceu vários anos antes de eu nascer.

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