Crónicas do Olheirão por Mário Pereira

Carta aberta aos amigos psiquiatras

No passado dia 26 de abril a TVI passou uma reportagem sobre o Hospital Conde Ferreira no Porto, que é um hospital psiquiátrico gerido pela Misericórdia do Porto.

As imagens e depoimentos daquela reportagem mostram pessoas afetadas por um doença mental incapacitante a viverem em condições tão desumanas, que me sinto, profundamente, indignado e triste por isto ainda acontecer em Portugal em 2019.

No site do hospital diz-se, e passo a citar “Foi o primeiro hospital construído de raiz para a Psiquiatria em Portugal (1883), assumindo-se, desde logo, como um estabelecimento inovador”

O problema é que hoje ainda funciona segundo os padrões desse tempo.

Na reportagem havia imagens de pessoas idosas com escaras com tal aspeto, que se acontecessem num hospital público fariam cair o Carmo e a Trindade, mas também a ministra.

Ainda mais chocante foi ver centenas de pessoas que vivem vidas sem qualquer sentido.

Em 1883, quando o Conde Ferreira mandou construir este hospital, a medicina pouco podia fazer por pessoas com doença mental, por quem tinha lepra, tuberculose, uma infeção, cancro, pelas mulheres que morriam nos partos ou pelas crianças que morriam bebés.

A lógica de funcionamento do hospital continua a ser a mesma da sua fundação. Recolher pessoas que pela sua doença mental se tornam incómodas para a sua família ou para a sociedade.

Na reportagem pudemos ver pessoas cujos dias são ocupados a vaguear ou a fazerem coisas sem sentido e que anos e anos a fio dormem em camaratas, a que ali se chama enfermarias.

Isto seria aceitável em 1883, mas nesse tempo não se falava de direitos humanos.

Ao contrário do que dizia o administrador do hospital  andar sujo, ser descuidado e estragar as instalações ou sofrer crises de violência, que levam os médicos psiquiatras  a prescreverem, como tratamento três ou mais dias de castigo numa cela de isolamento, não são causadas  pela patologia mental, mas sim por condições de vida que privam as pessoas das relações e dos sentimentos humanos mais básicos.

Escrevo aos meus amigos psiquiatras e aos outros que não conheço, para que, por exemplo:

– Não aceitem chamar hospital a um lugar em que as pessoas residem, não por estarem doentes mas, por não terem o apoio de que precisam para viverem na comunidade.

–  Se indignem por haver psiquiatras que prescrevem como tratamento, formas de tortura usadas pela PIDE, como colocar pessoas em celas de isolamento.

–  Se indignem quando os hospitais em que trabalham, para resolverem os seus problemas, mandam pessoas para o Conde Ferreira e sítios, afins que ainda existem em Portugal.

– Se recusem a chamar cuidados psiquiátricos a estas situações.

Tenho visto na comunicação social e ouço, em conversas, muita indignação porque os hospitais não usaram um tratamento que a internet diz ser a última maravilha.

Imaginemos o que seria se hoje as maternidades funcionassem como em 1883.

Imaginemos o que aconteceria se um médico fizesse uma cirurgia com as técnicas de há 10 anos, para não dizer 136, atrás.

Imaginemos o que se diria se um hospital mandasse colocar uma prótese no joelho ou na anca igual à primeira que foi feita.

A psiquiatria evolui e hoje é possível, usando a medicação e as outras formas de reabilitação disponíveis, gastando menos dinheiro do que custa encarcerá-las, manter estas a viver na comunidade como cidadãos com direitos, com dignidade pessoal e capazes de contribuírem com os seus talentos para a sociedade.

Dizia o administrador que o Conde Ferreira acumulou 18 milhões de € da prejuízo. Este é mais um argumento para que o Conde Ferreira e organizações afins evoluam para o século XXI.

Caso não queiram ou não sejam capazes, é obrigação do estado utilizar esse dinheiro em serviços que de facto sigam os tratamentos e práticas reconhecidos pela comunidade científica internacional, alguns já com mais de 50 anos de eficácia comprovada.

Isto não é utopia, pois em Lafões há bons exemplos do que pode e deve ser feito.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *