António Bica
As Mil e Uma Noites de Muitos Contos - História do Pescador (conto 10)

Na noite seguinte continuou Xerazade:
Mal o pescador disse ao génio «se não tivesses querido fazer-me mal depois de te ter libertado, ter-te-ia deixado em liberdade», o génio exclamou: «Por Deus, não faças isso, se fui criminoso para contigo, sê tu caridoso, lembrando-te do preceito: “Paga com o bem a quem te faz mal, não fazendo comigo o que Huma fez a Ática”».
O pescador inquiriu: «Que se passou com eles?» Respondeu o génio: «Aqui fechado não te poderei contar essa espantosa história, mas, se me libertares, fá-lo-ei». Disse o pescador: «Não o farei, antes te atirarei ao mar para que aí permaneças para sempre, que, pelo que fizeste, aprendi que és de raça em que se não pode confiar». O génio voltou a implorar: «Prometo nunca mais te fazer mal. Solta-me para que te possa contar a história de Huma e Ática e te instruir num negócio que te tornará rico».
O pescador, curioso pela história e cobiçoso pelo negócio, depois de o ter feito jurar por Deus que cumpriria o prometido, soltou-o. Saiu do vaso sob a forma de fumo e pouco a pouco tornou-se enorme e terrível figura. Pegou no vaso e atirou-o longe ao mar. O pescador viu o erro em que caíra e, cheio de temor, falou-lhe: «Deus manda cumprir os juramentos feitos em seu nome. Prometeste que não me trairias. Se me traires, Deus castigar-te-á. Conserva-me para que Deus te conserve». O génio ordenou ao pescador que o seguisse, o que, sem alternativa, fez. Depois de longo tempo e de terem subido uma montanha, desceram a largo e solitário vale em cujo meio se estendia um lago. Aí o génio ordenou: «Lança a tua rede». O pescador viu muitos peixes brancos, vermelhos, azuis e amarelos e, maravilhado, lançou a rede e pescou quatro peixes, um de cada côr. O génio disse-lhe: «Leva esses peixes ao rei, que ele te tornará rico. Podes vir aqui todos os dias pescar, mas só uma vez em cada dia, e que Deus te conserve». Depois desapareceu. O pescador pôs os peixes numa vazilha de barro com água para que não morresssem e foi levá-los ao rei que, maravilhado com as cores, os mandou pelo vizir cozinhar à escrava que havia poucos dias lhe fora oferecida e ordenou que ao pescador fossem dadas 400 moedas de ouro. O vizir disse à escrava: «O rei manda que lhe cozinhes estes peixes». A escrava preparou-os e lançou-os na sertã. A parede abriu-se e entrou uma jovem cheia de graça. Cobria a cabeça com seda azul, das suas orelhas pendiam brincos de ouro e lapis-lazúli, nos pulsos e nos dedos luziam braceletes e anéis cravejados de esmeraldas e empunhava uma vara. Meteu-a na sertã e perguntou: «Peixes, mantereis a vossa promessa?» Ao ver isso a escrava desmaiou. A jovem repetiu a pergunta três vezes. Os peixes, do azeite fervente, ergueram as cabeças e responderam: «Sim, sim». Declamaram em conjunto: «Se voltares, voltaremos; se cumprires, cumpriremos; se tentares escapar, far-te-emos cumprir». A jovem voltou no fogo a sertã e saiu pela abertura na parede, que se fechou. Quando a escrava se reanimou, viu os peixes queimados e exclamou: «Pobres peixes, ei-los em debandada».
Voltou o vizir pelos peixes e a escrava contou o que sucedera. O vizir comentou: «Estranha é essa história». Mandou chamar o pescador e pediu que trouxesse 4 peixes iguais. O pescador assim fez. O vizir ordenou à escrava que fritasse os peixes na sua presença. Logo que os peixes foram postos na sertã, a parede abriu-se e surgiu a jovem, que meteu a vara na sertã e disse: «Peixes, mantereis a vossa promessa?» Os peixes responderam: «Sim, sim; se voltares, voltaremos; se cumprires, cumpriremos; se tentares escapar, far-te-emos cumprir».
A jovem voltou no fogo a sertã e saiu por onde entrara. Reflectiu o vizir: «Um caso tal não o posso ocultar ao rei». O rei ouviu maravilhado o que acontecera e quis ver o prodígio.
O raiar da aurora fazia adivinhar que a noite iria ceder ao dia. Xerazade disse: «Senhor, a oriente anuncia-se o amanhecer. Se permitires, continuarei amanhã a história do pescador e do génio».
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