Manuel Silva

Pai, que partiste há 50 anos

Querido pai, no próximo dia 12 de Maio passam 50 anos sobre a tua partida para a eternidade. A doença tinha tomado o teu organismo há mais de um ano. Recordo-me perfeitamente do teu sofrimento, vindo a falecer no Hospital de Celas, em Coimbra.

Enquanto lá estiveste internado, quase meio ano, a tua esposa e minha mãe, os teus sogros e meus avós nunca me deixaram visitar-te. Não queriam que eu, com apenas 9 anos, aluno da terceira classe, recordasse a tua imagem degradada pela esclorose em placas de que padecias. Senti muita pena de nunca mais te ver desde que tinhas abandonado a nossa casa.

Como me escondiam a verdade sobre o teu estado de saúde, sempre pensei que te curasses. Quando no dia 13 de Maio de 1969 (só tomámos conhecimento da triste notícia no dia seguinte ao do teu falecimento), o teu grande amigo, Sr. Manuel do Luizinho, como era conhecido, então quarteleiro da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de S. Pedro do Sul, se dirigiu à habitação dos meus avós e teus sogros, dizendo para a tua esposa e minha mãe: “ó minha senhora, era para dizer que o seu marido morreu em Coimbra. Telefonaram do Hospital para os bombeiros a comunicar.”, recebi um enorme choque na minha tenra idade. O meu pai tinha morrido! Ali acabava a esperança na tua recuperação. Como era enorme a tristeza que sentia quando via os outros meninos e meninas da minha geração acompanhados pelos seus pais!

O teu funeral veio directamente de Coimbra para o cemitério de S. Pedro do Sul. Muito implorei à restante família para que me deixassem acompanhar-te à tua última morada. Para enorme desgosto meu, não o autorizaram. Hoje, reconheço que não me permitirem visitar-te no Hospital de Celas nem participar no funeral foi a atitude mais correcta e inteligente relativamente a uma criança de apenas 9 anos. No entanto, ainda agora tenho imensa mágoa de não te dar o último adeus.

Soube que tiveste um enorme funeral, onde participaram pessoas de todos os estratos sociais, estando presentes os teus camaradas de trabalho na creosotagem da Estação dos C.F. de S. Pedro do Sul, o que provou o respeito e a amizade que havia por ti em S. Pedro do Sul e principalmente em Negrelos.

De ti, pai, só tenho boas recordações. Da educação que me deste, das nossas brincadeiras, especialmente quando jogávamos futebol, o que a minha mãe gostava pouco, pois, dizia, “rompia-se o calçado”. Os tempos eram difíceis. Recordo-me de uma vez, a minha avó Palmira dizer que das crianças de Negrelos não via nenhuma gostar tanto do pai como eu. Eu amava-te muito, querido pai, e continuo a amar a tua memória.

Também sonhavas com um futuro melhor para mim, dizendo “o meu filho não há-de ficar no óleo e na ferrugem como eu. Há-de estudar”. Infelizmente, não viste o teu sonho concretizado neste mundo, mas tenho fé e esperança que o tenhas visto onde estás. Com grande sacrifício da minha mãe e apoio dos meus avós Ramiro e Palmira, os meus segundos pais, consegui o que para mim pretendias.

Passado meio século (são muitos anos na vida de alguém), resta-me a fé de que um dia nos reencontraremos.

Querido pai, descansa em paz e recebe um abraço do teu filho que jamais te esquecerá.

P.S.: a terminar, quero destacar as atitudes de duas pessoas bem conhecidas em S. Pedro do Sul no ano de 1969, o Sr. Cónego Isidro dos Santos Faria, então pároco desta freguesia e o Sr. Prof. Alfredo Paulino, que vivia em Negrelos.

O primeiro, quando o meu avô paterno se lhe dirigiu para pagar o funeral, disse: “ó Ramiro, não tem nada a pagar, por um lado, por que sei que vão ficar numa situação difícil, por outro lado, pela consideração que o seu genro me merecia”. Digam agora que o Sr. Cónego Isidro só ligava aos ricos e não tinha preocupações sociais…

O Prof. Paulino, quando nos foi apresentar os pêsames, chamou o meu avô paterno discretamente e perguntou-lhe se estava com problemas de dinheiro, o que o meu avô agradeceu, mas disse que problemas de dinheiro não havia. Respondeu o prof. Paulino:” está aqui a carteira do Paulino para o que fôr preciso. Se tiver problemas, vem ter comigo e paga quando puder”.

Sr. Cónego Isidro e Sr. Prof. Paulino, descansem também em paz.

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