Na Memória e na Fé em horizonte pascal
• Texto de Agostinho da Silva

A Páscoa cristã será, no contexto do calendário litúrgico a festa mais importante, essencialmente para os crentes em Jesus Cristo. Tal importância já advém da Páscoa judaica, pois Ela fez nascer o feriado com maior relevo no judaísmo. É a Páscoa comemorativa na fuga dos judeus da escravidão no Egipto. Já o Velho Testamento faz referências á Páscoa como comemoração do poder e amor que Deus tem demonstrado para com o seu povo escolhido. Os 40 dias que lhe antecedem são o tempo litúrgico da Quaresma, que se inicia em 4.ª Feira de cinzas e termina no Domingo de Ramos. O tempo da Quaresma no conceito do Cristianismo, sempre foi um chamamento de cada um mergulhar, ou se quisermos fazer neste tempo uma viagem ao seu interior, talvez até no silêncio da oração que pode preparar, alegrar e rejuvenescer o seu espírito na Ressurreição de Cristo no Domingo de Páscoa.
E porque falamos em oração, vem-nos á memória algo no conceito de “rezar”, ato da orientação da oração. Porém o que aqui colocamos será mais no contexto da nossa tradição e cultura, que se foi perdendo, no tempo ,e que tinha também algum peso lúdico, embora tivesse até muito de pedagógico , ou seja inculcar nos jovens e nas crianças o hábito da oração; falamos do jogo da “reza”: ou seja quando para os jovens eram deitados pelos mais velhos e experientes, os “compadres” em 4.ª Feira de Cinzas, com uma lista colocada em local já do costume, em que era ajustado certo “prefácio”, que visava cada par( ex. “ó que dois para.. ”. Pode-se dizer-se que em Serrazes há uns oitenta anos ainda era a lista dos compadres afixada para consulta popular, na grande carvalha á porta da Loja de comércio que foi do T’ Alfredo do Barão, junto do Cruzeiro comemorativo da Restauração da Independência As crianças, essas sendo irrelevante o sexo, uma delas colocava á outra “queres andar á reza comigo? Aceite o pacto, este consistia em cada dia que passava, aquele que primeiro via o outro gritava-lhe: – Reza! Assim tinha-lhe desta forma tomado a reza e o outro devia rezar uma oração (esta seria a parte pedagógica do jogo). Havia regras: – A ação de lançar a “reza” tinha de se passar ao ar livre, porque debaixo da telha não valia. Em princípio mandava-se rezar uma vez ao dia, só em Sábado Santo – véspera do Domingo de Páscoa era de hora a hora. Porém nesse dia os mais incitados e o que em último havia deitado a reza ao seu par escondia-se para que não se desse o invés. A situação prática deste “jogo da reza” no tempo de Quaresma, era efetivamente um certo contentamento em deixar a comadre ou compadre a rezar, tendo aquele ou aquela que ficava com a reza de pagar um qualquer presente ao ganhador – geralmente uma guloseima no domingo de Páscoa – Festa da Ressurreição de Cristo.
Mas a Páscoa tem por sentido, essencialmente a fé de todos os cristãos – que é também algo consensual entre historiadores-, por acreditarem que Jesus Cristo, judeu, nascido na terra de Israel durante o reinado de Herodes, pregador inigualável, crucificado em Jerusalém, com trinta e três anos de idade, quando Pôncio Pilatos era Governador da Judeia, tendo ressuscitado dos mortos, sendo visto por alguns dos seus amigos e discípulos, com quem falou e esteve junto, tendo dado aos mais incrédulos a possibilidade de meter a mão no lado transpassado pela lança quando na cruz. Assim, o binómio Morte-Ressurreição, não é o final de um acontecimento, mas o seu centro a partir do qual tudo ganha sentido, com o nascer do Novo Testamento que narra a vida de Cristo filho de Deus, orientada para a Cruz, Ressurreição e Salvação da Humanidade. E se vimos e ouvimos algo sobre a palavra de Deus durante a Quaresma, ela é dirigida a cada um de nós, no concreto da nossa vida. Assim se virmos o livro do êxodo ele fala-nos do decálogo, ou seja, sobre os dez mandamentos que Deus dá ao Homem. Habitualmente, os dez mandamentos de Deus podem parecer uma interminável lista de proibições que suscitam em nós a rejeição instintiva. Mas pensando melhor os dez mandamentos são o G.P.S., que Deus dá, através de J. Cristo, para nos ligarmos a Ele. Os “nãos” de Deus – que estão bem presentes nos mandamentos (não matarás; não roubarás…), devem ser entendidos como sinal da correção fraterna e amorosa de Deus. E a entrega de Cristo, Cristo Crucificado é sinal evidente de dádiva e amor sem limites. Poderemos julgar que Deus teve um gesto de fraqueza e até de humilhação permitir o sacrifício abominável de Cristo na Cruz, mas Cristo crucificado é o sinal de excelência, do amor de Deus por nós e com o Seu poder na Ressurreição do Seu Filho Jesus Cristo .Ele diz-nos que também nós pela libertação do pecado e o cumprimento dos mandamentos podemos entrar nessa Ressurreição, pois Cristo é o Caminho, a Verdade e a Vida que nos leva ao Pai. Para o fiel de Cristo no Domingo da Alegria (IV da Quaresma) a alegria do Evangelho é considerar que a morte não tem a última palavra e que a inimizade foi destruída, devendo nós viver a Paixão a cada instante e testemunhar a Ressurreição de Cristo, já que esta é a Aliança definitiva entre Deus e os homens.
Boa Páscoa! Santa Páscoa no convívio das famílias, beijando a Cruz do Senhor e cantando o Aleluia do Compasso ou Visita Pascal, como ainda é salutar nas Terras de Lafões.
Procurais Jesus de Nazaré? Já não está aqui! Ressuscitou!
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