EDITORIAL 760
25 de Abril é participação popular

Passaram 45 anos depois da madrugada do 25 de Abril, quando a Grândola Vila Morena pela voz do Zeca Afonso anunciou a Revolução que havia de por fim à ditadura fascista que oprimia e reprimia o povo deste país e à guerra colonial.
Muitas pessoas se interrogam hoje sobre o que falhou para não termos ido mais longe no caminho do combate a todas as desigualdades e a todas as injustiças.
É difícil responder, sabemos apenas que as expectativas eram muitas, queríamos transformar o país e acreditávamos que estava ao nosso alcance.
Liberdade, Democracia, Serviço Nacional de Saúde e Ensino Público gratuito e de acesso universal foram as principais marcas que haviam de proporcionar crescimento e melhoria do bem estar a uma boa parte da população. O país fez uma Constituição das mais avançadas do mundo, a Constituição de 1976, onde ficaram consagrados direitos que ainda hoje nos protegem e foi traçado o rumo para o Socialismo que significa menos desigualdades, um país mais justo.
Foi tempo de festa, como cantou Chico Buarque do outro lado do mar.
Na entrevista que a Gazeta da Beira publica nesta edição, Mário Tomé, um dos principais Capitães de Abril, à pergunta sobre o que deveria ter sido diferente, respondeu sem hesitar: «Na história não há “ses”. Tudo o que fiz não foi a contragosto, na altura achei que fiz bem e isso basta-me. Havia muita fragilidade na capacidade de analise da situação, de perspetiva de futuro. Por seu lado, o movimento social teve sempre uma debilidade que era o “chapéu de chuva” do MFA.»
Mais adiante, a propósito da intervenção do MFA, Mário Tomé afirma que “a acompanhar a ação cultural ia sempre uma máquina de transformação do território, levou-se a eletricidade, abriram-se estradas e caminhos, asfaltaram-se estradas, transformou-se de facto o território.” Pois nestas terras de Lafões estas marcas ainda hoje são visíveis.
Há vários exemplos de intervenção do MFA na região, uma delas passou-se justamente em Paços de Vilharigues. O povo da aldeia estava a abrir um estradão florestal, essencial para a passagem dos tratores que começavam a chegar à terra, que até aí, só havia carros de bois e para esses os antigos caminhos serviam. Todos colaboravam e contribuíam, mas um proprietário, avesso ao desenvolvimento, não permitiu que o caminho passasse nos seus terrenos. O estradão estava todo aberto, entre a Penoita e Paços de Vilharigues, mas ali chegado ficou barrado.
Com o 25 de Abril o povo ganhou determinação. A obra que era vontade da aldeia tinha de ser acabada. Com o apoio do MFA, o povo juntou-se de novo e, a braços, rasgou o que faltava da estrada. Os tratores já podiam passar, toda a comunidade era beneficiada. Foi uma festa na aldeia, com direito a comida e baile. O espírito do 25 de Abril foi cumprido.
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