António Bica

As Mil e Uma Noites de muitos contos - A história do rei Sindebade (conto 9) - História do Pescador (continuação)

Ainda a madrugada não se anunciava, começou Xerazade a história do vizir que enganou o filho do rei:

Contou o vizir invejoso:

Um rei tinha um único filho que gostava de caçar e, por ser jovem e imprudente, mandou ao vizir que o acompanhasse quando fosse caçar. Um dia o príncipe foi à caça acompanhado do vizir. Depois de muito an­dar viram enorme e horrível fera. O vizir, na esperança de que o príncipe morresse e de suceder no reino, disse: «Não a deixes escapar». O príncipe lançou-se impetuosamente na perseguição do animal até que entrou num deserto. Olhou à volta, mas perdeu a memória do caminho que trouxera. Vagueou sem rumo e encontrou uma jovem junto a grande pedra a quem perguntou quem era. Respondeu: «Sou filha do rei da índia. Enquanto seguia pelo deserto em caravana, afastei-me dela e perdi-me». O príncipe fê-la montar na garupa do cavalo e seguiram. Adiante disse a jovem: «Deixa que desça pois tenho que ir atrás daquela pedra». Como se demorava, foi ver o que sucedera. Ouviu a enorme fera que perseguira dizer aos filhos: «Trouxe-vos um príncipe para comerdes». Encheu-se de pavor e recuou, certo de que iria acabar nas garras dos monstros. A jovem reapareceu na figura em que o deixara e, vendo-o pálido e a tremer, perguntou: «De que tens medo? Não me disseste que és filho de rei? Se tremes de algum inimi­go e não o podes vencer, deverás pagar-lhe para que te não ameace». Res­pondeu o príncipe: «Temo não o aplacar com dinheiro, que certamente quer a minha alma». Respondeu: «Se assim é, porque não lha entregas e salvas o corpo?» O príncipe, vendo-se na iminência da morte, olhou pa­ra o alto e exclamou: « Meu Deus, baixa os olhos sobre o angustiado e livra-o do perigo». A jovem, ao ouvir a invocação de Deus, esfumou-se no ar.

Recuperou o príncipe a memória do caminho que fizera, regressou sal­vo ao palácio e contou o que se passara. O rei percebeu que o vizir dera um conselho pérfido ao príncipe e mandou-o matar.

Senhor, disse o vizir invejoso, tal como o vizir que enganou o filho do rei, também o médico te quer enganar. Considera-lo teu amigo e enches-te-o de bens, mas ele prepara a tua morte. Pelo seu poder maléfico fingiu que te livrou da doença para confiares e melhor te perder.

O rei Junão começou a recear que o vizir tivesse razão. Pensou: «Bem pode ser assim e que agora me dê a cheirar coisa que me tire a vida». Pediu ao vizir conselho: «Que hei-de fazer?» Aconselhou: «Chama-o e manda sem demora matá-lo. Assim evitarás que traiçoeiramente te faça mal». O rei assim fez. O médico, confiante, entrou no palácio ignorante do seu próximo fim, sem se lembrar das palavras do poeta:

«Não temas os golpes do destino incerto./ Viva o teu coração despreo­cupado,/ que só Deus sabe o amanhã./ A preocupação não acrescenta um dia aos teus dias,/ e faz-te viver amargurado./ Vive sereno, enquanto vi­ves,/ que certa é a morte».

Quando o médico Ruianes chegou, disse o rei: «Sabes porque te cha­mei?» Respondeu: «Senhor, só Deus conhece o oculto». Continuou o rei: «Chamei-te para que morras». O médico exclamou, surpreendido: «Não há culpa em mim que faça merecer tal destino». Disse o rei: «Estou infor­mado de que vieste para me matar e por isso quero que morras antes que possas fazer-me mal». Ordenou ao carrasco: «Mata esse traidor». O médi­co, antes do golpe, disse: «Não me mates para que Deus te não faça pagar com a vida a injustiça». O rei respondeu: «Não posso deixar de te matar. Se me salvaste tão facilmente, do mesmo modo podes fazer que morra». Disse o médico: «É essa a recompensa por te ter curado?» Recitou então os versos do poeta:

«O conselho do prudente foi desprezado./ Que a sua morte seja exem­plo/ para os que bem aconselham/ os que mal mandam».

E acrescentou: «Tratas-me como o crocodilo». O rei, que não gostava de perder uma história, perguntou: «Que história é essa». Disse o médico: «Senhor, como queres que a conte com o machado do carrasco sobre a minha cabeça? Manda embora o carrasco e contá-la-ei». «De nenhum modo» disse o rei, «se te deixar viver, a tua perfídia há-de me matar». Insistiu o médico: «Se a minha morte te é tão necessária, deixa que vá a minha casa para dar destino aos meus livros, para que se não percam, e em especial àquele por onde aprendi a cura para a tua doença, que ensina muitas maravilhas. Por ele até poderás fazer falar a minha cabeça depois de cortada». O rei encheu-se de espanto: «Como é possível isso?» O médico confirmou: «Assim é». O rei, curioso, deixou que fosse a casa. No dia seguinte voltou o médico ao palácio com um velho livro e uma caixinha. Sentou-se e pediu uma bandeja. Espalhou nela o pó que trazia na caixinha e disse: «Ó rei, toma este livro. Depois de cortada a minha cabeça põe-na nesta bandeja com o golpe contra o pó para que não perca o sangue e possa falar. Então abrirás o livro, desfolharás uma a uma sete folhas e encontrarás as palavras que farão falar a minha cabeça». O rei impaciente disse: «Porque hei-de esperar que morras, quero já ver essas misteriosas palavras». E começou a desfolhar o livro, levando repetidamente o dedo à boca para separar as folhas que estavam pegadas. Antes de chegar à séti­ma folha, o veneno espalhado nas folhas pelo médico pôs o rei em convul­sões violentas. Lembrou-se então Ruianes das palavras do poeta:

«Os juízes puseram-se a julgar:/ a sua mão pesou sobre os fracos/ e foi leve com os poderosos./ Agora, que os tempos mudaram,/ lamentam-se da injustiça,/ já esquecidos/ de como julgaram».

Mal o médico acabou de citar o poeta o rei morreu.

Continuou Xerazade:

Com estas histórias o pescador ensinou ao génio, de novo preso na jar­ra, que não é prudente ser-se arrogante e injusto e advertiu-o: «Se não ti­vesses querido fazer-me mal depois de te ter libertado, ter-te-ia deixado em liberdade».

Calou-se Xerazade e o rei, como de costume, foi para a audiência.

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