António Gouveia

Páscoa, tempo de Morte e Ressurreição

O acidente ocorrido na Madeira pouco impacto teve. A ilha fica longe, não tão longe que nos deixe impávidos, 29 vítimas mortais é uma desumanidade que dá que pensar, faz falta, pensar para poder perceber. Pergunta inevitável: como é que isto aconteceu? Como pode um autocarro de grandes dimensões circular em estrada estreita, sem guardas laterais, em terreno e orografia tão alcantilados? Claro, “prognósticos” no final, são fáceis. Mas raciocinemos mais uma vez e reformulemos a pergunta: onde estão as entidades reguladoras deste país que deveriam, encargo e obrigação, atuar e prevenir estas catástrofes, proibindo a circulação de autocarros assim em estradas sem condições? Não estão, aquecem as cadeiras dos  gabinetes, não saem, não pensam nem conhecem o Portugal que somos e do que precisamos, a razão por que ali se sentam. É (foi) assim no Banco de Portugal nos casos inenarráveis de roubos e corrupção que arrastaram nomes sonantes pela lama, com indesmentível razão e que ninguém vê condenados – ai, esta justiça que temos e funciona devagar! O famoso banqueiro Madoff apodrece nas prisões americanas desde 2008, logo responsabilizado pelas vigarices. Na autoridade da concorrência, recordo os muitos milhões gastos em placas de sinalização do preço de combustíveis nas muitas autoestradas. Para quê, se preços iguais e cartelizados sem efeitos positivos para o consumidor e os preços a subir, o estado a faturar impostos nas subidas da matéria prima, outra vergonha nacional? Ou esta outra, a de nunca, na administração pública ou governos, ninguém ter olhado as condições de vida dos camionistas de transportes de matérias perigosas (químicos e combustíveis, outra vez), muito difíceis e mal pagas, tamanha a sua falta de sorte e o desânimo que quase paralisaram o país. Ou a vergonha do SIRESP, centenas de milhões gastos num sistema de controlo que não funciona e ninguém consegue resolver. Lá para o verão, mais uma vez – oxalá que não! – irá desiludir os arrojados combatentes dos incêndios, é a inoperância total. E a falta de mão de obra, ninguém, desde a tragédia de 2011, reparou que os nossos melhores trabalhadores e artistas fugiram em busca de melhores condições de vida,  nada se fez para inverter esta situação aflitiva e já nessa altura, antevi aqui neste jornal o que poderia vir a acontecer. Cá está, nem sequer sou adivinho, só imaginei entes do tempo. Como nada se fez para, com a diminuição do IVA na restauração, pudessem os trabalhadores receber um pouco mais quando se sabe que o que acontece na hotelaria e na restauração, apesar do afluxo do turismo, em horas laborais é uma selva. Não é em todos, é um facto, há restaurantes sem mãos a medir, faturam muito bem e, já mais desanuviados dos prejuízos, compensam devidamente os empregados.

Leio no Expresso e concordo com Clara Ferreira Alves: “navegamos a burocracia, a opacidade e a lentidão do Estado português”. Ninguém se responsabiliza, ninguém toma medidas, ninguém pensa o futuro, navegamos à vista da costa, temos receio de arriscar, as eleições assim o impõem. Estamos num mar revolto, continuam a vender-nos ilusões e desculpas esfarrapadas. CFA fala ainda dos “gauleses sitiados”, dos mais desanimados e angustiados de nós, os que pensam, no exemplo do Império romano r descrição de Tito Lívio da guerra da Gália. É um facto histórico, o problema é que agora já não é Roma que nos invade, a Itália também está com problemas e graves, é toda a Europa na brutal e egoísta burocracia de Bruxelas que a todos aflige, o modus vivendi que aqui se espelha. Cantam-se loas ao sucesso dos défices de Centeno, nem o percebem, faz o que pode nas cativações, no intuito de contornar o despesismo socialista, pecha genética inelutável do seu ADN, a dívida pública poderosa de que poucos falam, estamos, mais uma vez, por um fio. O caldo ferve na panela sem água. O crescimento da economia mundial e europeia definha, a Alemanha vive momentos de sobressalto, a poderosa Merkel vai sair –  é mau para a Europa! -, e, atrás dela, também o Reino (pouco) Unido quer dar o fora. Estamos nas férias da Páscoa, o tempo da morte do salvador. Que é  ou deve ser, de ressurreição, um paradoxo. Por isso, caro leitor, neste sábado santo em que escrevo mais esta crónica, desejo muito Boa Páscoa, bem precisamos todos de ressuscitar para poder repensar o futuro.

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