Crónicas do Olheirão por Mário Pereira

Incoerências

A coerência  não é um dos maiores atributos dos seres humanos em geral, como mostram  várias notícias e apontamentos surgidos na comunicação social nas últimas semanas.

Os nossos defensores do capitalismo são muito coerentes enquanto o estado paga rendas lucrativas. Nunca se queixam dos contratos com o estado se os negócios são lucrativos, mas se os negócios correm mal aí temos títulos na imprensa, como este do Expresso “Serviço público – prejuízos privados”

Este título vinha a propósito do prejuízo que a Brisa teve com uma das concessões de autoestradas, em que o tráfego está muito longe de ser o que foi previsto.

Em vez de analisar os pressupostos do negócio que fizeram com que corresse mal, o jornal, com este título, prefere deixar a insinuação de que os privados estariam a financiar um serviço público.

Seguramente, vamos ser nós a pagar boa parte destes prejuízos, pois eles vão sobrar para os bancos que, à conta destes prejuízos, vão deixar de pagar impostos ou, pior, vão pedir apoio ao estado.

Os  CTT fizeram uma campanha na comunicação social para venderem a ideia de que estão a fazer um grande esforço para reduzir os custos e que por isso têm de fechar algumas estações e balcões.

É curioso que esse esforço passe apenas pelo fecho das estações e pela redução dos serviços, pois sendo os CTT umas das empresas em que os membros da administração ganham mais de 50 vezes o salário médio dos trabalhadores dos balcões, se reduzissem para metade os salários dos administradores, que, ainda assim, continuariam a ser ofensivos, isso, seguramente, geraria uma poupança igual à conseguida com despedimento de 200 trabalhadores.

Se, também, reduzissem, um pouco, os dividendos pagos aos acionistas, então sim, poderiam vir para a comunicação social fazer a devida divulgação destas medidas de redução de custos com sentido de responsabilidade social.

Manuela Ferreira Leite escrevia há dias num dos seus escritos que “que não tenho de pagar as propinas de quem ganha mais do que eu”. O problema é que este era o destaque de um artigo em que ela defendia que as propinas devem aumentar, também, para os pobres.

Quando da greve dos enfermeiros, e de outras no setor público, a presidente do CDS fez questão, em vários momentos, de exibir a sua solidariedade e apoio aos grevistas.

Agora face à greve dos camionistas dos produtos perigosos ela veio muito lesta exigir ao governo que terminasse com a greve.

Para quem defende a redução do estado na economia não está nada mal fazer a exigência ao governo de que acabe com uma greve  no setor privado, que em teoria é uma questão entre um sindicato e uma associação patronal.

Do ponto de vista da líder do CDS o governo tinha de resolver esta greve, porque isso criava prejuízos à economia.

Já, nas greves dos enfermeiros e outras no setor público interessava-lhe criar o máximo de problemas ao governo e aos serviços públicos e convinha alimentar os problemas. A ideia é que criando problemas nos serviços públicos da saúde e da educação se alargam as oportunidades de negócio para os privados nesses  setores.

Por falar em coerência, não consigo deixar de me perguntar porque razão os enfermeiros não estendem os seus protestos ao setor privado.

Será que os salários são mais altos no setor privado do que no setor público?

A ser assim, os enfermeiros nos hospitais públicos devem ganhar mesmo muito mal, pois, ainda recentemente, o pai de uma jovem enfermeira me dizia que ela, a trabalhar no setor privado em situações de absoluta precariedade, não conseguia receber 5 euros por hora de trabalho.

A incoerência começa a ser apreciada pela nossa sociedade como mostra o caso de Trump. Dizer agora o que nos lembra, sem pensar no que dissemos antes, ou defender uma coisa agora e outra mais logo, se isso der jeito, começa a ser normal.

Mário Pereira                Abril 2018

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