António Gouveia
As famílias e a falta de mão-de-obra

O familygate está na ordem do dia, chamam-lhe nepotismo e endogamia. Nomes feios. Mas o nepotismo sempre existiu, só não atingiu a dimensão hoje conhecida, arrasadora, fechamento político-partidário numa exclusão inadmissível, muito à moda das famílias mafiosas do sul de Itália ou, se para ser mais brando, das famílias maçónicas e outras seitas religiosas secretas, irmãos mancomunados na distribuição de lugares, favores e prebendas, um círculo fechado a aderentes recomendados em escrutínio ideológico, abuso político-social, entenda-se. É verdade que até Salazar não escapou a esta tendência escrutinadora. Mas não foi tão longe e, se o regime fechava os olhos, suposto era, sempre, ser o escolhido de confiança política, mas também competente, outra exigência que o salazarismo impunha. E nem sequer era exclusivo ou discriminatório, era democrático em ditadura, tanto podia entrar no círculo o filho do agricultor como o filho de família abastada. Não podia ser comunista, outra exigência. Mas, apesar da exceção confirmada e assinada em papel de 25 linhas, nunca foi tão longe no nepotismo. Quando tomou posse e quis formar gabinete, Salazar também se socorreu de um familiar indireto, nomeou ministro João Pais de Sousa, seu colega na universidade e irmão do cunhado Abel. De resto, num tempo, anos 30, em que o campo de recrutamento era manifestamente apertado, tempos de revoltas, investidas revolucionárias e atentados carbonários, republicanos contra monárquicos, Salazar não foi tão longe e ainda foi – que remédio, a matéria prima, como hoje, não abundava -, buscar para os gabinetes do poder outros colegas e amigos e alunos brilhantes da universidade de Coimbra, também antigos colegas do seminário de Viseu.
Deve dizer-se, em abono da verdade – e isso só pode ser dito por quem conhece bem a administração pública -, sem que tal possa desculpar este governo PS ou outro, é hoje cada vez mais difícil recrutar cidadãos competentes e disponíveis para integrar a administração pública e política, ou seja, como já aqui referi, encontrar funcionários públicos e políticos de qualidade. Não há muito onde ir procurar, o serviço à causa pública não atrai os melhores, capturados pelas empresas privadas onde a avaliação do mérito é mais liberal e assertiva, as remunerações mais atrativas, coisa que não acontece na política, sobretudo no funcionalismo público. Também já aqui o referi, o Estado não pode pagar mais, apesar das greves porque tem excesso de pessoal e o orçamento não estica, Centeno, qual Anita, não pode ir às compras. Contas feitas, a massa salarial assim desperdiçada chegaria para premiar os mais competentes e disponíveis. Que os há ainda, trabalham por amor à camisola, uma forma de ética política ou comportamento individual insuspeitável, são estes “carregadores de piano” que ainda conseguem que o nível de serviço na administração pública não baixe mais do que tem baixado.
Depois, não é só a administração pública, os partidos, fechados em si, nunca como hoje os vimos tão amorfos no trabalho de recrutamento de militantes e sua formação, as universidades de verão são triste remedeio e marketing publicitário. Deserto partidário insustentável, tal como a sustentabilidade das suas contas, salva-se o PCP, sabe o que quer e é disciplinado, também financeiramente. O espelho do país que somos, afinal. Mas não é só nos partidos, o melhor da juventude, artesãos e técnicos de todo o tipo de profissões emigrou, Portugal ficou sem gente, por isso o desemprego atinge um índice tão baixo, não é mérito deste governo, simplesmente há mão de obra insuficiente para as necessidades mas continua a exploração na restauração, apesar da baixa do IVA, o Governo assobia para o ar, entende que a imigração resolverá o problema, uma troca de serviços internacional e intergeracional. Logo veremos qual o futuro. A minha intuição inata substituta da minha inteligência normalíssima sopra-me a mente, não iremos ser felizes. Mais uma vez. E é pena, merecíamos, nunca pagámos tantos impostos!
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