Nazaré Oliveira – Coisas e Gente da minha terra
O Amolador

Compor louça e guarda-sóls amolar tesouras e navalhas!
Era o pregão que de quando em quando se ouvia. Era precedido de algumas gaitadas anunciadoras, emitidas por uma gaita constituída por oito pífaros ligados que o homem deslizava pelos lábios, nos dois sentidos, em sopradelas sucessivas. Como os pífaros tinham diferentes comprimentos, cada um emitia um som diferente e o conjunto lançava no ar uma melodia perfeitamente identificadora. E lá vinha o homem que amolava tesouras e navalhas, compunha louça e guarda-sóis. O pregão chamava sempre guarda-sóis e não guarda-chuvas ao cogumelo que nos abriga e muda de nome, consoante o boletim meteorológico.
A “oficina” ambulante era constituída por uma geringonça de madeira, onde estava encaixada uma roda com um pedal; na parte superior, uma caixa das ferramentas cuja tampa servia de mesa de trabalho, com um rebolo de afiar; as duas rodas estavam circundadas por uma correia; quando o homem dava ao pedal, a roda circulava e accionava o rebolo. As geringonças mais evoluídas estavam instaladas numa bicicleta, que permitia ao artista deslocar-se com um raio de acção mais alargado. Agarrados à engenhoca, guarda-chuvas velhos, varetas, arames, panos, molas da roupa e outra cangalhada. Ferramentas de trabalho, alicates, sovelas, furadores raspadores, limas, torquês, martelinhos, tesoura, linhas, agulhas, outros apetrechos — e até uma lupa, que as lunetas que o homem usava já não eram suficientes para alguns pormenores e o serviço queria-se bem feito.
Chegado a uma localidade, o amolador tocava várias vezes a gaita anunciadora, a avisar a clientela.
Era o tempo em que ainda se mandava consertar guarda-chuvas e, quando se partia um prato, uma assadeira ou até um penico de louça, não se deitava fora. Se o desastre não era grande, guardavam-se os cacos, para quando passasse o homem da gaita com o seu sarilho ambulante. Ele unia as partes e, manobrando com perícia alicates e furadores, aplicava-lhes uns “gatos” de arame ou latão, que nem um ortopedista a aparafusar ossos partidos. E, enquanto fazia o serviço, mais umas gaitadas, a chamar nova clientela. E lá vinham mais umas mulheres com material para conserto.
Eu, garoto da instrução primária, gostava de ver o amolador a dar ao pedal, como se fosse a roda da fortuna, e o rebolo a girar, lançando uma chuva de faíscas.
Afiadas todas as tesouras, facas e navalhas da terra, “engatados” todos os cacos e consertados todos os guarda-chuvas, o homem arrumava a tralha e seguia adiante, com mais uns tostões no bolso. Não muitos, porque a obra não dava para tal. E lá ia ele pregar a outra freguesia, tocando a gaita e lançando o seu pregão:
COMPOR LOUÇA E GUARDA-SÓIS! AMOLAR TESOURAS E NAVALHAS!
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