Manuel Silva

As três invejas

No nosso país existem 3 tipos de inveja: a dos de baixo, a dos de cima e a intelectual.

A inveja “de baixo” é a dos que não conseguiram subir na vida, alguns, não muitos, por culpa própria, outros, a maioria, devido a continuarmos a ser um dos países mais pobres da Europa. Crescemos mais que a média europeia porque os países mais ricos têm crescido pouco, mas somos também o 4º país que menos cresce na UE.

A nossa economia, arrastada pela economia internacional, baixou, em 2018, 0,7% (de 2,8% para 2,1%). No presente ano prevê-se um novo decréscimo. Além do factor internacional, na legislatura que está a chegar ao fim, o modelo de crescimento foi incorrecto, assentando no consumo e não na produção, bem como no investimento público e privado. Para o pouco investimento privado contribui a elevada carga fiscal.

Este “filme”, já o conhecemos e sabemos que o seu fim não é bonito nem justo.

Ainda continua a existir muita pobreza e miséria. Mesmo que a inveja seja um mau sentimento, é compreensível no Portugal “de baixo”.

Existe também a inveja dos ricos que ficam desgostosos por verem gente pobre subir na vida, ter sucesso no meio empresarial, nos estudos, após a democratização do ensino efectuada na sequência do 25 de Abril. Entre estes invejosos, existem os rurais e os urbanos. Os primeiros, porque se não fossem dadas aquelas oportunidades a pessoas com origens humildes e modestas, as suas quintas continuariam a ser por elas trabalhadas, a troco de um salário de miséria. Está aqui a explicação para, no passado, muitas quintas darem lucro…

Os invejosos urbanos, habitualmente frequentadores do “jet pimba”, como diz Alfredo Barroso, roem-se todos por gente vinda de baixo ter sucesso no meio empresarial. António Champalimaud disse uma vez que se não fosse o 25 de Abril, Belmiro de Azevedo não chegaria a ser um dos homens mais ricos de Portugal. Grande elogio que o Sr. Champalimaud fez, involuntariamente, ao 25 de Abril! É que, antes dessa data, o capitalismo existente era um capitalismo proteccionista, bem espelhado na política de condicionamento industrial salazarista, destinado a manter o mundo empresarial nas mãos das famílias certas, impedindo a criatividade de quem não tinha a mesma origem de classe.

Este tipo de burguesia nunca conviveu bem com os políticos vindos “de baixo”, quando muito tolera-os. Foi assim com Ramalho Eanes, Cavaco Silva, José Sócrates, Passos Coelho, Mota Pinto e tantos outros.

Por fim, temos a inveja intelectual daqueles que não sabem, não querem saber e têm inveja de quem sabe.

Quando alguém mostra um nível de conhecimentos intelectuais e científicos acima da média e da mediocridade cada vez maior na sociedade e, em especial, na classe política, em vez de procurarem aprender com essas pessoas – é o que faz qualquer homem ou mulher minimamente lúcidos e inteligentes – desdenham dessa pessoa e não gostam de ver outros elogiá-la. Quantas vezes o(a) leitor(a) já deu conta disso na via pública, no emprego e, muito especialmente, nos aparelhos partidários, onde prolifera a mediania desconhecedora do país real que, através de redes caciquistas parecidas às da ditadura de Salazar, impede os bons quadros de ascenderem ao topo dos partidos e, quando estes furam a malha, são atacados de todos os lados, incluindo da imprensa que temos, normalmente vendida a interesses, como se tem verificado relativamente a Rui Rio, à semelhança do que se passou com Manuela Ferreira Leite, boicotada por Passos Coelho e Miguel Relvas?

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