Nazaré Oliveira – Coisas e Gente da minha terra

A SENHORA DA GUIA

Avizinha-se a Páscoa e com ela a SENHORA DA GUIA. Era uma festa de que guardo as mais gratas recordações. Ainda mal se fazia a digestão das comezainas do domingo de de Páscoa e, no dia seguinte pela manhã, já se preparava o farnel para a festa. E, à tarde, ala para a Senhora da Guia que, lá no alto, esperava os romeiros, na sua capela, alicerçada nas ruínas do velho castro que os nossos antepassados habitaram, há milénios. Para ali convergia gente de todos os quadrantes, desde a Vila às arestas da serra de Manhouce. Quem não tinha tinha automóvel ia a butes: mulheres com cestos merendeiros à cabeça e filhos pela mão, homens municiados com garrafões. Para nós, os da Vila, por dois caminhos se fazia a escalada do monte: pelas encostas da Quinta da Cónega, onde havia saborosos medronhos, ou pela calçada romana das Maçarocas, que passava em frente do portão daquela quinta, onde — dizia-se — à meia-noite se reuniam as feiticeiras. A juventude académica, que estava de férias, constituía um lote importante dos romeiros. A caminhada fazia parte da festa. Chegava-se ao cimo a bufar.

 

A primeira visita era para a Santa: pagar promessas, cumprir penitências, acender umas velinhas, enfiar umas moedas no buraquinho da caixa das esmolas e as mais devotas e penitentes a dar voltas de joelhos em torno da capela, rezando padre-nossos e avé-marias. Isto era mais com as mulheres. Os homens demoravam menos: um oração apressada, duas benzeduras e, com a imagem da Santa na fita do chapéu ou na lapela do casaco, iam para os adjuntos, à volta das pipas, nas chafaricas assinaladas por ramos de loureiro. Na Capela, as mulheres rezam padre-nossos; junta às pipas, os homens largam palavrões: uma mistura de sagrado e profano.

Lá estavam também as doceiras de Vouzela, com as suas canastras repletas de cavacas, beijinhos e abraços. Na parede da Capela, um painel de pano branco com florinhas de papel e versinhos de amor ou satíricos.

A meio da tarde, contas saldadas com a Santa, era a hora da trincadeira, de forrar o estômago, que também tinha as suas exigências. Não tinham vindo à festa só para rezar e a penitência não incluía dieta. Nem a Senhora da Guia exigia tanto. Cada coisa tinha o seu lugar.

Pelas encostas do monte, abancavam os grupos. Atacava-se o cabrito e o briol escorria pelas goelas abaixo, que o ar dos pinheiros abria o apetite. Comia-se e bebia-se à tripa forra.

Mas nem sempre a festa corria até ao fim sem haver sarilho. A coisa começava geralmente junto das pipas. Rivalidades antigas, ciumeiras, uns copos a mais, o palhete subia, os de Carvalhais pedem meças aos de Baiões, palavra puxa palavra, piada daqui, piada dali, mais umas farroncas e, às duas por três, armava-se a sarrafusca: os lódãos começavam a ensarilhar-se e às vezes faiscava uma navalhita; valentões varriam a festa à paulada. Os menos comilões e mais curiosos interrompiam a merenda e subiam a gozar o espectáculo. Os mais comilões continuavam a trincadeira, não trocavam o cabrito e a pinga pela zaragata. Já estavam habituados, que Senhora da Guia sem pancadaria nem era festa que prestasse. Às vezes, lá havia um ou outro que apanhava mais umas lombeiradas ou um lenho na cabeça e tinha de recorrer ao Hospital, para remendar o canastro. Mas nada disso era morte de homem. Tudo acabava quando aparecia o Silvério “Cara d’Aço” com a patrulha da G.N.R.

Serenados os ânimos, voltava-se, a acabar o resto do farnel e escorropichar o último copo.

Não havia foguetes nem filarmónica. Quando muito, uma tímida gaita de beiços ou uma desgarrada viola. Tudo se resumia a rezar, comer e beber e traulitada uma vez por outra. Entre a gente mais nova, nasciam e morriam namoros. Entre os homens, enquanto viravam copos, projectavam-se negociatas e tão depressa confraternizavam como andavam à cacetada.

A tarde chegava ao fim. Os romeiros começavam a levantar arraiais. As contas com o céu estavam feitas, as consciências mais leves e os estômagos mais pesados. As encostas do monte começavam a ficar desertas. Espalhados pelo chão, ficavam os despojos da batalha gastronómica: ossos, garrafas vazias, cascas de fruta, papéis e outros vestígios de humanas necessidades. Os tasqueiros ajeitavam as pipas vazias nos carros de bois. As doceiras de Vouzela, as suas canastras. Era a debandada. E a Senhora da Guia lá ficava sozinha, no silêncio do monte, com a certeza de que só dali a um ano voltaria a ouvir orações.

Nós, os mais novos, em grupos de raparigas e rapazes, ao cair da tarde, descíamos as encostas do monte, com a alegria da nossa juventude galhofeira, aproveitando o lusco-fusco para ousadias de namoração.

 

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